Filosofia do Design, parte XXXI – Projetar e Ilustrar

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Como estou sem assunto ultimamente (e sem tempo também), aproveito a deixa do AntiCast para comentar meu ponto de vista sobre a polêmica questão do Design X Ilustração:

“Design é projeto, não ilustração. Capa de disco não é design, caixa de sabão em pó não é design. Se eu projetar a caixa para fazer com que o pó caia facilmente, isso é design. Mas pegar uma caixa quadrada ou retangular e pinta-la de vermelho e branco não é. Isso até poderia ser design se se tratasse de uma linha de produtos, pois a preocupação com o comportamento da identidade de uma empresa entraria como parte da ilustração das caixas. Quem fizer apenas a ilustração de uma caixa e submetê-la à pesquisa de mercado vai acabar fazendo o que a McCann Erickson fazia tempos atrás, quando eu trabalhava lá. Eles produziam milhares de versões de embalagens dos cigarros Continental para o cliente escolher. Isso pode ser design?” – Alexandre Wollner.

A visão de Wollner se insere naquilo que eu chamo de “sonho industrial” do design moderno, ou seja, aquilo que a escola de Ulm (onde Wollner estudou) cultuava e propagava em seu programa de ensino. Neste sentido, postula-se que um trabalho de design gráfico deve durar no mínimo vinte ou trinta anos, o que acaba excluindo, por exemplo, grande parte da produção em Design Editorial e em Design Publicitário – como revistas, cartazes, anúncios e, em suma, tudo que é feito para durar pouco.

by William Morris

É óbvio que isso exclui muita gente importante na história do design gráfico. O exemplo mais gritante talvez seja David Carson (diretor de arte, tipógrafo e diagramador da revista Ray Gun). Mas nem mesmo Gutenberg seria salvo, já que suas iluminuras e capitulares envolvia muito de ilustração, não sendo portanto uma boa solução industrial. E o que dizer sobre William Morris, que em plena efervescência industrial defendia o trabalho manual/artístico? Embora sua prioridade fosse a legibilidade do texto, valorizava igualmente ilustrações, ornamentos, filetes, capitulares, etc. Enfim, daria para listar muitos exemplos aqui, mas o fato é que Wollner, mesmo reconhecendo a dificuldade em se definir o que é design, estabelece milhares de restrições que acabam limitando muito o nosso campo de atuação.

Mas não é exatamente por isso que eu discordo de que ilustração não é design. Eu discordo principalmente porque se trata de uma explicação muito FÁCIL, no sentido de simplista. Pois a definição adotada é aquela que compreende o Design apenas como algo que surgiu com a revolução industrial, excluindo tudo aquilo que se praticava antes disso e que poderia também ser considerado Design (como a ilustração). Particularmente, eu vejo o Design registrado historicamente através da ilustração: tapete de Bayeux, Coluna de Trajano, lâminas mudas dos alquimistas medievais, etc. Partindo do pressuposto de que Design é uma atividade imanente ao homem de tentar controlar o seu próprio entorno, inclusive o seu próprio destino, a ilustração me parece ser a linguagem que melhor expressa tal atividade.

by Leonardo Da Vinci

Em termos práticos, a ilustração apresenta uma objetividade implícita do projetar que é contraposta à subjetividade de uma linguagem puramente humana. Explico: o contexto de um projeto de design é objetivo, isto é, ele pede determinada atitude preestabelecida (através do briefing, prazos, custos, etc). Contudo, a subjetividade do designer é também determinante (e preestabelecida) na medida em que respeita tais circunstâncias e, ao mesmo tempo, tem a capacidade de aproveitar, especialmente com a ilustração, as lacunas subjetivas do designer – seu repertório, técnica e potencial criativo.

O interessante, portanto, é tentar contrabalancear bem esta relação, entendendo que o designer/ilustrador é apenas um co-autor de determinado projeto. Contrariando muitas abordagens semióticas que tratam o designer como um decodificador de informações, creio que nosso papel é justamente o de codificar, à nossa maneira (isto é, subjetivamente), informações que já estão decodificadas. Isso se torna evidente quando se trata de ilustração: ao tentar transferir um conteúdo verbal ou textual para o suporte imagético, o ilustrador impõe a sua própria voz na mensagem. Afinal, “por mais que nos empenhemos em busca da objetividade, as limitações do conhecimento e das percepções pessoais acabam por se impor” (MEGGS, 2009, p. 10).

Então significa que fazer design é ilustrar? Evidentemente, a ilustração está relacionada a uma situação específica, envolvendo literalmente a produção de imagens. Mas se adotarmos um ponto de vista estritamente ontológico, isto é, focando no sentido de ser do ilustrador, é possível dizer que estamos todos, designers e ilustradores, tentando propor novas experiências e interpretações ao meio que nos cerca. No fim das contas, se para Fernando Pessoa (1999, p. 116) “a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”, eu encaro a ilustração como a maneira mais agradável de reencontrar a vida com outros olhos. Somente assim que, para mim, o Design faz sentido – dando-nos a ideia de que somos parte de algo maior do que aquilo que nós vemos.

Referências Utilizadas:

- MEGGS, P. B. História do Design Gráfico. São Paulo: Cosacnaify, 2009.

- PESSOA. F. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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