O processo enquanto subjetividade

Ao contrário do que muitos dizem por aí, proponho que nós julguemos as pessoas com mais frequência. Julgue cada um que vir pelo jeito que se veste, pelas tatuagens que tem, pelos acessórios, estilo de cabelo, pelas palavras que profere. Mas antes que você me julgue, preciso explicar um pouco melhor o que quero dizer com isso.

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No seu dia-a-dia, acredito que seja chamada de preconceituoso alguém que julga outra pessoa a partir desses parâmetros que mencionei. No entanto, há alguns problemas semânticos que precisam ser resolvidos.  De fato, um dos sentidos possíveis do verbo julgar é ter-se por; considerar-se; vamos entender fazer inferências com relação à personalidade de alguémAinda assim, discordariam de mim, alegando que fazer inferências com relação à personalidade de – julgar – alguém com relação a alguns parâmetros é reducionista, preconceituoso, ignóbil, burro.

Acontece que toda e qualquer decisão, além de significar a não-escolha de infinitas outras possibilidades, demonstra, conscientemente ou não, aspectos mais ou menos profundos da personalidade do indivíduo.

De forma mais clara: escolher uma roupa para vestir sempre vai comunicar para todos os outros indivíduos da sociedade em que você vive algum aspecto seu. Mesmo que você escolha vestir a roupa mais vagabunda porque você-não-se-importa-com-roupas-ou-marcas, isso vai demonstrar um aspecto da sua personalidade que é de não se importar com roupas ou marcas.

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O que, de fato, não deve ser simplificado, já que um mesmo output de escolha pode significar múltiplos aspectos do indivíduo – i.e. uma roupa vagabunda pode significar que o usuário é um revoltadinho, ou um mendigo, ou estava na casa de um amigo que só tinha roupa vagabunda, etc. Além do mais, uma mensagem pode não ser interpretada de forma mais complexa pela falta de conhecimento ou repertório do receptor.

Portanto, as inferências que são feitas a partir das inúmeras pequenas evidências comunicacionais são, não apenas válidas, como fundamentais e inerentes ao convívio humano. É mais ou menos como se, a todo tempo, estivéssemos brincando de Sherlock Holmes, embora na maior parte do tempo seja de forma instintiva e não-voluntária: catamos evidências e criamos histórias para o indivíduo que as emite.

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E então, a partir de todas essas minúsculas decisões e todos os feedbacks da sociedade que formamos nossa identidade. É a partir do agenciamento de todos esses infindáveis elementos, inclusive elementos de extensão (seu corpo), que você é capaz de se distinguir de outro indivíduo e, a partir daí, projetar sua identidade.

Projetar sua identidade.

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E é a partir disso que acredito que um dos pontos que reforça o caráter subjetivo de um projeto provém não da linguagem gráfica ou verbal, mas das decisões projetuais. O que se observa ao identificar determinado projeto como sendo de algum autor é a utilização de muitos conhecimentos prévios para a tomada de decisões e aplicações de técnicas, tornando, assim, o projeto uma extensão da identidade do designer.

Observar isso se torna importante porque transmuta o resultado de um projeto de design em também uma construção narrativa. O designer, por sua vez, conta uma história, já que em última instância, é sua subjetividade – identidade, história – que determina muitas das soluções. O que cria uma questão sobre a crítica em design: pode não haver uma solução ótima a ser descoberta, apenas caminhos e decisões que trazem consigo consequências.

E é exatamente assim que eu entendo liberdade: lidar com as consequências que cada decisão – projetual, de vida, em um relacionamento – traz. Acreditem, crianças, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.
A parte divertida é que nada disso é tão simples. Mesmo esses constructos tendenciosos afetam tanto o emissor quanto o interpretante; a nacionalidade, apesar de não ser uma escolha, é um importante elemento desse agenciamento que compõe a identidade. Por outro lado, decisões que são tomadas voluntariamente por vezes modificam de forma muito mais rasa do que eventos que não podemos controlar.Com relação ao preconceito, eu entendo como uma inferência depreciativa de um signo que não foi fruto de decisão do indivíduo. Ou seja, julgar segundo nacionalidade, cor da pele, sotaque. Que, para mim, é tão bobo quanto se orgulhar de qualquer uma dessas coisas: orgulho de ser brasileiro. Na verdade, os preconceitos são juízos tendenciosos criados, normalmente, como ferramenta de dominação social sobre “minorias”.

E é exatamente aí, nessas sutilezas que na verdade são, em si, a realidade compartilhada na qual convivemos, que o Design deve existir como modo de olhar. Sutilezas por que, na verdade, esses extremos que são meramente didáticos e/ou retóricos; no mais aberto é por onde deve andar o designer. Andar e nunca ficar.

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