Filosofia do Design, parte XLVIII – Leitura e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Sinceramente, não acredito que designers precisam ler. Eu disse isso naquela mesa-redonda sobre Leitura e Design e, neste post, tentarei esclarecer meu ponto de vista. Em primeiro lugar, refiro-me à leitura em seu sentido mais amplo – de Harry Potter à Baudelaire, de Crepúsculo à Nietzsche –, podendo ser entendida tanto como cultura quanto como mero entretenimento. Não cabe aqui distinguirmos, pois, uma boa e uma leitura. Mas estamos falando da leitura textual e não da leitura de imagens, gráficos, gestos, etc.

Os designers mais talentosos que conheço não leem mais do que dois ou três livros por mês. Eles não gostam de ler? Gostam sim, mas nosso cotidiano de trabalho desfavorece a leitura: prazos cada vez mais apertados, horas extras, clientes e chefes sem paciência, alterações de última hora, etc. Frente a isso, desconfio que o hábito de leitura não influencia diretamente na diagramação de um livro ou na modelagem 3D de uma cadeira. É óbvio, porém, que a leitura é um ótimo combustível para a criatividade, de modo indireto, contribuindo a longo prazo não apenas em nossa profissão, mas também em nossas relações e decisões.

A questão é que a leitura não é a única fonte de criatividade – alguns buscam inspiração ouvindo música ou viajando pelo mundo, por exemplo. E isso não exclui a leitura. O que eu defendo é que a leitura não contribui necessariamente com a profissão do designer, mas contribui, antes de tudo, em nossa formação humana. Especialmente no ambiente de uma universidade, onde tal formação humanística é (ou deveria ser) prioridade, o hábito de leitura se torna imprescindível para qualquer área.

Neste sentido, é fácil notar que alunos de Psicologia ou História, por exemplo, possuem um repertório de leitura muito mais amplo do que os designers. Consequência disso se traduz na qualidade das produções acadêmicas: enquanto um aluno de Ciências Sociais, por exemplo, apresenta um TCC ou um artigo seguindo uma linha de raciocínio coerente, o estudante de Design tem grande dificuldade para se expressar. Evidentemente, isso pode se tornar um problema posterior, no mercado de trabalho, onde precisamos saber defender uma ideia.

Um dos vários pontos de convergência entre Design e Filosofia (ou qualquer campo das ciências humanas) reside no discurso. Entendo discurso como sendo um conjunto de enunciados que podem partir de diferentes perspectivas, mas que obedecem às mesmas regras de funcionamento: a língua. Para Flusser (em Língua e Realidade), a língua basicamente cria e propaga a realidade: através do discurso, ela exerce a função de (re)organizar o real, pretendendo sempre provocar novos pensamentos e ampliar nosso campo de visão.

Não obstante, a genealogia de Foucault nada mais é do que uma análise dos discursos que sustentam as práticas humanas (como em História da Loucura) ou as engendram (como em As Palavras e as Coisas e A arqueologia do Saber). Merleau-Ponty localiza o discurso entre o pensamento e a expressão do pensamento: quem fala não sabe necessariamente melhor sobre o que pensou do que quem escuta. Logo, o discurso não é somente pensamento ou expressão, mas também o domínio de um pensamento que ainda não pensamos.

Talvez por isso que Clarice Lispector dizia que aquilo que ela escreve se transforma lentamente naquilo que ela sente. Ou quando Heidegger afirmava que cada ideia nova se torna diferente após ser compreendida. Posto de outra forma, ler significa compreender um discurso que fazemos a nós mesmos. Escrever, por sua vez, significa antecipar o discurso que será traduzido por quem lê. Seguindo este raciocínio, alguém que lê bastante não é necessariamente um escritor habilidoso. O contrário, contudo, é necessário: um escritor habilidoso é sempre alguém que lê bastante.

Do mesmo modo, acredito que o hábito de leitura não garante nada na atuação em Design. Mas a leitura é uma virtude em potencial aos designers e a qualquer pessoa na medida em que ela contribui para nossa formação humana. Digo mais: não se trata de uma virtude intelectual, argumentativa, espiritual ou qualquer blablabla do gênero. Ao que me parece, trata-se de uma espécie de vício por novos pensamentos, sentimentos e experiências. Um vício sem utilidade alguma e que, somente por ser vício, permanece prazeroso e inesgotável.

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