Fragmentos filosóficos #11 – Spinoza sobre os afetos

Este é o décimo primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro I da Ética de Spinoza (Belo Horizonte: Autêntica, 2007, III, definição 3, p. 98). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação.

Spinoza viveu sua breve existência (1632-1677) como um epicurista: buscava mais alegria e prazer ao menor “custo” possível. Tal conduta implica, em primeiro lugar, conhecer o que somos, a maneira como as paixões nos habitam; depois, conhecer o mundo, isto é, quais as relações que estabelecemos com os modos múltiplos de existência. Não se trata, porém, de duas coisas separadas, como uma cisão cartesiana entre corpo e mente; pelo contrário, conhecer o que somos significa imaginar o que somos a partir de nossa inserção no mundo, portanto a partir do que é comum a ele e a nós: nossos afetos.

Retrato de Spinoza por Philipp Banken

É preciso considerar que, para Spinoza, a mente não existe apartada do corpo, porque ela é a ideia que o corpo faz de si mesmo. Ou seja, a mente “se imagina” a partir do corpo. Trata-se, com efeito, da tradução (em termos de conceitos e imagens) das muitas maneiras pelas quais nosso corpo pode afetar e ser afetado pelo mundo. Por conseguinte, a imaginação é uma interação constante com o mundo, num fluxo de afetos que se implicam mutuamente: imaginamos as coisas na medida em que elas nos afetam, e elas nos afetam na medida em que reconhecemos nelas uma imagem refletida de nós mesmos.

Ocorre que o modo como “afetamos” a nós mesmos pode aumentar ou diminuir nossa potência de agir no mundo – algo similar à distinção nietzschiana entre ressentimento e adesão ao mundo/vida. Uma vez que nossa inserção no mundo se dá por meio de afetos, “potência de agir” resulta do conhecimento que temos dos afetos: saber que a vida é finita, mas permeada de paixões, sofrimentos e alegrias, intensifica nossa vontade de viver. Em contrapartida, se ignoramos o fato de que o conhecimento é também afetivo (sendo a maneira pela qual o corpo se relaciona com o mundo), essa mesma potência de agir pode diminuir em prol de valores tidos como “independentes” do corpo e seus afetos.

O dado relevante da ética spinozista, portanto, não diz respeito a orientações categóricas como “Bem” e “Mal”, e sim aos fluxos e intensidades, ao modo particular como conhecemos nossos afetos e, com isso, potencializamos nossa relação com o mundo. Apesar de dispormos de uma margem de manobra bastante limitada em relação aos afetos (não se “escolhe” sofrer ou alegrar-se), saber disso já é um ponto de partida para orientar nossos desejos no sentido de eleger certas fruições, de optar por determinadas disposições em detrimento de outras, enfim, de investir nesse ou naquele afeto que intensifica nossa vontade de viver.

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