O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido.

Como uma olhada rápida no texto permite observar, Latour constroi boa parte de seu argumento com base nas ressonâncias semânticas do termo design, o que gera certas dificuldades em uma tradução. A maior delas talvez seja seu uso do design como verbo, comum em inglês, porém inexistente no português. Como comento na primeira nota de tradução do texto, a escolha óbvia seria verter to design por “projetar”. Entretanto, o termo projetar aparece em seguida no texto como a própria antítese do fazer design: ele possuiria ressonâncias modernistas ou prometeicas, enquanto o design possui ressonâncias bastante diversas.

Assim, traduzi, na maior parte das vezes, o verbo to design por “elaborar”. Ou, quando o foco estava no próprio design, utilizava “elaborar através do design”. Independentemente da solução adotada, porém, fica aqui evidente como alguns problemas de tradução nos levam diretamente às próprias questões teóricas que são tratadas no texto.

solda2Mergulhemos logo, então, em tais questões, seguindo a linha de raciocínio de Latour. Logo de início, ele nota que o termo “design” costumava, antes, ser visto sempre como algo secundário, que se adicionava àquilo que realmente importava (a funcionalidade mecânica, os atributos materiais, as questões econômicas): “era como se houvesse [...] duas formas bastante diferentes de encarar um objeto: uma delas, através de sua materialidade intrínseca, e, a outra, através de seus aspectos mais estéticos ou ‘simbólicos’”.

Essa era a forma moderna de encarar o design, mas é fácil observar que ela cada vez mais perde lugar para uma nova visão do design como algo central a tudo que nos cerca. Latour observa, então, que “o design tem se expandido continuamente, ganhando cada vez mais importância para o cerne da produção. E mais, o design se estendeu dos detalhes de objetos cotidianos para cidades, paisagens, nações, culturas, corpos, genes e, como argumentarei mais à frente, para a própria natureza – a qual precisa urgentemente ser reelaborada”.

Tal expansão do conceito de design pode servir como ponto de partida para refletirmos sobre a cena contemporânea, ou a “pós-modernidade”, do ponto de vista de uma filosofia do design. Nesse âmbito, a passagem do que se costuma chamar “modernidade” para o que se costuma denominar “pós-modernidade” pode ser encarada como a passagem de um referencial projetual prometeico, calcado na pretensão universalista, para um referencial projetual pós-prometeico, que Latour caracteriza a partir de cinco conotações do próprio termo “design”.

A primeira diz respeito ao caráter humilde do termo, em comparação com palavras como “construção”. Humilde porque possui ressonâncias experimentais e flexíveis, em oposição a palavras no campo semântico da construção e da revolução, que pressupõem um único Método, Caminho ou Ideal já dado.

periciaA segunda está ligada a uma atenção aos detalhes evocada pelo termo “design”; conotação esta oposta à brutalidade que acompanha noções como de construção ou revolução. Isso porque estas últimas estão associadas a um sonho megalomaníaco de mudanças radicais. E, quanto, mais megalomaníaco o plano, mais e mais coisas são relegadas à esfera dos “detalhes pouco importantes”. No limite, mesmo milhares e milhares de vidas humanas podem ser relegadas a tal esfera frente a supostos Bens como o Comunismo.

A terceira é a íntima ligação do design com significados e gostos. Quando se fala em construir algo, costuma-se pressupor que tal construção será guiada por métodos pretensamente “objetivos” e voltados a problemas materiais. No caso improvável de a estética e as significações daquilo que se está construindo serem consideradas, será apenas como algo secundário. Quando se fala em design, ao contrário, pressupõe-se de imediato que as significações e a estética serão ao menos tão importantes quanto as considerações materiais. Isso porque as consideraçãoes materiais não estão aí separadas das demais. Não se coloca, de um lado, a materialidade dura e verdadeira e, de outro, os sentidos e gostos subjetivos e superficiais.

A quarta conotação diz respeito ao caráter “adaptativo” do design, em oposição à lógica de “criação a partir do nada” do referencial moderno/prometeico. Como sabemos, fazer design é sempre, de certa forma, fazer um redesign. Mesmo quando vamos elaborar algo “novo”, partimos de pesquisas e de referências visuais diversas. O design contemporâneo, já foi dito, tem sempre um quê de bricolagem.

A quinta, por fim, é que o design sempre envolve uma dimensão ética. Quando se projeta seguindo supostas verdades universais, tende-se a ignorar essa dimensão, no que diz respeito tanto aos princípios que orientam o projeto quanto, principalmente, às consequências do projeto. Quando se fala em design, por outro lado:

É como se a materialidade e a moralidade finalmente se unissem. Isso é muito importante porque, se você começa a reelaborar cidades, paisagens, parques naturais, sociedades, bem como genes, cérebros e chips, nenhum designer vai poder se esconder atrás da antiga proteção das questões de fato. Nenhum designer vai poder dizer: “estou somente relatando aquilo que existe”, ou “estou simplesmente tirando as consequências das leis da natureza”.

A partir dessas cinco conotações do termo “design” e de sua expansão, começando a cobrir áreas semânticas anteriormente dominadas pelo vocabulário prometeico, podemos vislumbrar, então, um novo entendimento da “ação coletiva”, ou seja, daquilo que podemos fazer junto com outros, seja com outras pessoas ou com objetos. Não se trata mais de modificar tudo na direção de uma suposta Verdade ou suposto Bem com B maiúsculo, e sim de aceitar o desafio de lidar com as maneiras complexas por meio das quais aquilo que elaboramos afeta outras pessoas e coisas. É por isso que Latour afirma (de uma maneira intencionalmente polêmica, claro) que o termo “design” substituiu o termo “revolução”.

prometeu2Fazer design seria uma alternativa a fazer revolução, seria uma forma pós-prometeica de revolução! Aproveitando a frase, talvez seja hora de nos determos um pouco na expressão “pós-prometeica” e de modo geral em todas as referências a Prometeu, que já figura no próprio título do paper. Prometeu, como se sabe, é um titã da mitologia grega, famoso por ter roubado o fogo divino para entregá-lo aos humanos e pela punição que recebeu por tal ato: ficar durante toda a eternidade preso em um rochedo tendo o seu fígado devorado por um abutre (Haja criatividade sádica!). Em algumas lendas, Prometeu aparece ainda como o próprio criador (ou seria um designer?) do ser humano. Desse modo, ele se tornou uma figura mitológica representativa do ato de criar e, principalmente, do impulso de criar algo a qualquer custo e até em sacrifício de si mesmo.

Assim, o modo de ação prometeico é aquele marcado pela megalomania e desconsideração das consequências do fazer – ou melhor, de algumas consequências: todas aquelas que não se enquadram no referencial totalizante que serviu como ponto de partida. Em contraste, o modo de ação pós-prometeico é aquele que está em consonância com as cinco conotações do termo design mencionadas: humildade; atenção aos detalhes; atenção aos significados e gostos; inclinação adaptativa e valorização do já dado; reconhecimento da dimensão moral do fazer.

Latour faz questão de frisar que o modo pós-prometeico de ação está muito distante da apatia ou desnorteamento que se costuma associar ao pós-modernismo. Ao contrário, o modo pós-prometeico de ação, ou seja, um fazer orientado por uma forma de design thinking, é o único apto a lidar com os problemas contemporâneos, problemas em uma escala inconcebível para o referencial prometeico: “nenhum revolucionário político comprometido a desafiar os modos capitalistas de produção jamais considerou reelaborar o clima da Terra”.

Ao refletir sobre o modo pós-prometeico de ação e as propostas teóricas a ele relacionados, Latour apresenta ainda a filosofia das esferas de Sloterdijk (à qual dedicarei um post futuro) e termina o paper com um desafio para os designers: o modo de ação prometeico contou com uma enorme gama de tecnologias representacionais, da perspectiva cônica ao CAD; precisamos agora de tecnologias que potencializem o modo de ação pós-prometeico e os designers são, sem dúvida, atores centrais para seu desenvolvimento. Como podemos estimular o desenvolvimento de tais tecnologias?

4 respostas

  1. Daniel, ainda não li a tradução mas quero agradecê-lo por fazê-la!

    Tudo de bom!

  2. Leonardo Lorenzo disse:

    Primeiro venho agradecer a tradução, explanação do texto e pelo podcast do não obstante sobre o tema, valeu!

    Fiquei bem interessado em ler Sloterdijk depois de toda essa propaganda que Latour faz no Paper.
    Qual texto ou livro dele você recomendaria para um intrépido graduando que recentemente tem se interessado pelo tema de filosofia do design?

    Abraço =]

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