Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana.

Igualmente reducionista seria criticar todo tipo de gosto, como Pierre Bourdieu o faz em A distinção. Sua definição de gosto como incorporação de certos preconceitos suscita-nos de imediato a questão: essa desconfiança de que nenhum gosto escapa aos jogos de poder não presta também tributos a outros tipos de “distinção”?

É como quando alguém decreta, por exemplo, que o consumo e a indústria cultural oferecem-nos somente gostos pré-fabricados, inautênticos, que nos alienam das relações de dominação que os ordenam. Ora, quem determina qual é o gosto autêntico e o alienante? Apenas aqueles que alimentam certo gosto pelo esclarecimento, ignorando as diferenças interpretativas em prol de um sentido fixo que se coloca acima dos outros.

Bem diferente é o argumento de Gilles Deleuze (em sua conferência O que é um ato de criação?), segundo o qual tanto criar quanto assimilar, traduzir e compreender são expressões de um “gosto”, de sensações, de atração ou repulsão. Qualquer gosto ou desgosto só faz sentido à medida que é experimentado por alguém e em determinada ocasião.

Foi nesse sentido que, ao ser questionado por Sócrates sobre o que é o belo, o sofista Hípias respondeu que “é uma jovem mulher” – para alguém e em determinada ocasião. Ou seja, nossos gostos prescindem de parâmetros ou medidas. É preciso provar os sabores para se saber que gosto têm. Compará-los, avaliá-los, descrevê-los é etapa secundária e ainda vinculada (ou mesmo subordinada) ao gosto.

Com isso podemos retomar a ideia do design como expressão de um gosto: trata-se de assimilar, interpretar e traduzir os mais diversos gostos. Mas é um modo de tradução que não pressupõe que haja “algo” a ser traduzido, isto é, um significado, uma ordem, um conteúdo inerente aos gostos. Afinal, o gosto é desprovido tanto de sentido quanto de qualquer falta (a falta de sentido, por exemplo), sendo completo em sua insignificância.

De modo geral, se tudo no mundo pode ser interpretado, é precisamente porque não há o que ser interpretado. Isso não implica, contudo, que se recuse a interpretar; a questão é que dependemos dos gostos para forjar um sentido para as ocasiões, para nós mesmos e para o mundo. É neste indesviável solo estético que floresce o design, donde também provém seu “gosto pelo gosto”, pelas aparências, pela superfície das coisas e dos discursos.

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6 respostas

  1. wilson prata disse:

    Toda abordagem metodológica e todo trabalho científico, de pesquisa e produção de explicações sobre um dado tema, possui limites. Não se pode esgotar o tema de pesquisa na própria pesquisa sem incorrer em reducionismo e visões parciais. O trabalho de Bourdieu a respeito do gosto possui seus limites, ele mesmo desdobra e aprofunda muito do que disse em sua obra A Distinção. Nunca é demais criticar esse trabalho, entendendo critica no sentido de colocar sob bases mais profundas aquilo que não é adequadamente ou suficientemente tratado. Nesse sentido, acho um tanto problemático resumir A distinção como uma critica a todo tipo de gosto, um tanto mais grave afirmar que o autor entende o gosto como a incorporação de certos preconceitos. Reduzir habitus a preconceito, ignorando a dinâmica de estruturação estruturada e de estrutura estruturante, como é melhor explicada em Esboço de uma teoria da prática, no mínimo empobrece o trabalho de um pesquisador que tem muito a contribuir com o campo. Esse post me fez voltar a uma breve leitura de alguns textos de Bourdieu (sempre é válido o beneficio da dúvida), e em poucas páginas de um texto sobre a metamorfose do gosto, encontrei sentenças como “descobrir uma coisa de seu gosto é descobrir-se, é descobrir o que se quer”, em outro momento “o artista é esse profissional da transformação do implícito em explicito, da objetivação que transforma gosto em objeto, que realiza o potencial…” ou ainda “os produtores produzem produtos diversificados pela própria lógica das coisas e sem procurarem a distinção”. Ainda que haja uma lógica estruturante tipicamente “bourdiesiana” tais sentenças não estão tão distantes de vários pontos do seu texto. Caberia uma crítica para pontuar as diferenças, da mesma forma que caberia uma critica entre Bourdieu e o texto do Deleuse, mas ela seria bem mais profunda.

    • Wilson, obrigado pelo comentário. Não há como concordar nem discordar do que você disse, mas vejo claramente aí um gosto pelo esclarecimento, que ampara todos os seus argumentos: sobre os “limites” da pesquisa, sobre a importância da crítica, sobre o aspecto “problemático” do reducionismo, sobre a necessidade de aprofundamento etc. Enfim, é o mesmo gosto que sustenta a moral científica de modo geral, de modo a “distinguir”, por exemplo, quem é que leu mais Bourdieu e quem não o compreendeu corretamente. Como eu não partilho desse gosto pelo esclarecimento, considero irrelevante as questões que você pontuou. Um abraço.

  2. wilson prata disse:

    bem pontuado, gosto não deixa de ser interesse e se não há interesse, há indiferença. Você e qualquer pessoa tem todo direito de serem indiferentes ao que Bourdieu coloca e como ele abordar a questão do gosto. Mas qual o interesse em apontar um desinteresse em Bourdieu? Porque “distinguir” esse desinteresse depois de levantar o nome e a obra dele? Porém, mais importante que responder a essas questões, independente se se trata de Bourdieu ou qualquer outro pensador, acho que deve haver um interesse em um rigor epistemológico, ou ao menos, que haja um compromisso ético de julgar Bourdieu em suas próprias palavras e em seus próprios termos. Quando colei as frases dele no comentário, era isso que pretendia, por mais limitado que sejam esses recortes descontextualizados. Deixo o convite para uma leitura mais atenta da obra do Bourdieu, até para perceber que não é antagônico ou inconsistente com seu pensamento afirmar que “podemos retomar a ideia do design como expressão de um gosto” e que “que dependemos dos gostos para forjar um sentido para as ocasiões, para nós mesmos e para o mundo”

    • Wilson, não sou indiferente a Bourdieu. Eu não gosto dele. Repare que há uma distância grande entre não gostar e ser indiferente. Ao mencioná-lo, eu quis expressar um desgosto (e não um desinteresse ou indiferença). Em contrapartida, seus argumentos se resumem a “você precisa ler mais Bourdieu”. Por quê? Por causa de um “rigor epistemológico” e um “compromisso ético”.

      São essas as suas exigências (que derivam, a meu ver, de um gosto pelo esclarecimento).
      Contra elas, duas respostas:

      (1) Meu desgosto pelo Bourdieu não tem relação alguma com as suas exigências. Mesmo que você seja ou queira ser uma espécie de “advogado póstumo” de Bourdieu, posso continuar expressando livremente meu desgosto por Bourdieu, sem a menor obrigação de conhecer melhor a sua obra.

      (2) Se há indiferença e desinteresse de minha parte, é com relação às suas exigências e ao seu gosto pelo esclarecimento. Ainda assim, obviamente não é uma indiferença total, uma vez que estou respondendo ao seu comentário. E isso apenas porque suas exigências, embora redundantes, ainda não me parecem ser acusações.

  3. wilson prata disse:

    Fico feliz com o reconhecimento, já emiti minha opinião e deixei claro meu gosto pela obra de Bourdieu, acredito que não vale a pena a continuidade do debate não porque ele não é interessante, é, mas porque essa plataforma é limitada e limitante. Ficaria feliz caso houvesse continuidade em uma ambiente menos belicoso, quem sabe um dia. Independente disso, reforço que só “perdi meu tempo” aqui porque acho que é algo que vale a pena; o tema, o site, o debate com o autor e os comentários publicados. Parabéns pelo site e pelo Não Obstante, acho que contribuem bastante para o campo e além dele. Espero que continuem firme com a produção. Um abraço

    • Muito obrigado, Wilson. Finalmente concordo com você; a internet, de modo geral, nunca me pareceu um espaço propício ao debate. Peço desculpa caso meus comentários tenham lhe parecido hostis. Um abraço.

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