O Designer Idiota – Pt.2 (ou “o babaca”)

Dado o rebuliço que minha última crônica causou, aproveitarei o espaço para desenvolver alguns pontos que foram levantados pelos comentários.

Para os que decidem continuar, brindo com uma citação.

“Eu sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida; assim tenho sido acusado até hoje e o serei até o fim dos meus dias. Que tormentos terríveis tem me custado essa sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto maiores são os argumentos contrários”.

Dostoiévski

Por mais atual que essa frase possa parecer, especialmente levando em conta as posições que declarei na postagem anterior, ela tem mais de 150 anos. Foi escrita por Dostoiévski, em uma carta enviada à sua amiga N. D. Fonvízina, em fevereiro de 1854. Este post é dedicado às suas ideias.

(O que Dostoiévski tem a ver com design? Nada. Se isso te incomoda, se você é preguiçoso ou acredita que literatura/filosofia são coisas inúteis para o designer, pode fechar a janela. Seu lugar não é aqui)

O Idiota, de Dostoiévski

Em seu livro O Idiota, Dostoiévski nos apresenta o personagem Míchkin, um príncipe que é absolutamente bom. Como uma encarnação de Cristo em forma humana, ele não possui maldade alguma, e sua natureza peculiar lhe deu um talento próprio: ele é capaz de enxergar as verdadeiras intenções das pessoas. O psicólogo mais eficiente que já existiu. E, ao usar de seu talento para tornar público qualquer pensamento dos que estão ao seu redor, Míchkin desconcerta as pessoas. Um “míssil no núcleo de seus egos”, como diria o filósofo Luiz Felipe Pondé em Crítica e Profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski.

Apesar deste talento natural, o fato de Míchkin não possuir segundas intenções, por ser uma pessoa verdadeira o tempo inteiro, ou seja, por não se autoenganar (segundo a definição do autor), ele é considerado um Idiota, alguém com uma deficiência no estabelecimento de relações sociais.

Perdoem-me os crentes na ciência, mas eu cansei de ser bonzinho e querer agradar todo mundo. Agora, quero ser babaca. Um “babaca adorável”, se permitido for. Como tal, serei claro: não acredito, em momento algum, que o objetivo da vida é sobreviver. Não apenas isso, mas penso que todos que acreditam nisso estão jogando um jogo que já perderam. Sei que esse é o desejo de todos. Frente ao caos do Universo, todos projetamos o que gostaríamos que fosse. Mas vocês não vão viver para sempre. Ninguém vai. Acreditar que o objetivo primordial da vida é esse apenas traz frustração. No final, você perde.

Tomar a felicidade como ideal de vida é negar a sua totalidade. Muita gente grande já discutiu sobre isso.

Empresto, novamente, uma colocação de Pondé sobre o assunto, no qual ele cita a seguinte passagem de Sartre: “a completa e total liberdade inviabiliza as relações. No entanto, a sociedade é construída sobre a ideia de comportamentos sociais“.

Para Dostoiévski, o sonho de emancipação moderna é uma falácia que de forma alguma trará bons resultados. Dito de outra forma, a crença de que noções como ciência, Estado, e tantas outras, tornarão o homem certamente mais feliz, livre e independente é uma armadilha: quando o limite da existência se torna o próprio homem, viver e manter-se vivo torna-se o objetivo maior. Compramos uma guerra que é impossível vencer: a própria morte.

Esse discurso que impregnou o senso comum, o da busca da felicidade plena, de que “amanhã o mundo será melhor”, “carpe diem” e coisas assim, me soam bestas. Se você me colocar contra a parede, e me forçar a citar uma característica que acredito ser típica na natureza plena do humano, esta seria a angústia. A felicidade conforta, mas um ser feliz o tempo todo é um imbecil. Um falso. Um palhaço de maquiagem tatuada que se força a viver num picadeiro social que ele mesmo montou. Quando o público vai embora, me pergunto se ele chora.

Quando o príncipe Míchkin possui a total liberdade de ser bom, ele é o Idiota. E o Idiota, aqui, é o que vai contra a ordem natural das coisas. Ele é de natureza sobrenatural. Ele destrói o mundo ao seu redor por ir contra o que se espera dele.

Ele é “feliz”?

Ser “feliz” hoje é confundido com ser “bom”. Ambos conceitos me incomodam. Demais. Mas suporto. É a confusão entre os dois que me dá ânsia. Acreditar que, em um mundo caótico como este, é possível ter completa ordem e controle, de maneira que isso traga alguma forma de determinismo social que nos torne melhores, mais saudáveis e aumente nossa longevidade para sermos felizes é a maior doença que o discurso moderno conseguiu nos infectar. Baseado neste discurso, a humanidade produziu as maiores barbaridades. Estamos doentes, mas ao menos achamos ser felizes, melhores. E acreditamos piamente que amanhã isso só aumentará. Eu me pergunto: qual será o preço?

Acreditar que o designer tem um papel social para tornar o mundo melhor pode ser verdadeiro. Mas isso porque estamos na face do “social”. No indivíduo, no ser que dorme consigo mesmo toda noite, com todo o peso da morte nas suas costas, eu não acredito em tal tomada de consciência. O dia que um discurso como o da sustentabilidade deixar de vender, haverá outro tão socialmente-consciente quanto ele no lugar. Não vai demorar muito para se formar um movimento tipo happy design. Aliás, não duvido que já exista.

Mr. Nobody

Enquanto procurarmos por um “mundo melhor”, estaremos sempre deixando de viver o mundo de agora, que é o mesmo de sempre. Não nego as maravilhas da ciência, agradeço todos os dias pelos antibióticos. Mas acreditar que isso nos fará mais felizes é dar um salto muito grande. Se o homem tornar-se eternamente feliz, e todos os designers concordarem com o que é um “bom design”, será o fim da humanidade (vide o filme Mr. Nobody – quando todos se tornaram saudáveis imortais, deixaram de ter emoções).

Você, leitor-designer, que chegou até aqui. Lembra quando te falei, no último post, “cuide de suas estrelas”? Você é o idiota. Nós somos os idiotas. Mas estamos longe de sermos aquele Idiota, com “I” maiúsculo, como Míchkin. Não somos deuses. Somos mais como crianças de 12 anos querendo mandar em casa, achando que temos pleno direito de fazer isso. Apenas ridículos. E se quisermos continuarmos humanos, é melhor que fiquemos assim. Qualquer ideologia que tome o homem como um limite a ser superado é um suicídio desnecessário.

6 respostas

  1. Cesar Kohl disse:

    Olá Ivan, tudo bem? Vejo que trabalhou em cima deste texto e fico grato por deixar claro suas ideias.

    Você disse bastante sobre a felicidade e eu já li algo sobre isso também. É verdade, é uma guerra perdida, já que todos caminhamos rumo à morte. Mas que vale a pena ser batalhada. Principalmente porque não estamos sós, não somos os únicos detentores da vida. Ela continua em nossos filhos. O ser humano é egoísta, mas se você me disser que o ser humano não se preocupa com seus descendentes, que é algo meramente cultural, aí terei de desconfiar. E mais, nossa felicidade depende de nossa relação com os outros; quem é sozinho ou não tem habilidades sociais suficientes é infeliz.

    Sobre a totalidade da vida não se restringir apenas à felicidade: pra mim há duas coisas aqui: a alegria, que é momentânea, é intensa, é o êxtase, e a felicidade, que é permanente, é branda, é confortável (se quiser explico com detalhes). Enfim, sei o que é a infelicidade e por isso afirmo que não recomendaria a experiência de ‘todas as partes da vida’ a ninguém. Claro que é interessante, principalmente para ter parâmetros de bom/ruim. Mas cara, hoje eu estou numa boa, e digo que, se não sou feliz, passo por pouquíssimas infelicidades (como a angústia). Na maior parte do tempo não tenho do que reclamar, só tenho a agradecer. A felicidade é quase uma constante enquanto a alegria é repentina.

    Mesmo que morramos e a angústia seja eventualmente inevitável devemos combatê-la todas as vezes, porque é um sentimento ruim e esta justificativa basta (da mesma forma que colocar a mão no fogo faz mal).

    Mesmo que não haja felicidade plena, que tenhamos, pelo menos, o máximo de felicidade que pudermos!

    Mesmo que morramos, mesmo que não sejamos sempre felizes, ainda assim a vida vale a pena ser vivida, a felicidade vale a pena ser buscada. Sem cessar.

    *****O máximo de felicidade no máximo de lucidez, o quanto mais eu puder viver.***** E que haja um legado para que os que vierem possam também aproveitar/continuar aproveitando.

    Algo que eu sempre fico puto e foi por isso que me interessei pelo seu artigo é que os defensores do ‘tudo depende’ sempre se jogam num lugar onde tudo é etéreo e incalculável. “Somos todos tão desprezíveis e idiotas”. Eu entendo que os seres humanos não são perfeitos mas é inegável a melhora contínua em todos os aspectos de nossas condições de vida como espécie.

    E, nesta imperfeição fica evidente que, por mais ideias que tenhamos, somos preenchidos por emoções. Quem só pensa, quem não sente, não vive. Eu já estive dos dois lados da moeda (desprezar as emoções e só sentir as emoções) e concordo com isso.

    Se somos desprezíveis porque não vamos de acordo com a razão e sim com a emoção, digo, *****quem conseguir utilizar suas ideias para dirigir suas emoções terá o privilégio de aproveitar a vida da melhor maneira possível.*****

    Por isso que as únicas ideias que deveriam ser relevadas são estas que buscam a sobrevivência, mesmo que não a sua, e a felicidade, mesmo que não seja permanente.

    Não sei se consegui deixar claro, mas é por isso não concordo com seu ponto de vista.

    • Ivan Mizanzuk disse:

      Cesar, obrigado pelo comentário.
      Acho que ficou claro nossos pontos de vista opostos. Eu não consigo confiar na ideia de que a razão (que no texto eu considero sinônimo ao termo “espírito moderno”) é capaz de dominar e guiar o homem a lugares “melhores” – sejam eles as ideias de felicidade ou coisa do gênero. Desejar a felicidade o máximo possível é, para mim, um perigo. Essa atitude me soa mais alienante do que boa parte do que se julga alienante por aí. Não foram poucos os casos em que a razão, como mecanismo de suposto “melhoramento”, causou barbáries das mais terríveis na história da humanidade, muito piores do que qualquer inquisição medieval (ao meu ver).
      Desconfio muito da noção de que estamos melhorando. Não acho que haja parâmetros para dizermos que somos “melhores” ou “mais felizes” hoje do que há 200, 500, 1000 anos atrás. Prolongamento da vida não significa melhoramento da mesma no campo afetivo. Levando em conta que “felicidade” é uma emoção, uma forma de afeto, e tendo em vista que o homem não é, nunca foi e nunca será 100% racional, a força do afeto, das emoções, mantém-se no cerne da discussão da condição humana. E estas não se alteram. No máximo se adaptam às novas formas de sociabilidade. Mas, ainda assim, sofremos e amamos (não necessariamente uma companheira) das mesmas maneiras.
      Sendo assim, por escolha própria, prefiro confiar em dimensões afetivas, que possuem registro de existência clara e assume a existência de comportamentos imprecisos desde que o homem passou a escrever sobre elas – ou seja, admite o fracasso do homem frente à imensidão do Universo –, do que confiar em um projeto racional de pouco mais de 300 anos que diz ser capaz de controlar o rumo de tudo, levando-nos, supostamente, a um “amanhã melhor”. É a imagem da criança de 12 anos querendo mandar em casa. Não, não aceito.
      Mas, como sempre digo, esse sou eu. =)
      Um grande abraço!

  2. Cara, só o Dostoiévski para colocar Cristo como um Idiota… é o que Dave Gibbons fez com Batman. E o que vc está fazendo com a esperança dos designers! haha Adorei o texto, como sempre, mas farei alguns comentários.

    Realmente, creio que a sede que predonima no Design é a de ultrapassar a condição humana. A “forma que segue a função” é aquela maquiagem tatuada que esconde a angústia natural e trágica das coisas. Mas seria o designer idiota por isso?

    Se ser idiota é ir contra a ordem natural das coisas, é alienar-se socialmente, quem é que conhece as coisas como elas são de fato? Quem é que não é idiota? Creio que todos nós pretendemos ser “sobrenaturais”, tentamos projetar no mundo aquilo que esperamos dele. Mas ser idiota, ao que me parece, é achar que temos controle disso. Ou pior: que há uma determinada ordem natural a nosso favor.

    Nesse sentido, de fato o discurso moderno traz consigo uma doença viral, tão grave que quanto mais impregna, mais parece curar. Uma droga lisérgica que nos afungenta de nós mesmos através dos outros, do coletivo, do social. Emprestando as palavras de Philip Dick, o ser humano é uma doença incurável porque tenta ser imortal com o desejo coletivo de sobrevivência. Por isso estou começando a achar que, nos termos de Jung, a modernidade foi uma espécie de amnésia volunária, uma tentativa de “apagar” nossas heranças ancestrais (estas sim imortais).

    E o paradoxo é anular a imortalidade pela busca incessante da mesma. Como vc disse, um suicídio desnecessário. Fiquei curioso p/ baixar esse Mr. Nobody, mas não precisamos ir tão longe, Huxley dedicou toda sua obra pra discutir o nosso grande sonho de emancipação.

    Na verdade, creio que a idiotice é a sina de todos. E o único meio de livrar-se dela é aceitá-la. Até que parece simples, não fosse o fato de que dói. Muito. Justamente por ser tão inofensivo. This isn’t happines: http://30.media.tumblr.com/tumblr_lexqw3KXSE1qz6f9yo1_500.jpg
    Um grande abraço ansioso por novas idiotices filosóficas!

    • Ivan Mizanzuk disse:

      Marcos, obrigado pelo comentário! =)
      Só gostaria de esclarecer uma coisa para o leitor que passar por aqui: Dostoiévski, ao colocar a figura de Cristo como um “idiota”, está fazendo uma crítica à sociedade moderna, deixando claro que, nessa configuração social, o bem absoluto não possui espaço. É uma ideia que ele desenvolve em diversas obras, inclusive na lenda do Grande Inquisidor, localizada nos Irmãos Karamazov, quando Cristo reencarna durante a Idade Média, e é preso pela inquisição sob a acusação de estar destruindo todo o plano da Igreja. Afinal, a figura de Cristo representa a liberdade absoluta, coisa que, segundo Dostoiévski, é indesejada pelo homem, pois ele não a aguenta (engraçado ele falar isso quase um século antes do Sartre, não?). Segundo o Grande Inquisidor, o povo não quer liberdade – o povo quer pão, como citei na crônica anterior.
      Por isso, o verdadeiro Idiota (com “I” maiúsculo) é inexistente. Só existem os idiotas menores, nós. =)

  3. Gustavot Diaz disse:

    Caro Mizanzuk, acompanho curioso a polêmica suscitada por teus últimos escritos, polêmica não gerada, parece, por tuas idéias, mas pelo fato de apresentares tuas idéias. A subjetividade normalmente é mais polêmica que a objetividade (no caso, a Epistemologia de uma prática do Design). É que sinto, ou já senti (sem querer inferir que tenha mais experiência…) algo muito semelhante. Minha adolescência foi marcada pelo niilismo (especialmente Camus; também muitas doses de Sartre e Dostoiévski), e um dos primeiros pensamentos libertadores para mim foi o seguinte: “não desejo mais ser feliz, desejo apenas estar consciente” (A. Camus). Voltou-me esse espírito ao ler o que escreveste. Quando se chega a esse ponto é porque muito nos (mal) julgaram: e agora nos julgam por termos chegado a esse ponto (falo de mim…). É como disseste: somos julgados pela crença como fanáticos idiotas, ou pela descrença, como idiotas fanáticos. É escolher um lado! Creio, porém, que nossas “crenças” não sejam exatamente “idiotas” – idiota é confundi-las com Verdade. A Verdade é inútil; no mundo e na vida, o que governa é a força das motivações, que baliza a disputa entre os interesses e as crenças. A Verdade, se existe, existe só. Ainda digo, nossos gostos e desgostos, achados e perdidos, se moderam pela ideologia – esse sistema de valores que nos mede e com o qual medimos os outros, nos constituindo e sendo por ele constituídos… “Creio” nisso, independente da Verdade disso.

    Um abraço, e admiração,
    Gustavot

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