Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente.

Sendo o “real” tudo o que existe, e sendo tudo o que existe somente o que existe, todo o resto é nada. Natureza, amor, valor, sentido, finalidade, necessidade, desejo – tudo isso é nada, ou seja, não expressam nada de real. São ficções humanas, fazem parte do imaginário. Só que este “nada” não é uma contraparte do real (que é tudo), mas sinaliza justamente o caráter trágico do real: o fato de, apesar de ser tudo, não significar nada. Não é que o real seja incompleto ou insuficiente (em relação a quê?), como o são todos os sentidos que a ele atribuímos imaginariamente. É que, para não perdê-lo de vista, o colocamos em perspectiva, dando-lhe uma carapuça, recobrindo-o com uma ficção. E por que o perderíamos de vista?

Górgias, 485-380 a.C.

Porque, perante o real, nossa consciência atina para o nada que éramos antes de existirmos e para o nada que nos espera. Afinal, já havia real antes de nascermos e continuará havendo após deixarmos de existir. Por isso que o “nada” refere-se menos ao real e mais à experiência imaginária que implica nossa consciência dele. Com efeito, a ideia de “nada” aproxima-se da noção de “silêncio” descrita por Rosset (idem, p. 65) como “o que deixa mudo todo discurso, o que se furta a toda tentativa de interpretação”. Rosset ainda recorre à figura de Ulisses, tal como a descreve Homero, como representação deste “nada” que vigora no real: ao recusar-se portar um nome (“meu nome é ninguém”), Ulisses mantém-se vitorioso, até porque Ulisses vencido significaria nada vencido, ninguém derrotado.

Do mesmo modo o real permanece inapreensível e irrefutável, privilegiando assim não o “ser”, mas sempre o “parecer”. Em outros termos, recorrendo agora ao pensamento sofista, nada que possa ser concebido como “ser” participa da existência. É isso que postula Górgias em seu Tratado do não-ser ou da natureza, título este que, de acordo com Rosset, poderia ser invertido sem danos: “tratado da natureza, ou do não-ser” – sendo então de ordem imaginária a noção de “natureza”, como sustentarão mais tarde Lucrécio e Montaigne. O tratado de Górgias pode ser assim resumido: nada é; se alguma coisa fosse, essa coisa não seria pensada; se alguma coisa fosse, e fosse pensada, essa coisa escaparia da linguagem.

Tal estratégia sofista, tão combatida por Platão, não pretende provar nada a não ser o caráter vão do pensamento, que não descobre senão suas próprias ordens, o que também evidencia certa inaptidão do próprio homem à existência: inaptidão de um olhar sempre fadado a atribuir sentido para si e para o que enxerga, o que não lhe impede de reconhecer (e aprovar) um mundo desprovido de sentido. Em suma, é sempre no enfrentamento de um mundo não traduzível que conseguimos traduzi-lo, acessá-lo e habitá-lo. Pelo tecido imaginário, redescobrimos no real a possibilidade de revigorar olhos novos para um mesmo nada.

2 respostas

  1. Patrick disse:

    Lendo e relendo o conceito de nada do Rosset, não consigo desvincular um certo flerte de seu pensamento com o solipsismo… Há alguma conexão entre as duas ideias, ou é uma impressão errônea da minha parte?

    Parabéns pela iniciativa do site!

  2. Matheus disse:

    Olha essa foto, olha essa barba, olha riso… que homem, meu deus! Que homem!

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