O Óbvio é o Reflexo do Invisível

Minha intenção é só dizer coisas óbvias. Sempre a evidência mais banal. Porque o significado mais profundo – aliás, o único significado possível às coisas, reside justamente na obviedade. Mesmo isso é óbvio e fácil de argumentar – quando um filósofo ou cientista passa anos investigando um problema, e de repente o descobre, bate com a mão na testa e diz “mas é óbvio! Como é que eu não tinha visto isso antes, estava na minha frente” (lembrem-se do famoso “Eureka” de Arquimedes). Não tinha visto porque estava diante do seu nariz: e é justamente aí o único lugar que nós não podemos ver.

Sofremos, enquanto espécie, uma triste contingência: o olho humano é cego. O aparelho visual, enquanto sistema, pode muito bem funcionar perfeitamente – se o cérebro não fizer a devida correspondência de decodificação das sensações luminosas recebidas pela retina, tudo passa em branco. Ou em preto: não enxergamos nada. O caso clássico é a cegueira psicossomática (abordada de maneira genial em Dirigindo no Escuro [2001], de Woody Allen). Seu olho funciona, mas você não enxerga nada, porque há um bloqueio inconsciente; um caso particular e não raro de histeria.

Mas aqui não se trata de psicopatias – digo que somos realmente cegos, ainda que sem neuroses, e sem quaisquer problemas de visão. Há muitos anos dou aulas de desenho e hoje percebo com clareza que minha função não é ensinar os educandos técnicas de desenho, mas fazê-los abrir os olhos.

Vivemos em sociedade, e nossa relação espontânea com o meio social chama-se ideologia. É esse o sentido da ideologia: ela não é uma visão imposta de cima para baixo, nem uma mentira articulada que nos contam; é uma ficção de que tomamos parte voluntariamente. Há a ficção do “sistema”, para usar a metáfora do Matrix; e há outra, percebida por J. Lacan, muito mais profunda, ontológica, e a qual a primeira é subsumida: a ficção originária dos nossos desejos. A “realidade” que vemos é uma espécie de anamorfose, uma distorção criada pelo desejo. E não há maneira de retificá-la. Assim como na ideologia do sistema capitalista – se atravessamos a camada ideológica da superestrutura, no final encontramos um vazio; na anamorfose de nossos desejos acontece o mesmo, sem essa distorção não há uma realidade “correta”: sem a deformidade com que nossos desejos nos apresentam a realidade para nós, não há o “real” – há o nada.

Em termos mais simples, vou me referir a um conto de E. Allan Poe, chamado “A Carta Roubada”. Todos sabemos que há dois modos de se esconder uma coisa: recriando clones dela infinitamente, ou colocando-a no lugar mais óbvio possível. Lacan tira como interpretação deste conto a lição de que “uma mensagem sempre chega a seu destinatário”; mas podemos tirar também a conclusão de que nunca procuramos as coisas que devemos no lugar devido porque sempre esperamos que estejam em algum lugar; esperamos que sejam de alguma forma, esperamos que tenham algum modo, ajam com determinado comportamento, gênero, ideias, conceitos, cor, crença, aparência, etc… Não percebemos a forma estética das coisas: estamos sempre diante de nossa própria expectativa. Por isso raramente nos colocamos efetivamente na posição de viver uma experiência e extrair dela um significado; porque todo significado é inédito. Toda grande descoberta só é grande e só é uma descoberta porque já estava presente desde sempre diante de nossos olhos: o que nos faltava eram olhos para vê-la, olhos que “descobrissem” a sua nudez…

Filippo Brunelleschi inventou a Teoria da Relatividade no começo do século XV, bem antes de A. Einstein. Brunelleschi, personalidade de interesse a todo artista, sobretudo aos designers, uma vez que foi, por assim dizer, o criador da perspectiva fez um legado infinitamente profundo. Num de seus experimentos, se colocou sob um dos portais da Catedral de Santa Maria dei Fiore na Piazza di San Giovanni, num corredores de onde se pode ver até hoje o edifício do Batistério de Florença (que fica defronte à Catedral). Olhando aquela vista, ele então pintou o Batistério sobre um tablado de madeira com uma perfeição ultrarrealista (para os padrões da época), com uma exatidão matemática no traçado da perspectiva. Nela, como se sabe, as linhas que são originalmente paralelas convergem em profundidade para um único ponto de fuga (como nos trilhos do trem, cujas laterais paralelas parecem se beijar no infinito – este ponto onde elas se encontram chama-se ponto de fuga). Justamente no ponto de fuga da cena que pintou, Brunelleschi fez um furo, abriu um buraco no tablado de madeira, do tamanho de um grão de feijão, de modo que se pudesse enxergar através dele. No lugar do céu, ao invés de representar nuvens, ele colou uma chapa de prata polida – assim, quando a pintura era vista ao ar livre, essa prata polida simulava o céu, funcionando como um espelho que refletia o céu verdadeiro.

A maneira correta de ver o experimento de Brunelleschi era segurar a pintura de revés (ou seja, olhar o verso dela) com a mão esquerda; e com a direita segurar um espelho voltado para o expectador. Nesta posição, o que o observador deveria fazer era olhar pelo buraco aberto na madeira – vendo assim a imagem da pintura refletida no espelho que tinha na mão direita (e não a pintura diretamente). Seguindo essas exatas coordenadas, de onde quer que o expectador visse a obra, a sensação era de que ele estava sob um dos portais de Santa Maria dei Fiore olhando para o Batistério de Florença.

Esse foi um dos maiores legados de Brunelleschi à humanidade (além, é claro, do domo da catedral, o maior do mundo, cujo segredo arquitetônico nunca foi decifrado completamente). Brunelleschi provou que a experiência só pode ser revelada por meio de coordenadas específicas – e estas só são obtidas através de algo muito mais específico ainda: um ponto de vista individual. Curvando um pouco a vara, podemos dizer que Brunelleschi inventou a subjetividade. Ele sem dúvida foi um marco simbólico da “invenção de um olhar” capaz de descobrir, descortinar o mundo a partir da relatividade dos infinitos pontos de vista. Aí é que ele abre o caminho para Einstein cinco séculos depois.

(Nosso salto histórico irresponsável é pura falta de método uma vez que não procuramos sentido nas casualidades, mas duvidamos profundamente dos sentidos das causalidades…)

2 respostas

  1. Graca Craidy disse:

    Belíssima reflexão, Gustavot, nos contando desse olhar cego voltado pra dentro que já está pronto, é moldado pelo nosso desejo e só falta enxergar. Que maravilha! abs.

  2. Liana Severo D'Abreu disse:

    Uma bela reflexão sobre o olhar e de como não enxergamos atrapalhados e boicotados por nossas expectativas. Sim, é bem isso mesmo…e como é difícil enxergarmos apesar de estarmos vendo. Acho que descortinar realmente é o melhor sinônimo para este enxergar mais profundo.Muito bom!!Abs.

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