Fragmentos filosóficos #10 – Jung sobre a sombra

CGJungEste é o décimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Aion (Obra completa, v. 9/2. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 19). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispensar energias morais. Mas nessa tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência.

Nesse último semestre, tenho me dedicado a estudar o pensamento de Jung. Embora Jung não seja um filósofo, sua obra possui muitas ressonâncias filosóficas e é particularmente interessante para refletirmos sobre questões éticas. Como se sabe, Jung teve uma participação importante no movimento psicanalítico e foi alçado por Freud, em 1910, à presidência da nascente Sociedade Psicanalítica Internacional. Jung, porém, queria transformar a psicanálise em um caminho espiritual que preenchesse o vácuo deixado pelo desmoronamento das formas tradicionais de espiritualidade. Isso leva ao rompimento entre Freud e Jung, e as propostas deste último estabelecem o campo conhecido como “psicologia analítica”.

O tema da sombra me parece um dos temas mais interessantes da psicologia analítica. Dentre outros motivos, porque ajuda a entendermos algumas semelhanças e diferenças entre o pensamento de Freud e de Jung. Isso porque aquilo que Jung chama de sombra é essencialmente o inconsciente freudiano — seu núcleo é o conjunto de complexos formados por representações reprimidas. A integração desse inconsciente ao eu é também, de certa forma, o objetivo de Freud, mas, em Jung, esse processo ganha novas dimensões, marcadamente morais e espirituais.

A integração da sombra, ou seja, o reconhecimento dos “aspectos obscuros da personalidade” é a “base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento”, mas nem de longe esse “trazer  à consciência” e fazer advir o eu onde antes só existia o Id — para usar uma fórmula famosa de Freud — garante aquilo que Jung considera o verdeiro objetivo espiritual: a individuação. A integração da sombra, composta principalmente pelo inconsciente pessoal, é apenas a primeira etapa no caminho para a individuação: as demais etapas — sobre as quais espero falar em um post futuro –, colocarão a consciência em contato com o Inconsciente coletivo, sobretudo através dos arquétipos.

Já essa primeira etapa — a da integração da sombra –, porém, apresenta dificuldades, como Jung deixa claro no trecho citado. A consciência treme de medo frente à potência desconhecida do inconsciente, e os constructos culturais que costumavam nos ajudar a assimilar a sombra (a religião, por exemplo) desmoronaram, de tal forma, que, como observa Jung em A natureza da psiquê, hoje: “o ‘homem sem sombra” [...]  é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber acerca de si mesmo”.

 

Uma resposta

  1. Moacir disse:

    Como reconhecer algo obscuro se o mesmo é obscuro, talvez possamos nos aproximar da idéia de reconhecimento de que existe algo obscuro e isso por si só não quer dizer muita coisa.ou até possa dizer algo , mas algo que não necessariamente leve ao autoconhecimento. Confesso minha confusão.

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