Fragmentos filosóficos #15 – Wittgenstein e os limites do pensar

Este é o décimo quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Tractatus logico-philosophicus (3. ed. Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Edusp, 2008, p. 131), no prefácio escrito por Wittgenstein. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos: a fim de traçar um limite  para o pensar, deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser pensado). O limite só poderá, pois, ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será simplesmente um contrassenso.

A leitura do Tratactus logico-philosophicus nos ajuda a compreender não só como a reflexão sobre a linguagem adquiriu lugar de destaque na filosofia contemporânea, mas também algumas das bases de toda filosofia analítica e, em especial, do empirismo lógico. Ao passo que Kant (e a filosofia moderna em geral) procurou estabelecer os limites de nossa capacidade de conhecer e, com isso, também os limites de nossa “razão”, o jovem Wittgenstein buscou determinar os limites da linguagem como sendo os mesmos limites do que pode ser pensado, dito ou mesmo atualizado (no sentido de “vir-a-ser”) no mundo.

Para tanto, o livro em questão quase não contém argumentos, somente proposições que se pretendem auto-evidentes. Tais proposições, hierarquicamente numeradas de 1 a 7 e desdobradas em diversos subníveis, podem ser assim resumidas: o mundo não é a totalidade das coisas possíveis, mas a totalidade dos fatos (isto é, coisas que subsistem); o pensamento é a representação lógica dos fatos por meio da linguagem (que é limitada logicamente); o fato de um pensamento limitado poder pensar em seus próprios limites é um contrassenso.

Pois bem, se levarmos a sério a assunção de que o mundo é exaustiva e inevitavelmente lógico, é natural que possamos pensar (através da lógica) em todos os seus limites. Ocorre que a própria relação entre um pensamento e o fato que ele representa não pode ser descrita logicamente, pois tal relação se situaria para além dos limites da linguagem. Decorre daí a indagação: como podemos pensar nesses limites que logicamente não podem ser pensados?

A resposta de Wittgenstein é que essa indagação é absurda, ou seja, não é lógica. E que, embora seja sempre possível construir proposições absurdas, nunca será possível pensar o impensável (isto é, aquilo que estaria para além dos limites da linguagem). Mas pensemos, por exemplo, na seguinte proposição moral: “roubar é errado/mau”. Apesar de não haver uma relação lógica entre tal proposição e os fatos por elas designados (os fatos, por exemplo, de certa esfera política brasileira), ela permanece aí, existindo de maneira absurda.

Segundo Wittgenstein, isso se explica pelos próprios limites da linguagem: não é outra coisa senão a linguagem que nos leva a perceber o absurdo que ela mesma é capaz de instaurar. Atribuir valor às coisas, portanto, não é algo que atua sobre os fatos no sentido de produzi-los ou alterá-los (possibilidade que acrescentaria os valores à lista de fatos do mundo), e sim algo cuja ação consiste em aceitar a lógica que os limita. Restam então os contornos de uma ética wittgensteiniana, sobre a qual pretendo discorrer em outro post: se não há valores no mundo, devemos aprender a dar a mesma e indistinta importância a todos os fatos.

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