Filosofia do Design, parte XXXII – o Design da Programação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Google before you tweet is the new think before you speak. Dizem que estamos na era da informação. Mas a informação sempre existiu: etimologicamente ela significa a forma no interior das coisas. É como se a informação fosse o software e a coisa fosse o hardware. O que acontece é que atualmente não há mais sentido em se ter as coisas, apenas em conhecê-las e experimentá-las. Mais do que isso, em compartilhar informações. A sociedade dedica-se cada dia mais à produção de informações, de serviços, de gestão e de programação. E o designer, a princípio, se dedica à produção de coisas.

Na verdade, desde sempre o ser humano modifica as coisas que o rodeiam. E desde sempre produz informação. Por este motivo, entendemos a história da humanidade como o processo através do qual o homem transforma a natureza em cultura. A ideia de progresso, no entanto, se torna relativa quando percebemos o seguinte círculo vicioso: as coisas produzidas pelo homem, ditas artificiais, regressam à natureza na forma de detritos. Por isso a produção de informação está tão na moda, isto é, a cultura não-material. Trata-se daquilo que Flusser (2010) chama de não-coisas. “E estas não-coisas são simultaneamente efêmeras e eternas” (op. cit., p. 103). Seguindo este raciocínio, nossas mãos tornam-se supérfluas (não podemos pegar uma não-coisa), ao passo que as pontas dos dedos se tornam nosso instrumento de decisão.

Se eu aperto o gatilho de um revólver apontado para mim mesmo, significa que decidi tirar-me a vida. Aparentemente, esta é a máxima liberdade humana: sou capaz de me libertar de qualquer dificuldade apertando um gatilho/tecla/botão. Mas um olhar mais atento perceberá que, ao apertar o gatilho, eu apenas aciono um processo pré-programado no revólver. A liberdade de decidir apertar uma tecla com a ponta dos dedos revela-se uma liberdade programada, uma escolha entre possibilidades predefinidas. Este quadro sugere que o futuro da cultura não-material será dividido em duas classes: os que programam e os que são programados. Mas novamente um olhar mais atento perceberá a possibilidade de meta-programas, revelando infinitos níveis de programadores de programadores. Logo, o cenário do futuro imaterial sinaliza uma sociedade de programadores programados.

No entanto, os programas estão cada vez melhores, com possibilidades de escolha que superam astronomicamente a capacidade humana de tomar decisões. Temos a sensação de tomar decisões de forma absolutamente livre. O programa então se torna invisível – ele só era visível em seu estado embrionário. A invenção da tipografia, por exemplo, possibilitou que a burguesia em ascensão usufruísse da programação da elite aristocrática. E a Revolução Industrial programou a massa camponesa graças à imprensa e à escola primária. No decorrer do século XIX, o alfabeto começou a funcionar efetivamente como código universal. E o programa se tornou invisível. Pois o indivíduo emancipado, capaz de tomar decisões livremente, simboliza a utopia com que a humanidade sonhou desde sempre.

Seria esta a nossa programação original? Se sim, talvez o maior erro de programação ainda não resolvido seja a nossa própria condição humana, “aquela que é a condição emocional fundamental da existência, isto é, o ser para a morte, independentemente do fato de a morte ser vista como coisa última ou como não-coisa” (FLUSSER, 2010, p. 100). Somos coisas perecíveis e materiais, ainda que nossas decisões fiquem eternizadas na efemeridade imaterial de nossos programas. Substituímos a vida por um outro programa, mas não conseguimos substituir aquele que nos programou.

Particularmente, sou grato por poder consumir e usufruir deste novo quadro programático. Pois a paisagem moderna da cultura material certamente não corresponde ao paraíso que nossos bisavôs pensavam que fosse – e agora estamos, aos poucos, recusando esta materialidade, deixando de manusear concretamente as coisas. As noções de produtividade, utilidade, trabalho e experiência prática estão mudando de sentido radicalmente. Não vejo mais o designer apenas como um homo faber (um homem de ação), mas também como um homo ludens (um jogador). Acredito que os projetos dramáticos, com ações e soluções, estão perdendo espaço para os projetos trágicos, feitos de sensações, como verdadeiros espetáculos. Afinal, não vemos mais sentido em fazer ou ter, mas sim em conviver, conhecer, compartilhar, vivenciar.

Se outrora perdemos a fé nas imagens e na magia divina para nos conduzirmos à ciência e à tecnologia, hoje estamos perdendo a crença nos textos (explicações, teorias, ideologias) que, assim como as imagens, também podem ser reconhecidos como mediações. Mas não estamos retrocedendo ao mundo primitivo das imagens. Para Flusser (2007), estamos em direção ao mundo das tecnoimagens, isto é, modelos imagéticos que ilustram textos (que outrora explicavam as imagens). Esta imaginação tecnológica estaria, pois, descartando os antigos programas (a política, a filosofia, a ciência) e solicitando novos programas que impeçam a falta de sentido implícita em um mundo cada vez mais codificado pelo homem. Caberia ao Design este recomeço dos novos programas? Ou seria o Design mais um programa a ser substituído?

Referências Utilizadas:

- FLUSSER, V. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Org. Rafael Cardoso. Trad. Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

- _________. Uma Filosofia do Design: A Forma das Coisas. Trad. Sandra Escobar. Lisboa: Rológio D’Água, 2010. [disponível em inglês como The Shape of Things: A Philosophy of Design, Londres, Reaktion, 1999]

[as ilustrações utilizadas neste post são de Laurie Lipton, via IdeaFixa]

2 respostas

  1. Luiz Gustavo disse:

    Curti o texto.!
    Gostei de como trabalhou o conceito de programação de Flusser a nível das instituições e classes.
    Só fiquei com uma coceira: a cultura imaterial não sempre produziu indissociavelmente programadores programados?

    • Obrigado, Luiz Gustavo!

      Interessante essa sua colocação, daria uma boa hipótese de pesquisa. Não sei se para Flusser as não-coisas tenham existido desde sempre, mas eu acredito que sim. Pois na cultura-imaterial há um elemento irredutível de não-relação com o mundo: por se sentir alienado e volatizado em um “programa” no qual as regras lhe escapam, o homem procura reconstruir um programa próprio que lhe seja transparente, detendo seus mecanismos a partir de um raciocínio que, no fundo, vem a ser ele mesmo.

      Contudo, todo programador está fadado ao fracasso (a ser programado): por mais complexo e abrangente que seja o seu programa, é pela falta e pelo inacabado que tal programa consegue funcionar. A não ser que o programador tenha regredido à abstração total (ou ao delírio), é praticamente impossível preencher todas as lacunas sem desconfiar de um outro programa que está por detrás delas. O que define o discurso imaterial não é a presença de evidências, mas justamente a sua ausência. E no meu entendimento, essa ausência se traduz em paixão, procura, medo, enfim, aquilo que nos parece “misterioso” nas outras pessoas.

      Por fim, eu colocaria essa questão que você levantou sob outro ângulo: podem os programas e as não-coisas constituir uma outra linguagem além da nossa? Os programas podem por meio dos homens (programados) constituir um outro mundo além daquele mundo codificado existente a si mesmo? Ao meu ver, a nossa memória, nossos sonhos e nossa imaginação são indícios de uma real estrutura imaterial que sempre existiu em paralelo ao mundo que nos cerca.

      Abraços

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