Fragmentos filosóficos #18 – Agamben e o homem sem conteúdo

Este é o décimo oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O homem sem conteúdo (Trad. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 72), de Giorgio Agamben. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Como o espectador, frente à estranheza do princípio criativo, busca, de fato, fixar no Museu o próprio ponto de consistência, [...] do mesmo modo o artista, que fez, na criação, a experiência demiúrgica da absoluta liberdade, busca agora objetivar o próprio mundo e possuir a si mesmo. [...] Frente ao espaço estético-metafísico da galeria, um outro espaço se abre que lhe corresponde metafisicamente: aquele puramente mental da tela de Frenhofer, no qual a subjetividade artística sem conteúdo realiza, através de um tipo de operação alquímica, a sua impossível verdade.

Em 1970, aos vinte e oito anos de idade, Agamben publicou seu primeiro livro, O homem sem conteúdo, composto de dez ensaios sobre filosofia da arte. Partindo de uma reflexão da Genealogia da moral (III), em que Nietzsche opõe arte desinteressada (concepção kantiana) à arte como experiência vital, Agamben descreve a oposição entre as figuras do retórico e do terrorista na arte moderna/contemporânea. Enquanto os retóricos dissolvem todo o significado na forma, os terroristas buscam, ao contrário, um sentido que não pode ser representado.

Retrato de Agamben (grafite) em La Demeure du Chaos (Musée l’Organe), França (2010).

O pintor Frenhofer, aludido na citação elencada, é um personagem de Balzac (A obra prima desconhecida) que buscava produzir, pela pintura, um duplo perfeito de suas ideias; uma vez concretizado tal empreitada, Poussin, o espectador, só enxerga na tela uma confusão de cores desprovidas de sentido. “Eis o Terrorista colocado em confronto com o paradoxo do Terror. Para sair do mundo evanescente das formas, ele não tem outro meio senão a própria forma” (p. 31-32). Por isso que, “se confiássemos hoje aos próprios artistas a tarefa de julgar se a arte deve ser admitida na cidade, [...] estariam de acordo com Platão quanto à necessidade de bani-la” (p. 24).

A figura do retórico, por sua vez, estaria atrelada à formação do homem de “bom gosto” (projeto de crítico de arte) e à centralidade do espaço do museu. No interior de um circuito fechado e autorreferencial, o retórico (artista e espectador) é incapaz de se identificar com qualquer conteúdo, limitando-se a um jogo de espelhamentos formais. Com efeito, oscilando entre a retórica e o terror, a lógica da arte contemporânea seria a da forma sem conteúdo – e também o inverso, a do conteúdo sem forma.

Pois bem, a tese que Agamben sustenta ao final é a de uma crise da poíesis, derivada da separação moderna entre originalidade e reprodutibilidade. E nisso se evidenciam os traços benjaminianos acerca de, grosso modo, uma “perda do presente” (da tradição, da história, dos conteúdos). Enquanto Platão condenava os efeitos da poíesis, Agamben suspeita que a arte tenha se esvaziado de conteúdo. Ambos expressam, no limite, uma mesma exigência de regular a técnica pela via intelectual. Ora, se a concepção grega de técnica nunca se restringiu à atividade artístico-poética, penso que o jovem Agamben ainda caminhava em meio às ruínas da República.

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