Fragmentos filosóficos #17 – J. Crary e o problema da atenção

Este é o décimo sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna (São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74-75), de Jonathan Crary. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Se a distração surge como problema no final do século XIX, isso ocorre de maneira inseparável da construção paralela, em vários campos, do observador atento. Embora Benjamin faça afirmações positivas sobre a distração em alguns de seus trabalhos [...], ele sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo. [...] Em vez disso, argumento que atenção e distração não podem ser pensadas fora de um continuum no qual as duas fluem incessantemente de uma para a outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas.

Boa parte da crítica cultural recente, derivada de uma já desgastada tradição marxista, tem se baseado na ideia de “distração” (fragmentação, estetização, esvaziamento etc.) para caracterizar a (des)subjetividade contemporânea. O que propõe, em contrapartida, o historiador foucaultiano J. Crary é que essa ideia de “distração” tornou-se possível somente no interior de sua relação recíproca com a emergência das normas e práticas voltadas à atenção.

Desde os anos 1990, Crary tem desenvolvido um trabalho genealógico (e não tanto historiográfico) a respeito da experiência perceptiva e dos regimes de visualidade. Em Técnicas do observador (já resenhada por aqui), o autor examina o modo pelo qual as práticas de representação, no inicio do século XIX, possibilitaram a ideia de uma “visão subjetiva”. Grosso modo, se antes uma representação aludia a algo “em si”, como referencial objetivo, passou-se a entendê-la como algo que foi visto por alguém, em sua particularidade e em meio a instâncias dispersas. Tal desobjetivação da visão amparou tanto a concepção romântica de uma “estética purificada” quanto o desenvolvimento da óptica fisiológica.

Por conseguinte, em Suspensões da percepção, Crary investiga o aparecimento, no fim do século XIX, de um modelo de atenção que suplantaria os modelos clássicos de visão (pautados na autopresença entre o observador e o mundo). Uma vez presumida a impossibilidade de apreender por inteiro a realidade objetiva – ausência que se tornará fundamental nas reflexões de Blanchot, Bataille, Lacan etc. –, a capacidade de “prestar atenção” (em um número reduzido de estímulos) passa a ser considerada condição de uma subjetividade plena.

Para sustentar tal argumento, Crary analisa algumas obras-chave de Manet, Seurat e Cézanne: “o que elas têm em comum é um enfrentamento do problema geral da síntese perceptiva e da capacidade unificadora e desintegradora da atenção” (p. 31). De maneira análoga à estratégia de Foucault na abertura de As palavras e as coisas (em que As meninas de Velázquez condensam, em termos visuais, toda a problemática do sujeito clássico), Crary mostra-nos que, na problemática conjugada nas obras analisadas, a “atenção” pode significar tanto retenção quanto espera de que algo aconteça (tal como um operador de radar).

É desse modo que irão adquirir valor discursivo, nas reflexões do século XX, os sentidos de tensão, distinção, abjeção, ausência, adiamento etc. No mesmo movimento, ganhará importância a conduta moral de “concentrar-se” unicamente no trabalho, nos estudos e no lazer. E no fim do século XX, com efeito, não foi à toa que a ideia de “distração” (diagnosticada em termos de “déficit de atenção”) tornou-se epíteto de uma “crise do sujeito”, alarmada por tantos educadores e lamentadores pós-modernos.

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