Não leia!


ESSE TEXTO FOI FEITO PARA QUE NINGUÉM O LEIA. O ATO DE ESCREVER É UM MAL ABSOLUTAMENTE DESNECESSÁRIO: AS PALAVRAS NUNCA SÃO LIDAS. DOIS TEXTOS ILEGÍVEIS: UM NA TELA LUMINOSA; E OUTRO DIANTE DA TELA: O LEITOR INVISÍVEL CUJA LUZ DOS OLHOS SE APAGA PARA O DIANTE. O PRIMEIRO É DESEJO IRREALIZADO, O OUTRO DESEJO SEM EXPRESSÃO. DESENHO INCOMPREENSÍVEL DE TRAÇOS SEM IMAGEM. PARA O TEXTO ESCRITO NÃO HÁ POSSE POSSÍVEL. UM AVISO AO (IMPOSSÍVEL) LEITOR ANÔNIMO: NÃO HAVERÁ COMPREENSÃO DE LADO NENHUM.

 

Se essas curvas pretas sobre o fundo branco se tornassem brancas?

Assim:

A única liberdade de atuação para um designer seria a recusa da encomenda. Não realizar o projeto, que nos faz agentes sem ação, peças coisificadas do jogo, sujeitos traumatizados sem poder de simbolizar o trauma. Se recuso o jogo, enfim jogo pois de fato opero em outras regras, as minhas: e deixo de ser sujeitado…”

Qual seria a diferença?

A única liberdade de atuação para um designer seria a recusa de sua encomenda. Ou seja, não realizar o projeto, não representar o papel de agente sem ação, peça coisificada do jogo, sujeitos traumatizados sem poder simbolizar o que fora perdido. Se recuso o jogo, enfim jogo – só então opero em outras regras: as minhas. Deixo de ser sujeitado.

Um designer tem de ser um déspota, ainda que esclarecido. Um designer tem que “não ter que fazer”, tem que sentir o que o computador não sente. E principalmente tem que perder. Perder feio, escandalosamente. O designer que ganha é um merdinha. É aquele que olhará o texto em branco lá em cima e tecerá formulações semióticas.

"O verso de uma pintura", C. N. Gysbrechts (1670)

“O verso de uma pintura”, C. N. Gysbrechts (1670)

O texto em branco é um texto em branco. Só os cegos enxergam: não procuram no ar a concretude do vazio; como nós, que vemos. O cego encontra entre ele, sujeito, e objeto uma “possibilidade” – um tornar possível o que não é visto.

K. Malevich, pintor comunista russo, pintou uma tela onde não se via nada e a chamou de Quadrado Branco sobre Fundo Branco (1918). Os tolos da época juravam que estavam vendo um quadrado branco sobre um fundo também branco (são aqueles que costumam olhar para o dedo quando o sábio aponta o céu). Já os sábios da época juravam que K. Malevich era retardado mental. J. Cage, músico norte-americano, impressionado com as pinturas, entrou numa câmara anecoica (onde não há som), com a intenção de ouvir o silêncio. Lá dentro, trancado em absoluta solidão, ouviu sua respiração e seus batimentos cardíacos: havia compreendido que o silencio era um ato propositivo no mundo, uma ação para além da ação – porque era apenas ato simbólico; não existe de fato no mundo real… uma forma de deixar de agir para poder se expressar.

A fim de simbolizar esta experiência, compôs uma sinfonia de silêncios chamada 4’33’’. Ainda hoje é executada. A orquestra se prepara, o maestro levanta a batuta, os músicos respiram fundo e… permanecem durante 4 minutos e 33 segundos em silêncio. Em meio a isso, um som começa a emergir: ranger de cadeiras, tosse de incômodo na plateia, risadas, etc. A arte cessa e dá um passo atrás para que a música seja realizada pelo público. Hoje, após décadas do craquelamento da tinta, um quadrado branco começa a emergir do fundo branco de Malevich: ninguém havia apreciado que a tela, uma vez pintada de branco, voltaria a ser uma tela – a arte agora é o próprio mundo. O pintor cedeu sua chance de criar imagens, rejeitou seu poder de representação a fim de deixar o expectador falar.

Drummond, num poema bastante famoso de 10 versos, escreveu 7 vezes a palavra “pedra”. Os idiotas julgaram que se tratava de Transtorno Obsessivo Compulsivo. Outros enxergaram uma pedra no meio do caminho. Não viram, talvez, que há mais pedra que caminho, que há mais caminho que sujeito. E todos viram um volume na superfície do papel – um estorvo concreto na vida, um desacordo pessoal, inadequação de estar no mundo, o dinheiro e a falta de dinheiro… é quando a “pedra” começa a desaparecer. Quantas vezes ela fora dita mesmo?

Esse dizer que não está no dizer, essa expressão real, potente, edifica o seu ofício na ambiguidade, em algo que está no meio, entre, precariamente situado; nem no briefing, nem na pesquisa de mercado. Nem no projeto, nem no produto: está no designer. Esse é o corpo que tem que falar porque é o único corpo que fala. Este é o corpo que pensa.

Um produto só é um produto para quem não o utiliza. Quando uso meu paletó, ele aquece. Quando uso minha caneta, ela escreve. Quando lanço mão de meus pincéis, eu me expresso. Quando um católico usa seu rosário, ele reza. Porém não é o uso que faz o objeto – é o designer. Ele condiciona minha escrita; meu conforto; minha expressão; a fé do católico. Eu dependo do designer como dependo de um professor; por isso de alguma forma o detesto. Tenho que passar por cima dele a fim de me realizar, sei que o único dever do discípulo é superar o seu mestre, aquele que articula (e conduz) seu saber, media (e atalha) suas intenções; é preciso superar o design para que o meu ofício possa existir.

O casaco que me abriga deixa-me vulnerável. A caneta não corre na velocidade do pensamento. O pincel é o maior inimigo do pintor, pois é condição inelutável; não há como vencer, posto que a melhor maneira de pintar é realizando com maestria a função para a qual ele foi projetado. Isso é ter domínio técnico. Sem o terço, o católico perde-se na conta das avemarias… O design, ao dar forma, torna-se símbolo da expressão espiritual e material de minhas vivências. Como a pintura, deve desaparecer para que a imagem apareça…

Exagero? E daí?! Ninguém vai ler mesmo!

 

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