Iluminismo e Romantismo como modos de pensamento: considerações éticas e epistemológicas

Iluminismo-m* Ilustram o post obras de Natalie Shau

Iluminismo e romantismo são dois termos que, embora bastante genéricos, desgastados e afeitos a interpretações equivocadas, colaboram ainda – e muito – para o desenvolvimento de algumas reflexões que gostaria de classificar como “éticas”.

Quem leu meu post anterior aqui no site, intitulado Design, moral e industrialização, já se deparou com a enorme quantidade de questões relacionadas aos termos iluminismo e romantismo. Muitos autores os utilizam para indicar movimentos de pensamento bastante restritos no tempo e no espaço (o Iluminismo, de meados ao fim do século XVIII, principalmente na França e na Alemanha; o Romantismo, do final do século XVIII a meados do XIX, principalmente na Alemanha e na Inglaterra). Outros porém – e eu sou um deles – utilizam os termos de maneira mais ampla para indicar certos modos de pensar.

O que, porém, configuraria um modo de pensar não está de modo algum claro. Em minha perspectiva – e aqui o termo “ética” se explica –, um “modo de pensar” pode ser compreendido como uma teia de valores ou, como propõe o filósofo Charles Taylor [1], de “avaliações fortes”, que oferecem as bases possíveis do pensamento. Taylor, como muitos outros pensadores, refere-se ao conjunto dessas diretrizes básicas que formam um modo de pensar como framework. O interessante em Taylor é que esse framework ganha uma natureza ética (isto é, valorativa). Isso importa porque se as bases de articulação do pensamento são éticas, então a pretensão de se resolver problemas éticos a partir de uma suposta objetividade do conhecimento se torna completamente absurda.

Ao contrário, a própria objetividade é que se transforma em um problema ético! Por que ser “objetivo” torna-se importante em certos contextos? Que valores regem o critério de “objetividade”? O que é valorado como uma “evidência”, por exemplo? Ou, para falar como Foucault: como certos campos discursivos constroem critérios de verdade e, assim, saberes (em oposição por exemplo a opiniões)? E como a construção desses saberes orienta e é orientada por relações de poder? Dado que esse campo “base” do que é possível pensar e dizer, o campo discursivo, é indissociável, de um lado, de relações de poder, e, de outro, do campo efetivo do que é dito e pensado, o melhor adjetivo para classificá-lo não seria justamente “valorativo”?

Como se pode perceber, já entramos aqui, de corpo inteiro, no complexo problema da relação entre ética e epistemologia. Esse problema vem me ocupando a mente desde que li, na semana passada, o livro Knowledge and social imagery, de David Bloor. A leitura foi uma indicação do meu colega de departamento na ESDI/UERJ, Wandyr Hagge, que possui amplo conhecimento na área de epistemologia e que também está interessado em tal problema.

romantismoNo livro em questão, Bloor se aproveita das categorias de iluminismo e romantismo para ilustrar sua posição sobre o estatuto “social” do conhecimento. “Social” significando principalmente que o conhecimento nunca pode ser deduzido diretamente de um suposto terreno da evidência, pois toda evidência só se constroi como tal e produz saberes por meio do que ele chama de “metáforas sociais”, modos de “pensamento social” ou “ideologias” – noções que estão muito próximas do que apresentei acima como framework valorativo. O mais interessante é que ele mostra como os frameworks que estamos classificando esquematicamente de iluminista e romântico se infiltram em diferentes áreas do pensamento: na filosofia da ciência, na economia, na política, na moral… Ele esquematiza as tais “ideologias” da seguinte maneira:

1. Ideologia iluminista. Possui quatro características principais: (a) É individualista e atomista. Ou seja, encara a sociedade como uma soma de indivíduos, na qual a natureza dos indivíduoas não muda pelo fato de terem se agrupado. O agrupamento é encarado normalmente como uma espécie de contrato entre os indivíduos, como sugerem as famosas teorias do contrato social. (b) É universalista. O particular (concreto e contingente) costuma ser encarado como a manifestação de leis universais. Essas leis universais é que importam e que, em última instância, permitiriam explicar, prever e “dominar” o mundo concreto. (c) Muito próximo de seu universalismo está seu dedutivismo abstrato. Ele procura explicar os fenômenos socioculturais e comportamentais concretos recorrendo a princípios gerais abstratos. (d) Costuma ser prescritivo e moralizador. Os princípios universais muitas vezes servem não apenas como uma descrição explicativa, mas como uma espécie de “gabarito” para a realidade social, que é vista como devendo se enquadrar nessas leis.

2. Ideologia romântica. Pensando as características do romantismo a partir das quatro características iluministas descritas acima, temos: (a) Encara a sociedade como possuindo uma natureza própria – normalmente ligada a propriedades especiais como “espírito”, “tradição”, “estilo”, “identidades nacionais” ou o  que quer que seja – que transcende a soma das partes. Em resumo, é “holística”. Os indivíduos só podem ser entendidos em contexto. (b/c) O concreto e o histórico são encarados como mais importantes que o abstrato e o universal.  (d) O caráter prescritivo e moralista costuma se dissolver, nesta ideologia, em uma insistência em evidenciar tudo o que está sendo deixado de lado pela abstração, pelo racionalismo sistemático e pelo atomismo.

A descrição das ideologias, como se pode observar, é bem genérica, mas suficiente para mostrar como esse mesmo conjunto de oposições ideológicas reaparece em diversos contextos. Como se pode perceber, questões valorativas aparecem nas descrições das ideologias, mas eu gostaria de dar mais destaque a essa dimensão pensando o framework, de maneira mais direta, como de natureza ética (como propus acima). Assim, a noção iluminista de que a sociedade é um contrato entre indivíduos, por exemplo, pode ser apresentada como uma valoração que considera a relação “contratual” (racionalmente sistematizada) entre indivíduos como melhor do que uma relação “orgânica”. É apenas uma mudança de ênfase, mas ela é interessante na medida em que saimos do registro de uma espécie de estrutura ideológica para o registro de uma teia de valorações fortes. Seja como for, eis alguns excelentes exemplos de Bloor que mostram como a oposição entre o framework romântico e o iluminista aparecem em diferentes campos:

iluminismo-romantismoNo campo da filosofia da ciência, Popper  “é individualista e atomista, na medida em que trata a ciência como uma coleção de teorias isoladas. Pouca atenção é dada às tradições de construção de teoria, às continuidades dentro das tradições e às discontinuidades entre diferentes épocas na ciência” [2]. Kuhn, por outro lado, com sua noção de paradigma, enfatiza justamente uma dimensão maior que une diversas teorias isoladas em um todo que lhes oferece seu sentido. Não há um caminho universal e ele não prescreve uma abordagem específica, como Popper.

No campo da política, contra os iluministas que evocam leis universais para justificar direitos e liberdades “naturais”, como Locke ou os pensadores ligados à revolução francesa, românticos como Burke afirmavam “o direito igualmente natural de ser governado e restringido e de viver em uma sociedade estável” [3]. No campo da economia, a proposta iluminista liberalista de pensadores como Adam Smith, para quem o humano se define por uma propensão natural para a troca e para o comércio, se opõem a propostas românticas como a de Carlyle, que vê a relação social atomizada baseada no dinheiro como falsa e alienante. No campo da moral, há uma oposição clara entre, de um lado, a proposta iluminista utilitarista que encara os humano como agentes perfeitamente racionais e calculistas, e define o bem como a maximização do prazer para o maior número de pessoas – maximização esta a ser buscada pelo caminho jurídico –; e, de outro, propostas românticas como a de Bradley, que “encara com escárnio a ideia de que a ação pode se basear em cálculos ou ser derivada de princípios utilitaristas abstratos” [4].

Observando esses exemplos, torna-se evidente para qualquer estudioso do design que a mesma oposição permeia também tal campo. De um lado, propostas iluministas funcionalistas como as da Escola de Ulm; de outro propostas românticas como a de Victor Papanek. Observar esquematicamente esta dualidade ou mesmo traçar exemplos históricos das duas posições não é uma tarefa particularmente difícil. O mais difícil é conseguir uma visão complexa da divisão, procurando alguns de seus valores fundamentais e compreendendo seus percursos históricos. Muitas vezes, alguns valores a princípios opostos se combinam em novas formas de valoração, tornando um mapeamento ético do design ou de qualquer outro campo extremamente complicado. Ainda assim, acredito que o esforço vale a pena e que um estudo dos valores permite uma compreensão particularmente interessante de disputas que normalmente não classificaríamos como éticas. Sigo, assim, com meu projeto de pesquisa sobre as éticas do design, acreditando que ele produzirá bons frutos.

Notas
[1] Taylor, C. The sources of the self: the making of modern identity. Cambridge: Harvard University Press, 1989.
[2] Bloor, D. knowlege and social imagery. Chicago: The University of Chicago Press, 1991. p. 64, tradução minha.
[3] ibidem, p. 66.
[4] ibidem, p. 72.

 

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