Não Obstante #9 – Nietzsche e o ressentimento

NaoObstante#9_POSTOlá designófilos!

Aqui está o nono episódio do Não Obstante, contando mais uma vez com Felipe Ayres na edição e com a arte de Marcos Beccari na vitrine. Neste programa, Marcos Beccari e Daniel B. Portugal recebem Antonio Edmilson Paschoal para conversar sobre seu último livro Nietzsche e o ressentimento (Humanitas, 2014). Edmilson Paschoal é doutor em filosofia pela UNICAMP, com estágio pós-doutoral na Universität Leipzig e na Ernst Moritz Arndt Universität Greifswal, professor da UFPR e pesquisador do CNPq.

Em Nietzsche e o ressentimento, ele estuda o conceito de ressentimento na obra de Nietzsche, observando que o termo possui dois sentidos complementares, um psicológico e um social. O primeiro diz respeito a uma espécie de envenenamento que ocorre quando, devido à impossibilidade de reagir, introjetamos nossos impulsos e os transformamos em sentimentos negativos que continuamos a remoer internamente (a re-sentir) devido à nossa incapacidade de “digerir” a experiência. O segundo, por sua vez, faz referência à constituição de uma forma de vida ressentida — isto é, orientada por valores provenientes do ressentimento psicológico. Trata-se  de uma forma de vida paradoxal, que, para se expandir, exalta os valores reativos e os cristaliza em constructos morais e políticos. A discussão sobre essas duas dimensões do conceito de ressentimento serve como uma excelente porta de entrada para o estudo das reflexões éticas de Nietzsche, especialmente aquelas desenvolvidas na Genealogia da moral.

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>> 0h06min00seg Pauta Principal
>> 1h32min26seg Música de encerramento: “Dust and Echoes”, da banda God is an Astronaut.

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O Não Obstante é uma produção conjunta do Filosofia do Design e do Anticast.

Uma resposta

  1. Rafael Levi disse:

    Fazendo uns paralelos… (e algumas digressões minhas)

    Interessante a interpretação do estômago sobre o ressentimento (dentro de seu aspecto negativo). Tem tudo a ver com a relação de Luto e Melancolia de Freud. Onde a Melancolia é um luto não superado, e muitas vezes não identificado / não compreendido. No caso o luto é uma etapa natural, que possui término. É um período de superação de um perda, mesmo que mental, enquanto a melancolia que mais para frente foi ser chamada de depressão. Ou seja, o melancólico, remói algo que não compreende, e que portanto, não consegue digerir. Que muitas vezes pode se apresentar sobre a não compreensão da falta de justiça da vida, quando o acaso, num jogo de sorte pesa mais para o azar do sujeito, que busca um sentido e uma justiça para o desbalanço.

    E muitas vezes ajuda para tais males a reflexão de perspectivas, onde ou sua expectativa pela justiça da vida está exagerada, ou que precisa haver o exercício de superação do azar recebido, assumindo a injustiça e a desigualdade. ‘O homem de Nietzsche olha para si mesmo’, justamente a revisão de sua régua de expectativas, sem rotular-se à partir das relações alheias com o acaso, sem considerar todo o contexto que fez com que sua ‘sorte’, assim o fosse.

    Interessante também falar a questão de forma estomacal. Me veio à cabeça A Nausea, que talvez seja justamente esse enjôo existencial, de um ressentimento desconhecido. E que, com o existencialismo sartriano, ao se deparar com a falta de sentido, ou essa frustração com a realidade, surge a intervenção de criar um sentido, a despeito de toda sorte e azar que o tenha moldado como é.

    Ou seja, essa moral do ressentido, parte daqueles que se sentem em posição desigual, na expectativa de uma igualdade e justiça. Em um mundo que não corresponde com essa visão, ou quando falta a percepção da falta dessa suposta igualdade que justifique a desigualdade sentida.

    O que tem tudo a ver com as militâncias, em geral de visões dos que se sentem oprimidos. Esse sentimento de depressão social, sem resignação, e sim com revolta e sentimento de injustiça. Muitas vezes por uma visão clara das coisas, e em outras justamente por uma visão limitada da complexidade das relações sociais. O que tem tudo a ver com a relação de diferentes e iguais, por vocês comentado. Essa inflexão existencialista ou Nietzschiana é individual, sem visão de igualdade mútua. Ascético, porém de uma forma de auto-superação, não como fuga, daquele que consegue superar a letargia. Já que não vê em si, seu todo, como O Mal, mas apenas parte de si. Sobe à montanha, porém volta. Pois aquele que nunca se volta contra si, se torna injusto também, tornando sempre o outro como inimigo.

    Jogar para debaixo do tapete é extremamente Junguiano, no arquétipo de sombra! haha Negar definitivamente não é o caminho, na visão de Jung.

    Com relação a consciência, como arquétipo da consciência coletiva, esse Deus, se relaciona justamente com o conceito de superego de Freud. É a internalização da moral coletiva dentro de si. Conceito esse que vêm de encontro com os conceitos de sociedade, como negação do natural. Desses impulsos da vontade (id), limitados por essa mão de deus (superego). E não de se surpreender a auto-destruição, tomando por exemplo o suicídio, é maior naqueles que vivem em uma sociedade altamente “civilizada”, a despeito de qualquer valor moral religioso. Esses valores de civilidade transcendem e agem de uma mesma forma. Moldando a índole.

    E ai temos a relação da genealogia de Nietzsche ao dizer que essa moral é incutida justamente pelos fracos, de forma que os fortes (ou potentes) podem ser limitados, ou sentirem culpa por assim o serem. Potentes esses que possuem liberdade, bens, felicidades, prazeres, etc., em excesso. Partindo justamente da compreensão de uma injustiça (que nos traz de volta ao ressentimento).

    Eu aqui escrevendo enquanto ouvia, e ao fim fui vendo que você chegaram em alguns pontos que comentei! haha Sobre as lutas de minorias e os opressores, creio que seja o ponto que comentei. Um sentimento de injustiça, que pode ser verdadeiro ou não. E esse é o ponto difícil de identificar a sobriedade de toda luta e reivindicação. E portanto a superação é a análise, eu que sou o vilão ou tenho um o qual devo enfrentar? E nesse ponto o extremo asceticismo vêm com a cultura da felicidade, já que a luta é a manutenção desse ressentimento até que se tenha de fato o resgate da justiça. E a felicidade, de um ponto de vista Kantiano, não é o objetivo supremo, ela justamente limita. E isso é um ponto não apenas das religiões ocidentais como das orientais, espiritualidades e livros de auto-ajuda.

    Perdoo o mundo, ou a mim mesmo? Mudo o mundo, ou a mim mesmo? Ou seja, dependendo do caso, é necessário entender qual caminho não se encaixa de fato. E que portanto o caminho de “limpeza” do ressentimento seja o conhecimento e a compreensão, seja de si mesmo ou do mundo. Para então saber o que fazer com aquele imbróglio no estômago.

    Curioso como em culturas orientais a origem de nossas energias e órgão mais importante é estômago e não o coração.

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