Nestas águas em que me afogo

* Este texto é uma contribuição de Douglas Cavendish – pesquisador e mestrando no PPG DTecS da Universidade Federal de Itajubá –, relatando um breve testemunho da 1ª Sessão Não Obstante, realizada dia 02/05/2015.

Em 2010, eu era um jovem cheio de expectativas, curiosidades e muitas certezas sobre aquilo que eu queria me tornar: um designer, eu diria sem medo de errar.

Ainda é possível resgatar algumas lembranças ocorridas neste ano. Foi o último na faculdade de desenho industrial (hoje apenas design), onde eu mergulhava de cabeça no trabalho de conclusão do curso, um mergulho que talvez tenha sido muito profundo, de forma não calculada. Me afoguei.

Mas o que significa se afogar em design? Bem, segundo o que penso recentemente, significa estar envolto por uma miríade de informações e interfaces que te pressionam a crer ser possível denotar ao mundo um sentido. Para ser mais direto, se afogar em design seria como acreditar piamente na possibilidade de se projetar, traduzir ou até mesmo transformar o mundo segundo aquilo que acreditamos ser o correto para tal.

Foi assim, afogado, que participei em 2010 do N Design em Curitiba (um N emblemático para mim) e que, segundo consta na memória, foi a primeira vez que tive contato com Marcos Beccari, ao assistir uma mesa redonda mediada por ele durante o evento e com quem, ao longo dos anos, aos poucos, fui tendo mais contato (ainda que virtual), com o próprio e com sua proposta de uma filosofia do design.

Esta proposta vem se consolidando nestes últimos 5 anos. Site, blog, podcasts, canal no youtube, livro, todo um aparato composto de tecnologias, discursos, imagens, linguagens, uma miríade de informações e interfaces em rede que têm me feito refletir sobre o que seria esse “traduzir o mundo”. Recentemente a proposta ganhou uma nova abordagem, nomeada de “Sessão Não Obstante”, uma espécie de grupo de estudos que tem por finalidade se divertir no playground da filosofia trazendo o design - enquanto ator – para brincar junto.

Devidamente afogados e enredados, os participantes (dentre os quais eu me incluo a partir de então) não esperam por um colete salva vidas, nem sequer acreditam que exista uma superfície onde estariam salvaguardados de qualquer pressão atmosférica brusca, apenas insistem que existem outros mares para explorar e novas águas para se afogar, agora sob um aspecto mais coletivo e mais uma vez mediado por Beccari.

O que em 2010 eu tive contato como espectador, hoje tenho como articulador. Já não me cabem mais as expectativas e as certezas de outrora. O que permanece, não obstante, é a curiosidade e um fôlego para dar novos mergulhos.

Espero poder contribuir de forma mais contundente com a proposta de uma filosofia do design de agora em diante, seja aqui no site ou nas demais abordagens já existentes e ainda nas que virão a existir.

Aos que quiserem também perder o ar e o peso das certezas, que se afoguem também.

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