O artista, o belo e a arte : modelagem, mutabilidade e mercado

venus-de-willendorfHouve um tempo em que poderiamos considerar a beleza como produto da observação empírica dos elementos da natureza. Toda obra de arte , traduzida como manifestação sensível do Homem, seria necessariamente limitada a buscar reproduzir o que chega empiricamente ao mesmo. O artista seria então mero executor daquilo que já estaria pronto e acabado, mediante uma ordem cósmica estabelecida previamente, em um estado universal de simetria e harmonia das formas. O belo seria a materialização da perfeita adequação da habilidade do artista, ao mundo que o cerca. De outra forma, Platão restringia o alcance do conceito de arte, pois a idéia de verdadeira arte seria inatingível no plano material, posto que a mesma somente poderia ser apreciada no mundo das idéias. Segundo ele, o sentido do belo transcende o que os sentidos percebem, devido ao caráter precário e imperfectivel destes. Somente a razão superior , acessada pela alma, poderia apreciar o que é a beleza atemporal e absoluta, imutável ao longo dos tempos. Para o pensador, quanto maior a interferência do artista no que a natureza apresenta, maior a deformação, maior a distância entre a idéia perfeita do que é observado e a sua vã tentativa de dar sentido ao que deve ser atingido, como verdade, na transcendência.

Em sentido diverso, Aristóteles considerava o belo e sua respectiva apreciação, como uma convergência possível, entre percepção e natureza, presentes os requisitos sensoriais como premissa para uma verdadeira representação do mundo. Para este, o estado da arte corresponderia a um momento de arrebatamento, no qual a contemplação valeria por si mesma, uma condição de fruição existencial na imanência, tradução plástica da materialização dos sentidos. Arte e beleza, na visão de Aristóteles, compreendem a conduta, obra ou ação , visando esgotar-se na consequência da pulsão que as originou.

O filósofo entendia o artista como ser ampliador de possibilidades de interpretação do mundo da vida e, por conseguinte, como centelha para o enriquecimento da compreensão do que cerca o Homem, pelo observador. O belo na arte é , nesta visão, o movimento que dá sentido ao que , intrinsecamente, não possui sentido algum, exceto pela particularização da apreciação de cada indivíduo. Em adendo, para Aristóteles, a obra de arte cria condições de documentação histórica, permitindo aos apreciadores do futuro acessar um mundo que já não se faz presente, a não ser ali naquela manifestação personalíssima., transmitindo o belo didaticamente e mais, subjetivando aquela obra de acordo com o olhar de cada observador.

natureza-interage-com-amor-entre-casal-em-peca-da-mostra-em-exibicao-na-capital-mineira-1344039893584_615x470Na cristandade, Agostinho se ocupa em desconsiderar arte e artista , como meros instrumentos de imitação da natureza. Na sua visão, se o artista não é Deus, não poderia portanto sequer esboçar a materialização da vontade divina, em arte. Se Deus não é natureza e sim o criador da mesma, ninguém há de se ocupar em tentar imitar a natureza, como etapa a ser ultrapassada, para se chegar à divindade. Sendo assim, arte e beleza seriam veículos de exteriorização de pulsões, inclinações e repertório mundano do artista, e nada mais. O enfoque subjetivo é reforçado, tendo o artista ganho a condição de centro da criação, evidenciado pela sua capacidade em mostrar-se a si mesmo. A noção de genialidade ganha forma e relevância na arte, potencializada pela perspectiva de manifestação humana, seja ela qual for.

Mais adiante, a filosofia da arte ganha contornos ainda mais subjetivos, na figura do pensador alemão Baumgarten que, no século XVIII, introduz a noção de estética , como elemento determinante daquilo que irá ou não, causar impacto ao observador de certa manifestação artística. A partir daí, considera-se o belo como algo que agrada, arrebata, alegra ou simplesmente convém ao observador. Desloca-se assim, definitivamente, a idéia de beleza, do ente observável para a sensibilidade (aesthesis), singularidade do observador. Spinoza reforça esse preceito, definindo que , se tudo é imanente, logo estando no mundo da vida, e se somos parte de um todo que não cessa de se relacionar com outras partes do todo, nestas interações mudamos o mundo e somos mudados por ele o tempo inteiro. Somos afetados e transformados por esse contexto ininterruptamente. Se existe beleza, ela está nas relações interpessoais do mundo. Não há padrão de beleza que esteja acima e além.

Para Spinoza, o mundo nos afeta na medida em que afeta a nossa potência de agir, esta energia que dispendemos para viver, a nossa capacidade de nos alegrarmos com ele. Portanto, o mundo é belo quando nos impacta positivamente e feio quando nos entristece e debilita energeticamente. Morremos lentamente , enquanto o mundo debilita nossa energia e renascemos quando o mesmo nos impulsiona para a frente. Não é só uma questão da beleza estar nos olhos de quem vê, pois o mundo impactará o corpo por inteiro. Uma mesma pessoa poderá ser bela ou feia, conforme nos alegrar ou entristecer. O mesmo vale para lugares, trabalhos, situações do cotidiano.Portanto, a beleza será sempre um resultado do encontro dos corpos no mundo e não um atributo intrinseco dos mesmo corpos. Um corpo no mundo nunca será belo ou feio a priori e sim, quando alegrar ou entristecer a outro corpo. Dirá o pensador : O mundo é belo porque me alegrou e não o contrário. Primeiro a alegria, depois a beleza. Primeiro virá o afeto, o corpo e sua percepção, depois vem o valor e a beleza.

lj0raw2bwesm31m9qaukTodavia, ocorrerá uma problematização necessária, a partir da subjetividade definida por Spinoza . Se o belo é apenas o resultado do impacto singular do encontro do indivíduo com o mundo, como alcançamos , generalizadamente, tanto consenso na apreciação de uma manifestação artística ou de um produto ? De onde partem tantos juízos de valor convergentes ? Em meio a algumas abordagens relevantes, do ponto de vista histórico e filosófico, extrai-se aquela que nos interessa aqui em especial. Não por acaso, talvez a mais recente. A abordagem sociológica nos dá conta de uma concordância estética, envolvendo a arte e o belo como produto de uma dominação social. Consideremos que todos temos interesse em que as nossas preferências, de quaisquer ordens, sejam manifestamente aceitas pelo maior número de pessoas possível. Naturalmente que , em se produzindo tal efeito, nossa sensibilidade será tida como adequada e o nosso prazer será convertido em regra. Tal resultado validará nossa conduta no estrato social vigente a nós, eventualmente transpondo os limites do mesmo, para cima ou para baixo. Mais gente a nos prestar apoio, respeito e a delegar poder . Seremos revestidos de adjetivações do tipo “formador de opinião”. A força política que daí se extrai também deve ser considerada. Se não for dessa maneira, estaremos isolados , politicamente fracos, relegados a uma condição subalterna, perante o todo social.

Configura-se portanto, uma luta entre agentes sociais, pela definição de beleza, em um dado momento, decorrente dos interesses de uns, em necessário detrimento de outros. A supremacia no entendimento do que é belo, contamina a capacidade de apreciação dos demais, meros coadjuvantes, derrotados na batalha de convencimento, entre diversos atores sociais considerados. Esta contaminação se dá de maneira subliminar, pois os padrões de beleza são componentes de um sofisticado processo de socialização, ao qual estamos todos submetidos, percebamos ou não, inscritos simultaneamente com outros valores não estéticos, ao âmbito socioeconômico vigente. Este processo de socialização engloba , principalmente, valores éticos e morais responsáveis por uma rotina de definição do que é belo, vitorioso, positivo e benéfico, pela qual somos midiaticamente invadidos , a cada instante de nossa existência. Publicidade, moda, academias de ginástica, programas de TV, indústria da beleza e da alimentação saudável, clínicas cirúrgicas, personalidades públicas nos balizam, no que concerne às motivações para o consumo, seja ele qual for.

O belo encontra-se nivelado ao que é justo, direito, dentro da lei, ao que está inserido como válido na agenda pública e na agenda dos meios, como variáveis de maior valor e acerto, para aqueles que as adotam. O belo e o não belo são julgados a partir de um aprendizado, que está longe de ser isento, neutro. Os quesitos de definição, paradigmas do belo, são implantados através de um processo pedagógico ideológico, no qual ashqdefault forças dominantes da sociedade estabelecem o que é legitimado nesses termos, desde a mais precoce infância, com mínima margem deliberativa até mesmo para os adultos já tomados por tais padronizações. Sendo assim, torna-se evidente a associação entre a classe dominante, vencedora , virtuosa, dona dos meios de produção e de disseminação cultural, e o padrão de beleza por ela formatado. Todos os demais atores, desencaixados desse padrão, deverão buscá-lo, de maneira incessantemente recorrente, a qualquer custo. E o mercado de consumo estará apto a recebê-los.

Bourdieu irá denominar de “hábitos estéticos”, o fato do padrão de beleza, ou o belo, saltar aos olhos do indivíduo de maneira tão evidente. Mas não por ser evidente intrinsecamente, e sim por ser resultado de uma socialização de tal forma eficaz , que torna óbvio o que é simplesmente arbitrário, que não passa de ação sintonizada dos dominantes, em relação à massa dominada. O comportamento justo, somado ao corpo belo, convergem no sentido de explicitar a representação imagética de quem constrói a opinião , daqueles que definem rumos, tendências, modismos e, sobretudo, dos que lucram com esse estado de coisas. A indústria de definição do belo se lança contra o individuo que, isoladamente, nada pode fazer, perante tal estrutura de poder constituída, a não ser introjetar como verdadeiros todos os estímulos contidos no que lhe chega de informação, diuturnamente, de forma objetiva ou subliminar.

Adiante, o belo toma forma de um conectivo social, caracteristica que leva o ser, na condição de pertencente a um dado grupo ou estrato, a achar belo o que aquele conjunto de pessoas, considerados em bloco, acha. No intuito de evitar tensões, decorrentes de uma hipotética discordância, surge uma tendência de alinhamento do sujeito com a opinião majoritária, gerando afinidade, adesão e manutenção da aceitação do mesmo como componente daquela estrutura relacional. Em alinhamento, aquele sujeito estará autorizado a desfrutar daquele padrão de beleza, produto de um prazer adaptado aos interesses da classe determinante do mesmo padrão a ser seguido.

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A instrumentalização da estética serve perversamente como manifestação de poder, de uns sobre a maioria , no mundo dito civilizado dos tempos atuais. Isso se deve ao fato de que é quase impossível detectar a origem da sensibilidade, do prazer e dos mais elevados sentidos, que permitam definir com evidências quando algo é belo e perfeitamente sintonizado à nossa apreciação isenta de estímulos externos. A busca pelo alinhamento com o padrão de beleza imposto, é de tal forma escravizante, que a muitos determina a mutilação de si próprio, física, cognitiva ou financeiramente, quando não em ambas as abordagens, pela busca de uma vida em sociedade esteticamente suportável. A sociedade define o belo na dinâmica de construção de corpos, produtos, serviços, arte, indústria, turismo, validados nas instâncias de consagração do poder, onde agentes autorizados a dizer sobre o que é certo ou errado, possuem lugar privilegiado.

Em suma, ao voltarmos à problematização spinozana, é possível constatar que o consenso do belo é a perspectiva de que todos somos vítimas de um mesmo processo social e civilizatório, de estabelecimento do que é belo, bom , justo e virtuoso, atendidos os requisitos e interesses de poucos, constituindo-se em uma forma particular de dominação simbólica , traduzida no padrão estético como uma forma específica de manifestação dessa dominação.

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