O desenho como Objeto e os Objetos do Desenho

RÉMI PLANCHE | 2014 (óleo sobre tela)

RÉMI PLANCHE | 2014 (óleo sobre tela)

O desenho é mais do que o desenho – mais do que papel e lápis; sua natureza não reside nos materiais expressivos. O desenho se inscreve para além dos tutorais, das dicas e do ensino prático; a questão “como fazer” é apenas o primeiro passo: sua problemática central está em outra parte – “o que fazer?” Como sofisticada operação de produção simbólica, mais do que ilustrar ou transmitir conteúdos, o desenho guarda a função de elaboração formal. Não faz apenas mediação entre concepção e sujeito; é um conteúdo imediato da percepção. O desenho, enquanto formulação plástica, é uma maneira de reflexão visual.

Para compreender isso, vamos abordar pela borda: Dziga Vertov (1896 – 1954) cineasta russo, comunista e precursor do cinema mundial, criou filmes que funcionavam como um “cinema puro”, onde o roteiro era articulado por meio das imagens. Suas películas atuam como síntese onde a imagem articula uma intervenção simbólica, na mesma medida em que aglutina signos constitutivos de referentes específicos.

Para destrinçar isso, evoquemos Slavoj Žižek, filósofo esloveno contemporâneo. Žižek se refere ao cinema como a arte “perversa por excelência”, uma vez que não apenas nos mostra objetos de desejo, mas nos ensina “como desejar”. Noutras palavras, o cinema constrói o desejo emulando o processo experiencial da própria constituição do desejo. Sendo arte das aparências e fantasias, replica a própria compleição da realidade: diz-nos que ela é um constructo ideológico (para usar termos lacanianos, “imaginário” e “simbólico”), deflagrando a natureza editável do real. A ficção cinematográfica, “mais real que a realidade”, se faz necessária para a compreensão do mundo hoje porque encerra uma dimensão crucial para a qual não estamos preparados para ver dentro da nossa própria realidade.

Isto se dá porque o Real contrasta com a linguagem; entre ambos há sempre um hiato; sua intersecção é um vazio. O Real não é redutível à linguagem, ao mundo do Simbólico (imagens, fotografias, músicas, poemas, etc.) – é subsumido por ele.

O cinema é uma “arte perversa” porque se coloca no papel de Deus: mobilizando não apenas conteúdos da vida (mas emulando sua própria constituição ontológica, por assim dizer, que se traduz pela necessidade do registro simbólico para efetivação da experiência), é como se o cinema funcionasse como o referente máximo que baliza nossos valores. Ele possui algo que chamaríamos de “poder de verdade”; sua invenção nos convence.

SOPHIE RAMBERT, carvão

SOPHIE RAMBERT, carvão

Essa atitude de convencimento perante a imagem é provavelmente a mesma que teria um espectador do século XVI diante de uma pintura. Não é uma afirmação gratuita: um realismo, a rigor, surge em arte no período Barroco (século XVI e XVII),  – bem antes do Realismo francês de Coubert, Flaubert, etc. Claro que temos outra sensibilidade para apreensão do real, vivemos sob outro regime de visualidade – uma tela barroca nos pareceria hoje pouco realista. Mas naquele período ela teve o poder de convencer. Uma vez reconstruídas as coordenadas simbólicas, a imagem barroca fora capaz de criar a experiência do real, informando aos espectadores de então qual era a própria essência do real (que afinal, na versão lacaniana, é o que não está no quadro, o que mantêm-se sem possibilidade de representação, e só pode aparecer depois da pintura…) O crítico Coleridge dizia que diante de uma obra artística, acontece uma “suspensão voluntária de nossa crítica”: só vemos depois que cremos. Apenas enxergamos o que nos dispomos a enxergar – e só então a experiência do conhecimento se realiza.

Ou não se realiza. Como nossa crença e interesse só são mobilizados mediante essa “suspensão voluntária da crítica”, o caminho para novas informações está vedado. Exemplo: pretende-se que no momento atual uma parcela de classe esteja alienada pela mídia; que a mídia corporativa, com ênfase especial na Rede Globo, estaria enganando a todos com mentiras. Essa pretensão é um equívoco. Mais do que evidente é que qualquer emissora, sobretudo a Globo, edita os fatos da maneira que melhor respondam a seus interesses. Muitas vezes, é claro, de fato mente aos incautos – há poderes econômicos e políticos demais para que sejam desprezados quando se trata da mídia. Mas não é tão simples assim: essas notícias e eventos somente atingem grande repercussão quando o interesse dos telespectadores coincide com o das emissoras.

OLDŘICH KULHÁNEK, litogravura

OLDŘICH KULHÁNEK, litogravura

Assim é que o desenho, ou a “imagem” de forma geral, opera esse convencimento: evocando interesses e mobilizando desejos. Os desenhos reformatam o mundo e nos informam acerca dele. Sua natureza deítica reforça esse poder de convencimento, apontando para coisas que ele mesmo elege sob seu próprio critério de valores. É capaz de mediar (servir de intermediário) e medir (servir de parâmetro) nossa experiência com o mundo; e também é capaz de incidir ideias e valores no interior da vida prática, reinscrevendo o mundo e suas relações sociais e intersubjetivas dentro do próprio mundo.

 

Deixe uma resposta


nove + = onze