Fragmentos filosóficos #14 – Kant sobre o espaço

ImmanuelKantpicEste é o décimo quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Crítica da razão pura (Petrópolis: Vozes, 4. ed., 2015, B 38), de Kant. Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

O espaço não é um conceito empírico que tenha sido derivado de experiências externas. Pois para que certas sensações sejam referidas a algo fora de mim (i.e., a  algo em um outro lugar do espaço que não naquele em que me encontro), e para que, do mesmo modo, eu as possa representar como externas umas ao lado das outras, portanto, não só diferentes, mas como em diferentes lugares, para isso a representação do espaço já tem de servir-lhes de fundamento. A representação do espaço não pode, assim, ser extraída da experiência a partir das relações do fenômeno externo, mas é antes esta experiência externa que só é possível por meio de tal representação.

O que é o espaço? Será que é algo fora de nós que vemos aí, no mundo? Olhamos para o mundo e vemos coisas situadas no espaço — podemos ver infinitos tipos de coisas: cadeira, montanha, carros, árvores, ratos, mãos, azulejos, rodas etc. Mas será que podemos ver um espaço sem nada? Ou, mais importante, algo que não está no espaço? Aparentemente não. Podemos ter a sensação de cores, luminosidades etc., mas, na medidas em que nestas cores e luzes identificamos um objeto qualquer, este objeto só pode ser um objeto no espaço. Não existem, para nós, objetos fora do espaço. Podemos, claro, imaginar algo que se localiza em outro espaço (embora, na verdade, a própria noção de “outro” perca o sentido aqui), mas ver, mesmo que imaginariamente, algo fora de todo espaço é impossível: o que é uma coisa para nós, afinal, senão algo no espaço?

Mas, se é assim, não seria razoável pensar que o espaço, longe de ser uma coisa que percebemos, é aquilo que torna possível a nossa percepção das coisas? Ou, como diz Kant, que para que as coisas sejam percebidas, “a representação do espaço já tem de servir-lhes de fundamento”? Nesse caso, o espaço tem que ser entendido como uma representação na medida em que ele é algo para nós (para um sujeito), e não algo em si. Ele é uma representação ou um “algo para nós” muito especial, porém, na medida em que ele tem que preceder a aparição de qualquer outro algo (uma vez que tudo aquilo que aparece para nós — todo fenômeno — é algo no espaço). Kant conclui, então, que o espaço é “uma representação necessária a priori que serve de fundamento a todas as intuições externas”. Ou seja, é algo como a “estrutura” da nossa capacidade de perceber, aquilo que possibilita a nossa percepção de objetos externos. Os espaço possibilita “estruturarmos” (no sentido de dar forma) sensações sempre variáveis em objetos definidos. Ele é, assim, parte da “forma” daquilo que percebemos enquanto a sensação é como se fosse a “matéria” do percebido.

O espaço, portanto, é empiricamente real, ou seja, é real na medida em que é parte necessária de toda a realidade perceptível. Mas não é nada senão uma quimera fora daquilo que pode aparecer para nós (ou seja, fora da representação). Daí ser absurdo, por exemplo, perguntar pela localização de nossa mente no espaço ou imaginar que algo no espaço (por exemplo, nosso cérebro) pudesse produzir nossas representações (já que isto significaria, em última nstância, dizer que algo no espaço é a fonte do próprio espaço). Igualmente absurdo seria procurar provas ou refutações da existência de Deus por meio de nosso conhecimento empírico, necessariamente limitado ao espaço. Esta noção do espaço, portanto (e a do tempo, que possui, para Kant, estatuto semelhante ao do espaço), ajuda a perceber como algumas aplicações equivocadas de nossa razão geram pseudoconhecimentos um tanto bizarros. Por outro lado, para Kant, ela ajudaria a fundamentar conhecimentos que possuiriam, para nós, validade universal — por exemplo, a geometria, que, para Kant, seria um conhecimento a priorístico baseado em nossa representação do espaço.

Uma resposta

  1. Danilo disse:

    Muito bom. Entretanto, para Kant, o tempo tem primazia sobre o espaço. E a imaginação sobre os dois, uma vez que ela os cria.

Deixe uma resposta


+ sete = doze