Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição.

O princípio ainda hoje bem conhecido da “exceção que confirma a regra” (Maquiavel) foi um dos principais alvos de Montaigne no segundo livro de seus Ensaios, minando assim o racionalismo clássico em um dos seus pontos nevrálgicos. Tal axioma racionalista pode ser assim resumido: já que não há nada a fazer com a exceção, dir-se-á que a ordem pode aparecer de maneira “invertida” sob certas condições, tornando assim possível (e mesmo necessário, sob um prisma dialético) um desvio aparentemente imprevisto.

Em contraposição, o filósofo barroco recusa qualquer ideia de “normalidade” na natureza – e, com isso, a possibilidade de exceções às regras – para afirmar, ao invés disso, o caráter excepcional de toda a existência. Trata-se de um argumento simples e contundente: (1) uma lei, se lei existe, não deve conhecer nenhuma exceção, senão ela seria uma lei imaginária; (2) ora, todas as leis apresentam exceções, todas sem nenhuma exceção; (3) segue-se daí que nenhuma lei existe; (4) logo, tudo o que existe, não estando submetido a nenhuma lei senão de ordem imaginária, tem um caráter excepcional – o reino do que existe é o reino da exceção.

Pode-se dizer que a noção de “exceção” pressupõe a existência de regras. Há com efeito duas maneira distintas de lidar com a exceção: uma consiste em, nada sendo regra, encarar a exceção como regra (e assim voltamos ao adágio racionalista); a outra consiste em, não havendo regra possível, são as regras que procedem da exceção (e não mais o contrário). No primeiro caso, o mundo torna-se indiferente e uniforme sob os auspícios de uma mesma falta de regras (que, se “faltam”, é porque se espera que não faltassem). No segundo caso, mediante a ausência de critérios que permita julgar uma
norma, tudo o que existe é de natureza excepcional, singular, sem igual.

Enquanto a primeira proposição mantém negativamente a expectativa que ela pretende frustar, somente a segunda proposição confirma o fato de que qualquer norma, em cuja verdade acredite o homem, pode ser refutada. Porque esta última é uma proposição ao mesmo tempo verdadeira e falsa; ou melhor, verdadeira ao anular a si mesma enquanto norma. A contradição somente existe mediante uma ideia de não-contradição, isto é, mediante uma norma. Mas se a norma é justamente a impossibilidade de normas, nunca há contradição alguma, apenas exceções cuja reordenação estará novamente exposta a novas exceções.

Uma resposta

  1. Vermute disse:

    Sob um prisma dialético mesmo, ao ponto de ser validado logicamente enquanto paradoxal ao que parece esse brilhante estudo (acho que Aristóteles seria conivente com o argumento, visto sua consideração sobre a dialética). Lembra aquela música lá: é proibido proibir, hehe.

Deixe uma resposta


oito + seis =