Fragmentos filosóficos #12 – Carlyle sobre o “espírito do capitalismo”

220px-Thomas_Carlyle_lmEste é o décimo segundo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Past and Present (Project Gutenberg, 2008, s.p.). Seleção, tradução e comentários de Daniel B. Portugal.

Para o presente editor, não menos que para Bobus, um governo dos mais sábios, o que Bobus chama de Aristocracia do talento, parece o único remédio curativo: mas ele não é tão sanguíneo quanto Bobus no que diz respeito aos meios de realizá-lo. Ele acredita que nós perdemos de uma vez a chance de fazê-lo, e viemos a necessitá-lo de maneira tão urgente, ao nos afastarmos das Leis interiores eternas e nos aproximarmos de fachadas de Leis externas e temporárias. Ele acredita que “egoísmo iluminista”, nunca tão iluminado assim, não é a regra por meio da qual a vida humana pode ser pautada. Que “Laissez-faire”, “oferta e demanda”, “pagamento em dinheiro como único elo”, e assim por diante, não foram, não são e nunca serão, uma Lei praticável de União para a Sociedade Humana. Que pobres e ricos, governados e governantes, não podem viver juntos com base em qualquer Lei de União de tal tipo. Ele acredita que o homem possui uma alma dentro de si, diferente do estômago em qualquer sentido da palavra; que se a mencionada alma for asfixiada, e ficar silenciosamente esquecida, o homem e seus afazeres estão em um mau caminho. Ele acredita que a alma em questão terá que ser ressuscitada de sua asfixia; que se ela não puder ser ressuscitada, o fim do homem se encontra próximo. Em resumo, que o mammonismo com orelhas de Midas, diletantismo hipócrita e seus muitos corolários não são a Lei que Deus todo-poderoso instituiu neste Universo.

Carlyle é um dos principais pensadores do romantismo inglês e, embora não seja muito conhecido no Brasil, é sem dúvida uma figura importante na história do pensamento, tendo influenciado, dentre muitos outros autores, Nietzsche. O trecho acima é representativo da crítica romântica à cultura de valorização do consumo, do dinheiro e da produção industrial, que se consolidava na virada do século XVIII para o XIX (Carlyle escreve em meados do século XIX). Aproveitei, no título, uma expressão que não é de Carlyle (e sim de Weber), mas que me parece ser a que melhor indica esse conjunto de valores e normas culturais que estão sendo criticados: “espírito do capitalismo”.

Como se pode observar, o estilo de Carlyle nem sempre facilita a compreensão, e as referências obscuras se acumulam. Carlyle expressa seu ponto de vista pela figura do editor, na terceira pessoa, e começa comparando sua opinião com a de um Bobus, que aparece, em sua obra, como figura representativa do burguês endinheirado e com pretensões políticas, que defende a “meritocracia” — ou seja, uma figura que continua bastante familiar hoje. Carlyle concorda com Bobus no que diz respeito à necessidade de uma aristocracia do talento, mas afirma discordar dos meios para realizá-la. Na verdade, porém, ele discorda não apenas dos meios, mas também dos fins, uma vez que a “aristocracia do talento” que ele defende é muito diferente da “aristocracia do talento” de Bobus. Esta, ele considera falsa: “Eu acredito que você [Bobus] seja capaz de venerar a fama do talento, o poder, o dinheiro, a celebridade ou outros sucessos relacionados ao talento; mas o talento ele próprio é algo que você nunca viu com os olhos”.

Para Carlyle, o talento é algo que envolve uma conexão com o fluxo da vida, da natureza. O homem talentoso, ou, como ele prefere, o herói, é sua versão do gênio romântico, aquele que consegue ver para além dos parâmetros estreitos da cultura “corrompida”, essa cultura na qual a razão instrumental é soberana e o dinheiro o bem mais precioso. A chance de se instituir uma aristocracia do talento, portanto, beira zero quando o “espírito do capitalismo” está consolidado a ponto de fazer com que a gigantesca maioria despreze os verdeiramente talentosos (quem quer que sejam esses tais “heróis” que Carlyle tanto admira) enquanto adora os ricos e famosos. Esta forma de valoração “corrompida”, Carlyle liga ao pensamento moral iluminista que pressupõe ser o humano guiado pelos seus apetites ou “desejos egoístas” — o utilitarismo de Bentham sendo a principal referência. Para Carlyle, essa visão deixa de fora uma dimensão do homem que não pode ser reduzida, como gostaria Bentham, ao “estômago”, ou seja, aos apetites (em sentido geral, incluindo também, por exemplo, o desejo sexual). O projeto de Carlyle é restaurar essa dimensão da qual estamos alienados — nossa “alma asfixiada”, que, se revivida, nos conectaria novamente com o Absoluto.

Termino estes breves comentários apontando para como é fácil identificar em Carlyle e outros românticos as raízes de algumas críticas atuais ao capitalismo, ao consumo e às relações sociais mediadas pelo dinheiro.

 

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