Grandeza é uma questão de design?

GRANDEZA-61-652x362Faz tempo que penso em escrever sobre a campanha “find your greatness“, da Nike, que circulou por diversos países em 2012. No Brasil, o slogan foi traduzido como  “encontre sua grandeza” (para traduzir greatness, melhor seria utilizar os termos “grandiosidade” ou “magnificência”, mas vou utilizar o termo “grandeza”, para evitar confusões). A campanha inclui diversos vídeos e peças estáticas, a maioria com mensagens que sugerem, direta ou indiretamente, que a grandeza pode ser atingida por qualquer pessoa que tenha força de vontade e dedicação. A mais marcante delas é a que aparece ao lado: “grandeza não precisa de sorte, só de suor”. Descreverei com mais detalhes algumas das peças adiante. O que me interessa mais particularmente, entretanto, não é a campanha em si, mas os pressupostos culturais que oferecem as condições para que tal campanha exista e apareça como relevante, interessante e impactante.

O primeiro ponto a se observar é que ela é relevante porque assume uma posição radical a respeito de uma das questões mais fundamentais para a cultura ocidental: em que medida podemos controlar nosso destino? Não é difícil observar, por exemplo, como essa questão permeia as tragédias gregas que mostram a impotência do protagonista frente a seu destino. Mas é na tradição cristã que tal questão parece ser o centro das mais importantes tensões, uma vez que “destino” agora envolve toda uma eternidade — danada ou gloriosa. Seríamos responsáveis por nossa salvação?

Já no século IV, Agostinho e Pelágio ofereciam respostas conflitantes. Pelágio acreditava que aquele que seguisse o caminho do bem e realizasse boas obras garantiria sua salvação. Nada mais justo. Porém, para Agostinho, querer garantir a salvação pelos próprios méritos era uma tentativa arrogante de escapar dos insondáveis desígnios divinos — única fonte do Bem — para colocar em seu lugar a justiça humana. Nós, humanos, pensava Agostinho, somos seres decaídos — jogados, por conta do pecado original, em um mundo onde impera a lei do pecado. Assim, libertar-se de tal mundo pelas próprias forças seria realizar um feito análogo ao do barão que, após cair em um lago, e sem saber nadar, salva-se puxando-se pelos próprios cabelos. Seria preciso que uma força de fora do mundo tirasse alguém do lodo do pecado e lhe concedesse a salvação — tal força seria a graça de Deus.

pecadojpgEmbora Agostinho tenha sido um dos maiores e mais influentes pensadores cristãos, os historiadores nos contam que, na prática, e mesmo em parte das teorias, prevaleceu até o fim da idade média a noção do toma lá dá cá no comércio (o termo aqui é bem adequado) com o divino.  Com efeito, é esse estado de coisas que a Reforma, nos séculos XVI e XVII, visa reformar. Lutero e Calvino, seus principais pensadores, se apoiavam em Agostinho para defender o dogma da predestinação: cada um de nós é predestinado à danação ou à salvação de acordo com os insondáveis desígnios divinos e nada do que façamos mudará nosso destino. Difícil imaginar que um movimento que começa com tal proposta possa descambar para o caminho terapêutico de alguns cultos evangélicos: reze, faça boas obras, contribua com a Igreja e Deus te dará uma mãozinha nos seus projetos. Com suficiente jejum, oração e doação, você pode substituir Deus na função de designer da sua vida e ainda tê-lo como assistente. Nesse ponto, de todo modo, a vida eterna já não importa tanto quanto a vida deste mundo, e se é só para ajudar na vida mundana, parece que um Deus assistente é suficiente. Na verdade, já nem importa mais se a assistência vem de Deus, dos terapeutas ou dos medicamentos — o que importa é acreditar em um novo tipo de salvação secular: a felicidade.

O que mais vemos por aí são propagandas, reportagens e livros indicando caminhos para a felicidade: comprar tal ou tal produto, viajar para tal ou tal lugar, fazer sexo com tal ou tal frequência, saber tal ou tal “segredo” etc. A felicidade só depende de você! A campanha da Nike em questão, entretanto, não diz que podemos alcançar a felicidade com nossos esforços, mas sim a Grandeza. Seria essa tal grandeza apenas outro nome para felicidade? Afinal, termos como “saúde”, ou a mais burocrática “qualidade de vida” costumam aparecer em estranhas relações simbióticas com a felicidade, de modo que saúde, qualidade de vida e felicidade se tornam termos confusamente intercambiáveis – e, de quebra, ajudam a obscurecer também a relação entre meios e fins, como no caso desse vídeo, que sugere que a felicidade ajuda na recuperação de doenças, indicando que a felicidade é meio para a saúde, embora a saúde seja meio para… a felicidade?!

1nikeNão. A grandeza não parece fazer parte desse time. A noção de grandeza indica uma busca diferente, que carrega uma inequívoca conotação hierárquica, como sugere o slogan de uma das peças da campanha (ao lado): “greatness laps good [a grandeza faz o bom de retardatário]”. Se parece difícil compreender essa tal “grandeza” e sua relação com os valores e o tipo de motivação relacionados àquilo que hoje entendemos por felicidade, isso talvez seja efeito de uma dificuldade crônica de grande parte dos arcabouços teóricos atualmente disponíveis. É essa a constatação de Peter Sloterdijk em seu excepcional Ira e tempo.

Nesse livro, o filósofo mostra como temos dificuldade em dar conta daquilo que Platão e os antigos gregos chamavam de Thymos. O thymos, na filosofia platônica, é a parte da alma que se irrita, se orgulha, se indigna, e se volta para as honrarias, vitória, glória e reconhecimento. As outras duas partes que — segundo Platão — compõem a alma humana seriam a parte desejante e a parte racional, que nos são um tanto mais familiares [1]. A filosofia platônica centra-se sobretudo no conflito entre a parte desejante e a parte racional. Nesse conflito, o thymos fica do lado da parte racional em oposição ao desejo. Ora, se aquilo que hoje entendemos por “felicidade” é eminentemente uma sensação difusa de bem-estar relacionada à satisfação dos desejos, fica claro que a busca thymótica pela grandeza está muito distante da busca erótica (i.e. desejante) pela felicidade.

É a tradição cristã que aproxima no pecado estas duas buscas: superbia e concupiscência, assim serão elas conhecidas. E a secularização de tal tradição, mesmo redimindo em boa parte a concupiscência, continua geralmente a olhar de maneira torta ou simplesmente tratar como inexistentes as pretensões thymóticas. Matamos Deus, mas não queremos assumir seu lugar. É o que sugere um dos vídeos brasileiros da campanha da Nike (abaixo): “Faz tempo que a gente fala que Deus é brasileiro; que não é a gente que traça nosso destino, como se a responsabilidade pela nossa grandeza não fosse nossa”. E, na sequência, ainda bate de frente com a ideia protestante de predestinação, a mesma que sobrevive na noção de que alguns nasceram para serem virtuosos do esporte e outros não: grandeza, o vídeo da campanha nos diz, “não é para os escolhidos” – ou seja, não é mais Deus o responsável pela sua redenção, mas você! A superbia recupera o estatuto de um valor – soberba e grandeza são a mesma coisa.

Encontre sua grandeza (2012)

O vídeo em questão desqualifica, portanto, a visão do humano como um ser movido somente pelo desejo (mais ou menos direcionado por uma inteligência instrumental). Curiosamente, neste caso, a campanha parece ser menos reducionista do que algumas análises da cena contemporânea que enxergam em tudo apenas um hedonismo sem fronteiras. Tais análises ignoram completamente essa dimensão da cena contemporânea que a campanha da Nike chama de “busca pela grandeza” e que Ehrenberg prefere encarar — de maneira um tanto desconfiada, é bem verdade — como um Culto da performance.

Se a cena contemporânea fosse marcada somente por um hedonismo sem fronteiras, uma campanha publicitária como a que estamos analisando não teria nenhuma relevância, não sensibilizaria ninguém. Se o consumo permeia agora virtualmente todas as áreas da nossa vida, isso não significa dizer que nos reduzimos de sujeitos a meros consumidores. Seria mero consumidor, escreve Sloterdijk, aquele que “não conhece ou não deve conhecer mais nenhum desejo senão aqueles que, para aludir a Platão, provêm da parte ‘erótica’ ou desejante da ‘alma’” [2]. Meros consumidores não almejam encontrar sua grandeza, mesmo que a grandeza esteja associada em parte ao universo do consumo – e ela está, com efeito, como nos mostra o fato de existir uma campanha publicitária que exalta a grandeza.

Notas
[1] Embora a razão tal como concebida por Platão – aquela que é capaz de acessar as Essências — seja muito diferente da razão instrumental a que estamos acostumados.
[2] SLOTERDIJK, P. Ira e tempo: ensaio político-psicológico. São Paulo: estação liberdade, 2012, p. 29.

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