O que é Design? – Uma Pergunta Etnocêntrica

Nestor Garcia Canclini, na bela pesquisa intitulada A Socialização da Arte1 desmistifica a pergunta “O que é Arte”, analisando-a sob dois viéses: 1) a pergunta pressupõe a existência de uma definição absoluta do que seja Arte, 2) esta definição, ainda que existisse, jamais poderia abranger a totalidade das expressões artísticas, restando válida apenas para museus, livros de História da Arte ou Arte Universal, onde tudo é reduzido a um ponto de partida único, museológico e documental.

As ferramentas de análise estética da Arte, tanto as gastas, tradicionais (um tanto ainda válidas…), quanto as contemporâneas, têm sido elementos fundamentais à construção de um instrumental próprio de análise da produção e conceituação do Design, desde a Bauhaus. No entanto, em que pese esse importante ferramental, faz-se urgente um distanciamento do campo estritamente estético tradicional, a fim de que o Design venha a se constituir, de fato, como área de conhecimento. A arte tem operado esse deslocamento há mais de século; realmente nunca esteve totalmente alheia aos influxos de outras áreas, como a literatura, a filosofia, o empirismo, a psicologia, etc. – quer em sua definição, quer em seus métodos e procedimentos.

É sintomático que se aplique uma leitura Semiótica (por exemplo) a um objeto de Design sem qualquer polêmica, e se julguem “estranhas” ou “estrangeiras” eventuais análises oriundas da sociologia, da hermenêutica simbólica, ou de qualquer outro campo do conhecimento. Enfatizo: o que deixa perplexo é a ausência de polêmica, não a análise Semiótica. Esta tem servido mesmo ultimamente para conversão de disposições subjetivas em consumo, direto ou indireto. Para que não precisemos perder tempo explicando essa obviedade (nem todos a compreendem), extraí um parágrafo de uma pesquisa acerca de caixinhas de leite longa vida, encomendada pela empresa neozelandesa SIG Combibloc2:

De um objeto construído para conter, proteger e transportar um produto, aderem-se à embalagem novos sentidos eminentemente promocionais: capacidade de atração e persuasão. Para a semiótica, que é uma teoria da comunicação fundamentada na produção de sentido dos signos, a embalagem é uma expressão da marca, e nesse sentido, tem a função de transcender os aspectos funcionais e atuar como “comunicadora” da marca, colocando em evidência seus principais valores.

(Se Peirce imaginasse que seus estudos seriam utilizados para esse fim! Às vezes sou obrigado a concordar com a heterodoxia de Baudrillard: “já não consumimos coisas, mas somente signos”…)

Há uma alegação seriíssima de Nietsche que diz “a arte é criada de quarto da Filosofia”. A verdade desta velha afirmação – reprimida pela arte – deveria ser uma glória abertamente reivindicada pelo Design contemporâneo. Porque qualquer área onde se combinem dois elementos torna-se imediatamente instrumento de exploração e geração de lucro na economia capitalista, se não possuir um sistema filosófico que o ampare e o sustente para além do imediatismo da produção (industrial ou científica). Não que isso garanta independência do Design à geração de lucro – isso o Design é ainda incapaz de desejar. Pelo menos, preserva a isenção “científica” ou “profissional”, se preferirem.

Voltando à pergunta etnocêntrica do início, diferentemente como acontece na Arte, a pergunta analisada por Canclini é o estandarte, ou melhor, o “Paládio” que o designer deveria empunhar, penso eu, por ser o Design um campo em disputa, onde os combatentes se dividem em tecnocratas e academicistas versus novos designers interessados em ampliar a profundidade potencial de seu campo e transformá-lo em ciência, filosofia, crítica, etc. O designer deve escolher seu lado: o Paládio era o símbolo da deusa grega da guerra, Palas Atena, deusa também da sabedoria, que realizava a função civilizadora da cultura e das artes…

Notas:

1 CANCLINI, Nestor Garcia. “A socialização da arte: Teoria e prática na América Latina”. São Paulo: Cultrix, 1984.

2 “A embalagem como expressividade marcária: o universo de sentido do leite longa vida” Clotilde Perez. Disponível em http://revistalaticinios.com.br/materias/embalagem-leite.html. Acessado em 26/12/2010.

2 respostas

  1. Excelentes considerações, prof. Gustavot. Creio que a ausência de polêmicas com relação à predominância semiótica se deve à sua inserção, doa a quem doer, na postura pragmatista. Peirce dá um pulo no caixão toda vez que eu falo isso, mas seus sucessores como Charles Morris e Roman Jakobson teriam aplaudido a descrição das caixinhas de leite. De fato o Design é um campo em disputa, mas a guerra foi declarada a pouco tempo… os academicistas ainda não sabem (ou preferem fingir que não sabem) dos jovens rebeldes que, ainda insignificantes em quantidade, estão se armando através do diálogo, arma da qual eles desconhecem. Brindemos, pois, à Palas Atena! Acreditamos no diálogo e, como diria o ivanz, todo modelo requer um anti-modelo – neste caso, a busca pelo conhecimento fora dos enlatados deste design caduco que a academia nos impõe. abraços

  2. maduca disse:

    Oi visite o meu blog de design ecologico, colocarei um link para vocês no tag design research, excelente site, finalmente achei um que fala sobre a filosofia do design.

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