Nenhum armário de remédios hoje está completo sem uma cartela de pílulas de subversão para manter funcionando nossas glândulas conspiratórias

6075387388_6514c84ca1_zA descoberta científica mais impressionante feita pelo Instituto de Pesquisa e Entendimento Absolutos (IPEA) dos últimos meses parte de um cruzamento de dados jamais imaginado pelas pessoas comuns do resto do país. O professor responsável pelo levantamento das entrevistas, o renomado p.H.D. Cleysson Mendes, satisfaz-se em um visível sorriso na hora de explicar os pormenores do procedimento, da detecção do problema à dedução de sua causa com base no método:

“2014 teve um primeiro semestre marcado pela formação dos famosos ‘grupos de justiceiros’ pelo país. Jovens que saíam pela rua à noite amarrando bandidos em postes e ensinando os criminosos a se comportarem como cidadãos ‘de bem’, metendo-lhes o cacete” comenta Cleysson, em entrevista ao Jornal Nacional. “Como os membros do instituto foram rápidos em perceber, um fato insólito desenrolou-se em paralelo. Veja, a edição de número 14 do Big Brother Brasil teve a menor audiência da história. No geral, as pessoas estão assistindo menos televisão, trocando o tempo gasto em frente ao aparelho televisivo pelo tempo gasto em frente a outros aparelhos: internet, celulares.”

“Ou seja?” tentou completar o repórter.

“Ou seja, assistindo menos televisão, as pessoas se expõem menos às notícias de tragédias e barbaridades das grandes cidades. Menos expostas a isso, sentem menos medo, portanto, de sair por aí. Saindo mais, acabam encontrando mais bandidos e se rebelando contra os assaltos, pois, como eu mencionei, sentem menos medo. É um efeito colateral que a falta de televisão traz. Nosso instituto decidiu entrevistar 150 justiceiros e perguntar quais os programas favoritos de televisão de cada um deles”.

“Impressionante, professor!” exclamou o repórter, admirado pela perspicácia do instituto.

4406025803_1c9357474a_z“O resultado não poderia ser outro” continuou o professor. “Não apenas assistem cada vez menos, como inclusive reclamam da atual programação pouco ou nada chamativa. Pelos meus cálculos, dentro dos próximos 20 anos presenciaremos a falência de cerca de 80% dos canais. Perderão audiência em progressão geométrica até não conseguirem mais patrocínio para os comerciais. Haverá apenas um tipo de pessoa com dinheiro e audiência suficientes para manter um canal de televisão funcionando”.

O repórter hesitou, com medo da resposta. “Pastores evangélicos?” arriscou, após alguns segundos.

“Exatamente. Público-alvo garantido e reserva de dinheiro cada vez mais folgada”, confirmou Cleysson. “Não é por coincidência que cada vez mais temos canais com pastores genéricos rezando missas. O cenário do futuro é exatamente esse: justiceiros desinibidos descendo a lenha nas ruas e pastores desinibidos descendo a lenha nas telinhas.”

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Segue abaixo um distinto cavalheiro chamado Milton Glaser extravasando farpas e decepções com o estado do design contemporâneo em uma entrevista com Steven Heller:

dzlan“Eu acho que o mais corrosivo na relação entre o design e seu público tem sido a ideia de que design é uma manifestação da publicidade e persuasão”. Milton Glaser é um designer norte-americano das antigas, da época da litogravura e autor do famoso cartaz do Bob Dylan ao lado. Talvez você já tenha lido o famoso ensaio dele sobre as coisas que ele aprendeu em sua carreira. Pois bem. Não é de se espantar que alguém das antigas se mostre tão nervoso com o rumo que as coisas tomam – inclusive, essa seria a reação esperada. As coisas nunca caminham pelo rumo certo.

Entretanto, há algo de sagaz no discurso de Glaser. Podemos resumir bem seu intento no momento em que ele joga sua síntese do que pensa sobre arte: “A função da arte é despertar a atenção das pessoas o suficiente para que elas vejam o que é real”. Temos por aqui uma clara influência pós-moderna no que o artista se propõe na hora de colocar a mão na massa e, justamente por isso, Glaser bate mais alto ainda as tampas das panelas quando afirma que o design perde cada vez mais seu potencial comunicativo a medida que se separa da arte. “Eu me considero um artista hoje” admite, por fim, para desocupar o espaço de cima do muro.

A entrevista é ótima, ela é um redemoinho de pontos de discussão. Mas deixemos também uma menção honrosa aos contrapontos que Steven Heller faz em suas réplicas: com mais de 80 trabalhos publicados na nossa área, barato ele não iria deixar ao ouvir as exclamações de seu interlocutor: “Propaganda é errado, mas é o que você mais tem feito em sua carreira”. Vale a pena assistir, enfim. O grante tema que surge, infelizmente desembocando em uma espécie de maniqueísmo capitalista, é como o design se comporta, como profissão, com o passar do tempo. De um lado, o artista Glaser com sua amargura anti-publicitária. Do outro, Heller e a voz do mercado que tanto exige de nós uma imersão em seus valores competitivos. Há algo de moralmente valoroso em uma contra-cultura ou isso não passa de delírio com óbvios fins trágicos (desemprego? Trocar o pacote Adobe por tinta e cavalete)?

Quem ouviu o Anticast #127 tem uma noção de como a questão ética do design perante o mundo se ramifica, entretanto, simplifico o ponto trazendo à tona as palavras de Glaser: se a função da arte é aproximar o homem do real, o design parece ter surgido justamente como uma contra-cultura dessa aproximação. Uma espécie de não-arte em seu intuito precisamente contemporâneo de trocar o real por um não-real ou, nas palavras de Baudrillard, um hiper-real. O que a arte mostra, o design esconde.

41942696_ac7de727a7_zCalma, estamos apenas conjecturando. Qual é a motivação por trás da leitura de um livro, de ir ao cinema ver um filme, de admirar obras em uma galeria, de botar um álbum do seu artista favorito no seu aparelho MP4 Foston e ir ouvindo no caminho para o trabalho? Pressupor um ímpeto único e universal por trás de qualquer forma de consumo artístico é arriscado e, no mínimo, impreciso. Mas há uma necessidade acima do mero apelo estético que, me atrevo a sugerir, parte de uma necessidade ontológica de entender melhor o que se passa em nossas cabeças quando assuntos como vida, amor, morte, desapego, eternidade e outros tantos começam a martelar, pura e simplesmente porque são assuntos costantes. E essa necessidade sim, é correspondida recorrentemente em todas as formas de arte.

Ao longo da vida, você irá se sentir próximo de algumas peças de arte que você consome, e distante de outras: elas irão comunicar de formas diferentes com seus anseios por interpretações a essas questões. A arte não necessariamente as responde, porém, como mencionou Glaser, as posiciona imediatamente diante de seu espectador. É a esse posicionamento, esse momento de contemplação, que ele se refere como “real”. Não a um “real” categórico absoluto.

Sua indignação é, portanto, com a capacidade que o design teve de se distanciar desse nobre propósito da arte. Complicado, porque isso acaba por condenar uma profissão como essencialmente “má”, a priori. Mas não somos essencialmente maus, nunca tivemos essa intenção. O buraco é mais embaixo.

Acontece que, primeiramente, isso acaba por reduzir o design a uma mera técnica cuja finalidade é distorcer ou disfarçar o real. Não necessariamente, as vezes é pretencioso rotular um design como “bom” ou “ruim” apenas nesses princípos, ou mesmo trata-lo como técnica com um objetivo pontual é balela. Além disso, essa alegação de Glaser parece novamente querer colocar uma delimitação clara entre arte e design, coisa que eu já falei que não existe.

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Há alguns dias, fomos apresentados ao comercial da Nike oficial da Copa do Mundo:

Vamos relembrar uma fórmula simples de modo de produção global. A Nike produz tênis e chuteiras em escala global. Uma única marca é responsável pela concepção, criação, alocação e distribuição e produtos em mais de cem países. Para se manter dentro de um sistema lucrativo, a Nike precisa apelar para uma mão de obra mais barata na hora de produzir todos esses calçados, e por isso ela terceiriza as etapas de produção dos tênis para países “low-wage”, ou seja, países que podem oferecer um trabalho por um custo significativamente mais baixo. Um low-wage country geralmente é um país de terceiro mundo em desenvolvimento (Brasil?), populoso e com camadas sociais bastantes discrepantes (BRASIL?) e, com alguma sorte, com leis trabalhistas fracas ou inexistentes, para garantirem salários baixos e poucos benefícios (ufa. Segura essa, China).

8999464681_ab1360d6d5_zEssa é a realidade, mas ela não aparece no comercial ou em nenhum tênis que você comprar da Nike: o design desse sistema é perfeito, é invisível, é tão eficaz que nos purga completamente de qualquer traço de culpa na hora de comprar um kichute novo.

O receio de Glaser, de estar lidando com uma geração de designers malvados, fundamenta-se em uma conspiração antiga, com cara de delírio hippie: baseia-se na crença de que é somente do real que o ser humano precisa. Estamos vivendo em uma época na qual isso é altamente questionável, mas que, ao mesmo tempo, os fantasmas de um real rechaçado voltam, de vez em quando, para chacoalhar as correntes. Não importa de qual dos dois lados você olhe, tenha em mente que estamos cercados de conspirações muito bem arquitetadas.

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