Mariko Mori e a Consciência Una

* Este texto é uma contribuição de Renata Chaveiro — designer de profissão e artista de alma. Passou, antes disso, pela formação em Publicidade, onde teve a certeza de que não é o backstage das agências que lhe comove, mas as origens e motivações mais profundas da atividade da Comunicação. Foi só na graduação de Design que encontrou o porquê de querer saber tantos porquês: ama a História das coisas e o mistério intrínseco à sua onipotência.

“A arte é necessária e indispensável enquanto existir o mundo da mente, que durará tanto quanto a raça humana continuar a existir. Arte é um tesouro para toda a humanidade.” – Mariko Mori [1]

Final de ano e mais ciclos terminam, trazendo reflexões e pontos de vistas distanciados que não poderiam nos ocorrer em nenhum outro momento, quanto estávamos imersos demais no frenesi cotidiano para torná-los o foco de nossos pensamentos. Devido a este momento de descanso, nossa mente relaxa e temos tempo para dedicar ao pensamento interiorizado, fazendo emergir reflexões sobre nós e sobre para onde estamos sendo levados por nossas escolhas. Finais - e recomeços – de ciclo, afinal, são alguns dos conceitos-chave dos trabalhos mais recentes de Mariko Mori.

Na segunda metade de 2011, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresentou a exposição ONENESS [traduzindo, temos algo como "unidade"], onde apresentou obras que misturam tecnologia com organicidade, sempre permitindo a maior interatividade possível com o espectador. Ainda que a mostra tenha terminado em outubro do ano citado, o trabalho da japonesa ainda é passível de observação e análise devido a sua temática universal, que tange o desenvolvimento da consciência e do espírito humano.

Em A Felicidade Paradoxal, o filósofo Gilles Lipovetsky afirma que a tendência contemporânea de nos reunirmos em coletivos ou grupos é unicamente para que sejamos reconhecidos individualmente. Assim, participamos de diversos grupos, que nos ditam qual o tom de nossa “personalidade” diante de outrem.

Mariko Mori tem traços da individualização em seu trabalho e em sua história de vida. Mudou-se do Japão para Nova Iorque por não encontrar espaço para expressar sua indivdualidade numa nação que tanto preza pelo coletivo [1].  Mas, diferente do filósofo francês, a artista toma a individualização como uma oportunidade de viagem interior para que seja possível contribuir e participar integralmente do todo composto pela humanidade/mundo/universo.

Muitas doutrinas e pensamentos pregam o olhar para dentro de si como o caminho para a iluminação espiritual, e com Mori não é diferente. Seja nas diversas religiões existentes, na física quântica ou na psicologia, sempre há este ponto de convergência que nos leva uma idea de Uno. Os espectadores, então, são gentilmente convidados a uma viagem para o interior de si mesmo com o intuito de apresentar sua importância como composição de algo maior na existência.

Budista, a artista traz a prática da meditação em oportunidades alternativas para o espectador que se dedicar a realmente sentir suas obras. A instalação Transcircle 1.1 Meter é um dos exemplos disso.

Cápsulas de plástico posicionadas em roda parecem se reunir em conferência. Sua disposição remete-nos às pedras de Stonehenge. Dentro das peças, luzes acendem e apagam-se num movimento leve e ritmado, como uma respiração visual. As cores pastéis conferem ainda maior leveza à obra, e diante deste conjunto de fatores, o espectador aberto à experiência pode ter a chance de re-equalizar suas energias de acordo com a abstrata roda.

Transcircle 1.1 Meter

A Nave Wafe-UFO, por sua vez, traz uma experiência interativa de maneira nada convencional. Apenas três pessoas podem entrar por vez na instalação, e depois de deitarem-se em triângulo em assentos completamente ergonômicos e confortáveis, tem eletrodos colados em suas cabeças que se conectam à nave por entradas usb.

A partir daí, a frequência da atividade cerebral de cada participante permite que a animação projetada no teto da nave se modifique, explicitando o ritmo mental de cada uma das três pessoas. Nenhuma projeção, portanto, é igual a alguma apresentada anteriormente.

Convidar seus espectadores a entrarem em uma experiência individualizante com mais duas pessoas faz com que seja inevitável a construção de sentido de conexão entre os seres humanos.

Wafe-UFO

Assim, mais uma vez, Mori consegue explicitar que a unicidade de um coletivo depende da sensação de unidade do Homem consigo mesmo, da integração de seu corpo, sua mente e sua alma. A experiência individual, portanto, determina a experiência do todo.

Mori alia magistralmente o uso da tecnlogia para abordar a integração do plano tangível com o etéreo. Seja manipulando transparências em vídeo, seja refinando o projeto ergonômico de suas obras, ou fazendo projeções audiovisuais transcendentais, a artista orquestra as diferentes facetas da tecnologia em favor de sua mensagem.

Assim como inventamos um método para fazer fogo, hoje temos a tecnologia. É um recurso. E ainda que possa ser destrutiva se mal utilizada, é a tecnologia que lidera a evolução da humanidade. - Mariko Mori [1]

A noção cíclica da vida é marca que perpassa toda a obra. Segundo a artista, não seria possível duvidar da natureza cíclica da existência, uma vez que as mais variadas disciplinas já abordaram o assunto de vida, morte e renascimento. O que ocorre com galáxias e estrelas acontece também com a humanidade. A idea de dimensões paralelas também se faz presente nos trabalhos, assim como se firma o conceito de multiverso na física, por exemplo.

“[...] as descobertas especialmente da física quântica, nosso universo está constantemente experienciando vida, morte e renascimento. Até mesmo os cientistas acreditam num modelo onde outros mundos existem.” – Mariko Mori [2]

Visto a vastidão de trabalhos de Mori, a intenção aqui foi apresentar sua obra ao leitor do Filosofia, e convidá-lo a conhecer um pouco mais sobre a infinitude da temática de integração do Homem com o Universo por meio do desenvolvimento de sua consciência. Se a obra de Mori respira integração, seja entre vida e morte, entre tecnologia e natureza, entre unidade e coletivo, é porque somos um com o universo, somos um com a existência de tudo, somos um todo [1].

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Links

Bibliografia
  • Folheto da exposição Oneness no CCBB-SP
  • LIPOVETSKY, Gilles. Felicidade Paradoxal: Ensaio Sobre a Sociedade de Hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • GROSENICK,Uta  e RIEMSCHNEIDER, Burkhard. Art Now – Arte e artistas no limiar no novo milênio. Colônia, Alemanha: Taschen, 2005. 

2 respostas

  1. Pedro Oliveira disse:

    Renata, esse texto é uma verdadeira ponte entre a arte de Mariko Mori e a emoção sentida , e explicada em seu trabalho.

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