Muito fantasma pra pouca ópera

jasmine_tridevilEm setembro do ano passado, uma notícia foi compartilhada exaustivamente pelas redes sociais da internet desse Brasilzão doido: a história de Jasmine Tridevil (?), a americana que supostamente implantou um terceiro seio para espantar homens e viver isolada sem parecer atraente para ninguém. O mais legal era o intuito dos compartilhamentos: geralmente, pessoas expressando o quanto acharam engraçada ou desagradável a atitude da moça, sem antes se perguntarem o básico, que é a primeira coisa que eu me pergunto até quando minha sogra aparece com uma sobremesa muito bonita depois do almoço no domingo: aquilo ali é verdade ou mentira?

Não demorou muito, os mythbusters de plantão surgiram com o veredicto: mentira, e das cabeludas. Jasmine inventou a história e tirou a foto usando um corpete de borracha com três seios porque, bem, hm, determinadas razões. Mas não há motivo para julgar as pessoas que acreditaram na história, ela poderia muito bem ser verídica. Não é difícil imaginar que hoje em dia, se alguém quiser realmente ter um terceiro ou talvez até um quarto mamilo, só o que precisa fazer é o seguinte: ir até o consultório de algum cirurgião plástico e largar um saco de dinheiro na mesa dele.

Falando em dinheiro mas mudando completamente de assunto, a grande atração que os brasileiros vem assistindo hoje são as notícias diárias sobre o andamento das investigações nos casos de corrupção. Em nível nacional com a enfim revelada tranquibérnia por trás do aparelhamento da Petrobrás, em nível estadual com as licitações dos sistemas de metrô de São Paulo, ou com os escândalos de desvio de dinheiro da Receita do Estado do Paraná, ou ainda com as desventuras do juiz do caso Eike Batista no Rio de Janeiro, só para não deixar nenhum dos três poderes de fora da salada.

Paralelamente, também assistimos a câmara dos deputados tentando combater as mazelas que infernizam a vida do trabalhador brasileiro através de medidas como a criação do feminicídio, ou a redução da maioridade penal, ou a duvidosa ideia de terceirizar trabalhadores-fim, seja o povo contra ou a favor de tais medidas – já que, democraticamente falando, todo mundo é contra ou a favor de alguma coisa.

tumblr_lt35ybjOpP1qcm16uo1_r1_500Para cobrir o bolo, também estamos acompanhando, pouco a pouco, o avanço das investigações com os dados vazados de proprietários de contas em bancos suíços – o caso Swissleaks, que vem revelando a presença de grandes nomes envolvidos em vários outros escândalos de corrupção, dinheiro de doações de campanhas políticas para vários partidos, artistas, atores globais e várias outras figuras que, por algum motivo, querem suas verdinhas bem seguras em um cofre do outro lado do oceano atlântico.

Entretanto, o clima que parece pairar sobre todas essas histórias enquanto elas se desenrolam diante dos nossos olhos é um clima de insatisfação, impotência. É um clima que exige de nós uma dose cada vez maior de cinismo ocasionado não por incredulidade, mas puramente pelos questionamentos lógicos que esses escândalos desencadeiam: desde quando essas coisas acontecem? Um dia esse tipo de notícia deixará de acontecer? Em algum momento da história humana, conseguiremos estar acima de tudo isso?

Tal cinismo começa a sobressair em meio aos comentários porque, ao que tudo indica, estamos cada vez mais inclinados a reconhecer que não há para onde correr. Nenhum partido político está imune, nenhum herói cujo nome não esteja em alguma lista indesejável parece estar para surgir, nenhuma voz parece ter a razão – inclusive, está cada vez mais difícil ouvir uma com nitidez, no meio de tantas que se levantam ao mesmo tempo. Um cinismo que se ergue periodicamente, imagino eu, sempre que polêmicas envolvendo política ou finanças públicas com mais de seis zeros em sequência venham à tona, mas que, graças à internet, são revisitadas e relembradas a ponto de assumirem um aspecto quase simbólico no nosso dia a dia – quantas piadas envolvendo o PT você recebeu no seu whatsapp essa semana, por exemplo?

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Para Vladimir Safatle, por exemplo, as manifestações que aconteceram em março e agora se repetem em abril são sintomas de uma depressão sociocultural que nem durante a ditadura afetou a população com tanta voracidade. É como se essas pessoas estivessem indo para a rua não por terem algum objetivo concreto para lutar por, ou por terem alguma ideia definida do que seria possível fazer para mudar o Brasil – mas sim, parafraseando Slavoj Zizek, por não possuirem nenhum outro aparato comunicativo para articular de alguma maneira a impotência política perante a situação do governo. Essa impotência se traduz em movimentos não necessariamente cegos, mas dotados de um grau violento de miopia histórica: pregação pela volta da ditadura militar é um exemplo sensacional.

Seja pelo humor ou pela descrença, eu arriscaria que por trás dessas manifestações periódicas esconde-se um padrão cíclico de reações que mostram a cara de um eterno “estresse” recorrente da forma como nossa sociedade se organiza e se mantém até hoje. Tal estresse surge a partir da consciência de que existem duas realidades: a nossa, das pessoas normais, e a deles, que estão aparecendo na TV por terem roubado, mas que mesmo assim, seja pela imunidade parlamentar, pela ineficácia do sistema jurídico, pelos processos que nunca se concluem, ou seja lá pelo acordo mirabolante que tenha sido feito, sairão impunes – ou pior ainda, não punidos o suficiente.

Por que as piadas envolvendo advogados não funcionam? Porque os advogados não acham graça em nenhuma delas e as outras pessoas não acham que são piadas. Esse mesmo estresse aparece quando percebemos que o mesmo fator que deixa os “grandes” impunes é o mesmíssimo fator que possibilitaria à americana do primeiro parágrafo a realmente implantar o terceiro peito: o saco de dinheiro em cima da mesa. Desde sempre existem dois mundos em conflito: o mundo das pessoas que podem botar sacos de dinheiro em cima da mesa, e o mundo das pessoas que não podem. Hollywood parece tentar desesperadamente relatar isso através de filmes encenados em um contexto de luta de classes. Exemplos recentes, como Elysium (2013) e Snowpiercer (2014), usam esse recurso “mundo dos ricos versus mundo dos pobres” para basearem suas histórias porque, vejam só, é um contexto com o qual estamos bastante familiarizados.

Se sempre foi assim, então sempre continuará sendo?

Em uma das minhas várias andanças pela internet, acabei por me deparar com a seguinte frase de autoria anônima:

“Nasci muito tarde para participar da exploração dos sete-mares, e muito cedo para participar da exploração espacial”.

interstelMeu deus, como eu gosto dessa frase, espero que o autor dessa epifania um dia seja descoberto. Estamos contextualizados em um cenário no qual, com um saco de dinheiro do tamanho certo, tudo parece possível. Essa frustração por não fazer parte de algum grande avanço da humanidade não passa de, na verdade, uma máscara para uma verdadeira exploração que vem acontecendo em um nível bastante opaco para ser comparado a navios chegando no continente americano ou ao Matthew Mcconaughey entrando em um buraco de minhoca até o outro lado da galáxia.

Nosso momento “entre explorações” me parece muito mais uma série de embaraços em busca de uma ordem social adequada que demanda sim, que façamos parte de uma grande exploração que não existe em um plano unicamente físico, mas que se desmembra em pelo menos três grandes jornadas exploratórias: uma exploração política, marcada pelo crescente número de democracias; uma exploração tecnológica, marcada pela crescente humanização e inteligência nos avanços da robótica e da cibernética, e uma exploração moral, assinalada principalmente pelos conflitos étnico/religiosos ainda em atividade pelo mundo.

Uso aqui o termo “exploração” por tratar tais áreas como desafiadoras, filosoficamente, para o conhecimento humano, como se fossem jornadas onde pisa-se em terrenos incertos a cada tentativa de inovação ou diálogo. E podemos nos referir a essas tentativas dessa forma justamente pelo contexto pós-moderno, extremamente dissensual, no qual elas precisam mostrar sua validade.

As perucas dos nossos líderes

Muito provavelmente o nosso cinismo político é resultado da grande dificuldade em digerir o fato de que manter uma democracia é extremamente difícil. O modelo existe desde a época que o sol era puxado por uma carruagem, mas ainda sofre para se manter “puro” na sociedade contemporânea: segundo dados do Democracy Index de 2014, apenas 24 países do mundo vivem democracias plenas. Outros 91 são governados sob regimes híbridos ou “democracias falhas”, caracterizadas por recorrentes casos de corrupção (esses 91 países são praticamente 50% da população mundial). O restante são regimes totalitários.

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A maioria dos países que vem sofrendo para estabelecer uma democracia plena são aqueles que passaram por ditaduras recentes – América Latina, leste europeu e Ásia. Tudo começa a ficar claro quando voltamos ainda mais no tempo e percebemos que muitos países entraram em processos democráticos no pós-primeira-guerra mundial, quando ainda eram colônias britânicas ou anexos dos impérios Austro-húngaro e Turco-otomano. O conceito de democracia, se visto como o sistema político mais aceitável hoje, é um conceito extremamente recente, e é a exploração política pela qual nosso mundo passa atualmente.

dogEssa exploração vem cada vez mais mostrando suas consequências, como as insurreições árabes de 2011, que visavam derrubar ditadores cujas famílias estavam a muitas gerações no poder. Essa é uma transformação profunda da qual dificilmente emerge algo sólido – o exemplo da Síria mostra-nos um país que até hoje vive uma guerra civil decorrente desses acontecimentos. São necessários anos de retrabalho após retrabalho para que as sequelas dos períodos ditatoriais sejam completamente eliminadas – e sem a perspectiva de algo íntegro para ocupar seu lugar, uma democracia está fadada a cambalear a passos tortos rumo a algures.

Períodos pós-ditaduras não são a única coisa que interferem no processo de consolidação democrática: crises econômicas são a prova de que mesmo os países mais politicamente estáveis podem ser virados de cabeça para baixo se nenhum cuidado for tomado. O mundo hoje entra em um processo de estagnação populacional: nos últimos duzentos anos, o planeta saltou de 1 bilhão de inquilinos para mais de 7 bilhões – uma progressão geométrica que parece estar finalmente encontrando uma desaceleração. As previsões são que até 2050 cheguemos aos 9 bilhões, e que depois disso a galera comece a acalmar esse fogo todo. Inclusive, em vários países da Europa, a população já começa a apresentar sinais de declínio. Isso afeta profundamente a exploração política, já que as grandes economias tiveram suas fases de crescimento durante o boom populacional, e agora começam, portanto, a tentar solucionar o problema da estagnação com esse e outros obstáculos – não podemos ignorar a agenda sustentável/ecológica, que cada vez mais ganha apoio científico nos países de primeiro mundo.

Tudo isso nos leva a um caminho íngreme no qual todo medo de dar um passo em falso é pouco: o receio em criticar a democracia reside, em grande parte, no fato de não termos tido nenhuma ideia melhor até agora. A democracia não é o sistema perfeito. Vendo-o por cima, ele não passa de uma ditadura da maioria que precisa se renovar periodicamente para não cair na desgraça, e mesmo com essas renovações, mostra-se um sistema burocrático no qual reformas estruturais são lentas, e a sensação de não ter representatividade alguma é o que resta à grande parte da população após cada sufrágio.

Isso é causado, em grande parte, pela falta de noção de escopo político nas pessoas que vivem nos grandes países. Exemplos como Brasil, EUA e Rússia podem ser comparados por apresentarem características em comum: não apenas os três países possuem grandes populações, como também grandes desigualdades sociais. Apenas um dado que gosto muito de usar como ponto de partida: no mesmo país onde várias pessoas são investigadas por dinheiro sendo depositado ilegalmente em bancos suíços, quase 40% da população não possui conta em banco algum. 55 milhões de brasileiros ainda guardam o dinheiro embaixo do colchão.

Existem várias medidas promissoras para tentar modificar esse quadro e permitir que a exploração política continue sem muitos percalços e que o potencial representativo da democracia mostre seu verdadeiro poder. Uma delas, a transferência direta de renda, vem apresentando ótimos resultados em países como Brasil, Índia e demais países do terceiro mundo, mas encontra vários obstáculos quando apresentada como alternativa em países mais ricos. Thomas Piketty, autor d’O Capital no Século XXI, quando entrevistado pelo programa Roda Viva, aqui no Brasil, foi perguntado exatamente sobre isso: como fazer com que países como os EUA adotem com mais confiança as políticas sociais de transferência de renda? Sua resposta revela uma forte tendência nas dinâmicas exploratórias da política dos nossos tempos: “provavelmente teremos que aguardar a próxima crise”.

Eu, robô, eu mesmo, robô, e Irene (robô também)

Enquanto os políticos se decidem sobre essas medidas financeiras, a transferência da grana segue seus próprios caminhos, sejam eles pelos impostos harmonicamente declarados, ou pela mão invisível do crime organizado. No início de fevereiro desse ano, a imprensa americana anunciou a descoberta de um esquema de desvio de dinheiro que vinha sendo operado por uma quadrilha de hackers desde 2013. Estamos falando aqui de uma quantia absurda, que ultrapassa tranquilamente os 300 milhões de dólares.

Os hackers agiam criando contas falsas em grandes bancos, fazendo transferências após invadirem os logins dos funcionários desses bancos, ou pelo jeito mais legal de todos: programando caixas eletrônicos para dispensarem dinheiro em locais e horários certos, e colocando um membro da equipe por perto para pegar a bufunfa.

A segunda exploração que menciono acontece em um ritmo aceleradíssimo e parece cada vez mais quebrar os limites impostos pela ficção científica. Os exemplos surgem aos montes: agora a Google desenvolveu um algoritmo que consegue não apenas reconhecer imagens através do mapeamento de pixels, mas interpretá-la descrevendo os elementos que compõem a cena como se fosse, de fato, uma pessoa olhando e descrevendo a imagem para nós.

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Gosto muito da interpretação do Nerdwriter sobre o filme Blade Runner (1982). A história narra os esforços do Harrison Ford tentando descobrir quem é andróide e quem não é por meio de um teste chamado Voigt-Kampf, que consiste em uma série de perguntas que mede a reação emocional de quem as responde. Segundo o Nerdwriter, Blade Runner tenta mostrar que no futuro, a principal questão filosófica será em torno da individualidade: o que nos torna realmente humanos não é alguma essência universal ou espiritual, mas sim nossas características pessoais mais íntimas que não podem ser copiadas por ninguém, nem um robô.

Já hoje o conceito do que é ser humano passa por “dribles” acadêmicos: em 2013 os golfinhos receberam a denominação de “pessoas não-humanas”, na Índia, por apresentarem comportamentos e respostas emocionais parecidas com as dos seres humanos, embora ainda não consigam fazer a coisa mais humana de todas, que é entrar na internet e xingar o Ed Motta. Qualquer computador consegue fazer cálculos e processar dados mais rapidamente e com mais eficiência do que qualquer cérebro humano, mas nenhum deles consegue caminhar até a cozinha sozinho e fritar um ovo pra matar a fome. Quanto mais a tecnologia avança, mais é doloroso indagar a nós mesmos sobre nossa própria humanidade, pois o que outrora era a certeza absoluta que nos colocava acima dos outros animais no planeta, hoje é passível de calorosas argumentações.

A minissérie alemã Welt am Draht (1973) conta a história de um poderoso computador, desenvolvido por uma corporação chamada IKZ, que é usado para rodar uma simulação na qual 9.000 habitantes virtuais vivem em um mundo que é uma cópia do nosso, sem terem consciência disso. O objetivo da empresa era desenvolver uma simulação tão precisa que, se acelerada, permitiria aos economistas a previsão certeira do futuro na nossa própria realidade. A franja começa a encrespar quando um dos habitantes desse mundo virtual tenta cometer suicídio, e mais tarde é revelado que na verdade o nosso mundo também é  virtual, cópia de uma realidade superior que nos programou para não termos consciência disso.

Essa hipótese holográfica (a realidade é uma cópia de uma cópia de uma cópia ad infinitum) e o subsequente medo de que nossa realidade sólida não passe de mero simulacro, é uma das consequências trágicas da exploração tecnológica. O medo de um futuro incerto aflora cada vez que um robô aprende uma palavra nova, e, de fato, Hollywood também funciona como um ótimo detector desse estresse.

Spoiler de Game of Thrones

Spoiler de Game of Thrones

Em filmes como Exterminador do Futuro (1984) ou Matrix (1999), somos apresentados à realidades distópicas nas quais as máquinas decidiram meter o loko e dominar o planeta: o pressuposto aqui é que, tendo a tecnologia assumido o aspecto de “raça superior”, a coexistência com os mamíferos inferiores jamais poderia existir. Em outros exemplos, como Dredd (2012) e Robocop (1987), o futuro ainda é extremamente humano em carne e osso, porém nossa inépcia política, aliada ao avanço desgovernado da tecnologia, criou sociedades extremamente segregadas nas quais impera a anarquia e a única forma de manter a ordem é por meio da violência institucionalizada. Parece que, nesses exemplos, o que finalmente tornaria as máquinas humanas é justamente o nosso aspecto considerado mais desumano: a violência.

macdQuando nos perguntamos o que podemos fazer em relação a isso, sempre surge a hipótese habermasiana de tratar o assunto como tabu e propôr que certos avanços sejam proibidos ou ostracizados pelo bem da humanidade. A tese é que, justamente quando os avanços se tornam imperceptíveis pelas pessoas, significa que eles chegaram a um ponto sem volta na incorporação cotidiana: a forma que a tecnologia encontra para sobreviver é tornando-se invisível. Dificilmente indagamo-nos quantos anos de avanços tecnológicos existem por trás de uma escova de dentes, por exemplo. Mesmo instrumentos de uso corriqueiro já estão além do nosso interesse no campo da “tecnologia ameaçadora”: como funciona, exatamente, o motor de um carro? Ou ainda mais simples – o sistema de descarga da privada do banheiro? Não que esses itens sejam uma ameaça para a civilização, mas nada pode passar despercebido pra quem já considerou a locomotiva a vapor como o fim do mundo.

Deixar de tratar a tecnologia como potencialmente humana é apenas contribuir para resultados indesejáveis. Os avanços continuarão surgindo, e com propensões cada vez menos controláveis. As guerras já tem um prognóstico funesto, já que hoje muitas investidas armadas são feitas por drones operados à distância – uma atitude que com certeza garante mais segurança para os soldados, mas não uma culpa menor por suas atitudes. Os hackers da quadrilha que desviava dinheiro desde 2013 são seres humanos, mas quanto tempo temos até que os próprios computadores consigam gerar seus próprios códigos de programação? Não há nada mais nocivo para a exploração tecnológica do que tratar as máquinas através desse afastamento moral: talvez elas sejam justamente o que precisamos na nossa busca pela nossa própria humanidade.

Quem não tem cão, caça com gato (principalmente se o alvo também for um gato)

2015 começou conturbado: em janeiro, o jornal francês Charlie Hebdo, de pouca ou nenhuma influência, foi atacado por uma gangue de extremistas islâmicos porque em algumas páginas do jornal volta e meia apareciam desenhos do Maomé beijando outros homens na boca e etc. Eles entraram no prédio da redação e atiraram na cabeça de algumas pessoas.

Quando eu menciono uma exploração moral em andamento, talvez seja necessário refletir sobre o papel das religiões em nosso cotidiano. É muito difícil conceber o fato de que o ser humano já viveu em uma realidade na qual a religião desempenhava não apenas papéis ritualísticos, como também era nada menos do que o verdadeiro norte da vida de qualquer pessoa. Isso vem mudando, e o estresse dessa mudança é sentido na arte e na filosofia. Muito antes do que os movimentos secularistas dos últimos séculos, o pensamento de filósofos como Descartes e, posteriormente, John Locke, demonstrava uma certa preocupação em “encaixar” a figura divina no pensamento científico da época. John Locke, por exemplo, teorizava que Deus era o responsável pelo exato momento em que as funções orgânicas do cérebro traduziam-se na forma da mente humana.

Tiger-620x909Essa questão permanece ainda no aguardo de resolução até hoje, mas um dos grandes objetivos do Large Hadron Collider, ao encontrar o famigerado Bóson de Higgs, era conseguir pistas para identificar o exato momento em que energia “se transforma” em matéria. Parece inocência acreditar que construir geringonças descomunais seja a chave para resolver os mistérios da realidade, mas geringonças menores têm servido para esse fim todos os dias, como parte da exploração tecnológica mencionada anteriormente: O cérebro humano não é capaz de medir a temperatura, mas um termômetro mata a charada. Um velocímetro traduz em números o que nossa cabeça entende apenas como “rápido pra caralho”, e por aí vai.

A grande ironia é que a questão “Deus” sempre parece se refugiar em algum lugar especial dentro da moral humana mesmo com demonstrações de que a religião, que é a maior manifestação conceitual dessa questão, estar periodicamente apresentando extremismos que se opõem aos problemas que ela se propõe a resolver. Esse contraste é visto em casos como as acusações de pedofilia entre altos clérigos, ou o completo abandono das crenças morais em nome de propósitos políticos, que é o que o ISIS vem fazendo ao atacar outros muçulmanos que não aceitam a imposição da sharia.

Mesmo assim, a busca por uma moral concreta e única parece ser um movimento que vai totalmente na contramão das aspirações pós-modernas. Psicólogos como Jonathan Haidt propõem que, dentre os vários fatores que influenciam as escolhas morais das pessoas, possa estar até mesmo a genética: o que diferencia uma pessoa que acha casamento entre pessoas do mesmo sexo errado e outra que acha absolutamente normal pode ser um fator hereditário, conforme explica seu livro The Righteous Mind. Talvez a grande questão da exploração moral não seja encontrar uma resposta definitiva, mas sim reconhecer que a própria busca por uma resposta já não é uma resposta válida para esse suposto problema. É uma questão sempre foi recorrente em todos os momentos da história humana porque ela precisa ser recorrente, por sua própria natureza.

Em um conto do Machado de Assis chamado A Igreja do Diabo, o escritor narra uma anedota na qual o próprio capeta decide fundar uma igreja, para provar a Deus que todas as pessoas são suscetíveis aos encantos de um hedonismo egocêntrico, mesmo as mais espiritualmente devotas. Vem a calhar que, após um tempo, o diabo percebe que seus fiéis praticam vigorosamente os mandamentos corruptos da sua igreja, porém, quando sozinhos, não perdem tempo e começam a praticar atos de bondade. Não há moral correta para seres naturalmente paradoxais.

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Entre razões e emoções, a saída

Museo_del_Prado_-_Goya_-_Caprichos_-_No._43_-_El_sueño_de_la_razon_produce_monstruosO que se esconde por trás de qualquer extremismo é justamente aquilo que mais o prejudica. Defensores árduos do capitalismo deveriam ouvir os socialistas mais do que nunca: a China, que até algumas décadas atrás ainda adotava políticas comunistas, passou a ser o país mais bem-sucedido economicamente após abrir o mercado – algo soa estranhamente malicioso nessa inversão. Socialistas apaixonados deveriam abandonar de vez qualquer motivação pela implementação de regimes socialistas, já que todos foram um fracasso sem precedentes e, o que tinha de bom neles foi incorporado pelo capitalismo para que ele se mantivesse firme e forte (salários mínimos, sindicatos e agora as tramóias pseudossustentáveis). A eles talvez apeteceria mais uma torcida fervorosa por um capitalismo cada vez mais capitalista, já que o que as crises de 1929 e 2008 ensinaram foi que nada melhor do que isso para que alguma mudança ocorra.

Parece uma lógica absurda, mas o que estou querendo dizer é que, por trás de todas essas antíteses sinistras, esconde-se o fato de que nossas próprias ideologias trazem consigo seus próprios instrumentos de tortura. A nós eles são invisíveis, mas a hipótese é que justamente em tempos de estresse, quando nada mais parece fazer sentido, elas se tornam mais palpáveis se optarmos por uma ponderação em vez de abraçar algum extremismo.

Em 1797 o pintor espanhol Francisco Goya começou a produzir uma série de gravuras cujo conceito traduzia-se em várias cutucadas à sociedade espanhola da época. A uma dessas gravuras ele denominou a seguinte legenda: “A fantasia, quando abandonada pela razão, produz monstros impossíveis; em união com ela, torna-se a mãe das artes e a origem de suas maravilhas”. O que ele quer dizer é que, basicamente, os demônios surgem quando a razão desaparece.

Creio eu que, mais do que nunca, precisamos agora confrontar Goya e propor justamente o contrário: é quando a razão está mais ativa do que nunca que os demônios saem do buraco para nos assombrar. Todo extremismo é uma forma de racionalização desmedida, qualquer ideologia, por mais bem-intencionada que seja, pode se transformar na mais cruel arma quando moldada por uma racionalização desonesta – o documentário The Act of Killing (2012) é a demonstração mais clara que eu já vi disso. Não há erro maior do que achar que alguma grande descoberta está para ser feita e atropelar todo mundo no caminho para conseguir tirar o pano que a está encobrindo.

Se estamos realmente no meio de uma grande exploração (e eu espero que sim, de verdade!), precisamos dar um jeito nesses monstros antes. Eram eles que estavam impedindo os navegadores de irem além do bojador, e agora são eles que estão nos impedindo de irmos além das nossas dores.

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