O que o atentado em Paris tem a ver com o desenho, o Design (e Lacan)?

Kamalky Laureano

KAMALKY LAUREANO pintando

A Baltasar convencia-o o desenho, não precisava de explicações, pela razão simples de que não vendo nós a ave por dentro, não sabemos o que a faz voar,  e no entanto ela voa, porquê, por ter a ave forma de ave (…)

JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento, 1992, p. 68

Toda imagem carrega uma ambiguidade que beira a perversão… Slavoj Žižek, em seu famoso documentário, afirma que o cinema é a mais perversa de todas as artes, uma vez que oferece os referentes simbólicos que qualificam os signos de nossa percepção. Toda imagem que reproduz algo possui um pouco disto ao emular artificialmente as coordenadas do real, simulando uma experiência “verdadeira” através de coordenadas virtuais. José Saramago em nossa epígrafe constata essa poder da imagem; com seu estilo plurivocal, o escritor institui magistralmente em seus livros situações anacrônicas na narrativa, manipulando ficcionalmente os dados da “realidade” de modo a evocar profundas experiências no leitor.

A realidade fenomênica, se pudesse ser apreendida tal como é, se mostraria algo caótica, absurda, onde o tempo é um indefinido, o espaço uma abstração sem sentido, e os outros seres monstros intoleráveis… Nossa psique organiza os eventos no tempo e no espaço através de ficções para que se tornem compreensíveis e suportáveis. Por isso um “atentado terrorista” – fato tão corriqueiro no mundo, nos impressiona tanto: é porque foi apresentado como um “corte”, uma fissura na ordem simbólica criada pela dimensão (digamos) civilizacional. Sabemos que a guerra em curso na Síria já dura 4 anos; mas ainda assim nos espantamos com um resultado tão previsível!

KYLE BARNES pintando

KYLE BARNES pintando

O desenho é talvez, dentre as ferramentas de linguagem, uma das mais poderosas estratégias de criação fantasística que orientam a percepção. Foi com seu auxílio que o discurso oficial absolutista se deu historicamente – não por acaso coincidindo com o nascimento da primeira Academia artística do mundo (em Florença, no cinquecento). Foi com o desenho que a Contra-reforma católica submeteu a crença de muitos fiéis protestantes, valendo-se do espantoso realismo da figuração barroca. Foi com o adjutório do desenho que o discurso republicano burguês de “igualdade, liberdade e fraternidade” instilou nos espíritos o ideário da Revolução Francesa no final do XVIII. E enfim, foi através do desenho que esse mesmo discurso retórico começou a ser desestruturado, inicialmente pelo Realismo de Gustave Coubert (e na literatura com o Flaubert de Madame BovaryEducação Sentimental).

O desenho é especialmente capaz de sustentar um discurso, de tecer um comentário articulado sobre o real, criando uma “representação”. Através de uma obra figurativa, posso emitir opiniões e sintetizar uma versão sobre os fatos. Quanto mais realista a obra, mais potente a “ilusão” criada por ela – e consequentemente a crença de que aquela imagem possui uma dimensão real, uma esfera de “verdade”.

A realidade é tão incrível que parece uma ficção

RUBÉN BELLOSO ADORNA desenhando com pastel

RUBÉN BELLOSO ADORNA desenhando com pastel

Representações são, portanto, o suporte das concepções de nosso imaginário, permanentemente mobilizado por meio de um conjunto estruturado no mundo simbólico. Claro que isto se dá com a imagem em geral, sendo o cinema o meio mais eficaz nesse sentido: vendo documentários como Workingmans Death ou Fahrenheit 9-11, compreendemos uma verdade óbvia. Enquanto o primeiro expõe com nível mínimo de edição a barbárie mais crua do capitalismo; o segundo demonstra com extensa documentação que o governo Bush, se não planejou, foi ao menos conivente ao atentado de “11 de Setembro” no World Trade Center, com o qual justificou a invasão ao Iraque e lucrou imensamente. A realidade mostrada nesses documentários imprescindíveis é tão inacreditável, que nos força a recorrer a uma alucinação: a realidade “oficial”. À distância, vemos o absurdo já articulado em um discurso e o compreendemos; porém, se vivêssemos dentro dele (tenda a casa bombardeada em Bagdá, por exemplo), o mesmo fato seria inacessível, e possuiria outra verdade…

No casos destes documentários, não são os temas que nos informam diretamente – e sim a mediação operada pelos diretores. Acontece que é sempre assim… E é sempre com olhos cegos e ouvidos surdos que vemos e ouvimos o óbvio. O mundo inteiro mobilizou-se e reage aos ataques em Paris sem que tenha presenciado a ação, com base em informações estritas de uma ampla articulação midiática, uma “representação” dos fatos. A edição da notícia, desde o design editorial, o levantamento e seleção de informações, a análise do perfil de público (cuja triagem é realizada pelas plataformas de mídia), a fotografia e o recorte das cenas que serão exibidas – tudo está encadeado como num “projeto”: um levantamento estratégico de demandas e gestão que irá orientar as opiniões do público.E nós estamos sempre disponíveis para acreditar.

ELOY MORALES pintando

ELOY MORALES pintando

Camilo Mortágua e Adeus, Lenin!

“– Quando olhei para as nuvens aquela tarde compreendi que a verdade era uma matéria duvidosa que eu podia adaptar ao meio familiar de mamãe”.

 (do filme Adeus, Lenin!)

Queremos colocar as “representações” (imagens, textos, notícias), a “opinião pública” e os “fatos históricos” em paralelo com a tríade lacaniana do simbólico, do imaginário e do Real. Para aprofundar esse paralelo abordemos outra relação, agora entre o livro Camilo Mortágua, do escritor gaúcho Josué Guimarães (1980), e o famoso filme Adeus, Lenin! dirigido pelo alemão Wolfgang Becke (2002).

A forma destas duas obras tem algo de coincidentemente curioso. Em Adeus, Lenin! a mãe do protagonista Alex – uma seguidora fiel do regime stalinista da antiga Alemanha Oriental (RDA) – entra em coma pouco antes da queda do Muro de Berlim, e recupera-se alguns meses depois, em plena abertura econômica – quando então retoma a consciência. Assim como a antiga RDA adaptou-se às novas condições do capitalismo (tendo antes se adaptado ao stalinismo), seu filho procura reconstruir as coordenadas do cotidiano antigo da mãe para que, saída do coma e ainda convalescente, ela não se choque com a mudança radical da realidade política do país.

MICHAEL SIDNEY MOORE pintando

MICHAEL SIDNEY MOORE pintando

No livro Camilo Mortágua, o protagonista é um senhor idoso que pertenceu à aristocracia rural de Porto Alegre, mas já no início da Ditadura Militar encontra-se completamente arruinado – familiar, financeira e moralmente. No primeiro dia do golpe, quando começa o livro, ele vai ao cinema e o que passa na tela inusitadamente é sua própria vida, desde a infância. Emocionado e sem saber explicar o que está ocorrendo, Camilo apenas segue diariamente até o cinema, onde cada dia assiste capítulos de sua história representados só para ele. O “filme” avança até o dia de sua morte, prefigurada na tela momentos antes da sua morte real, dentro da sala do cinema, quando é atingido por uma bala perdida e o livro termina.

Neste dispositivo narrativo genial em que Josué Guimarães constrói uma alegoria quase surrealista, a metáfora de que a vida é um filme, e portanto editável, é concretizada: olhando de fora, retrospectivamente, os acontecimentos de sua existência, Camilo pode perceber onde falhou, o que era real e o que fora apenas sua imaginação.

Ambas as obras apresentam duas perspectivas: 1) o capitalismo é o grande mestre histórico da farsa, capaz de construir grandes discursos e representações (como o “11 de setembro”, e o terrorismo “fabricado” do Estado Islâmico); 2) a realidade em si mesma é uma ficção simbólica onde dispomos os fatos conforme as anamorfoses que nossos desejos nos permitem.

Assim Adeus, Lenin! é um filme duplamente metalinguístico: recria interiormente na película as condições de “ilusão” da própria película “Adeus, Lenin!”, logrando representar precisamente o funcionamento do sistema capitalista, o qual se utiliza de nossa predisposição de crença. Por conta de uma suspensão voluntária da crítica, tomamos as coordenadas editáveis do real como o próprio Real – exemplos icônicos disso são o sensacionalismo jornalístico e as religiões fundamentalistas, ambos sempre em alta.

MIKE DARGAS pintando

MIKE DARGAS pintando

O que sustenta nossa realidade política e econômica é nossa crença em suas ficções: suas instituições, seus preconceitos e valores.

O capitalismo funciona na medida em que está sintonizado à estrutura psíquica; e encontra uma maneira ótima para isso: ele é ao mesmo tempo “absolutista” e “não-totalitário”. Os regimes totalitários (como o Stalinismo russo ou a Ditadura Militar no Brasil) mostraram-se ineficazes, independentemente do que pressupunham ou a que tipo de costumes obrigavam. O capitalismo ensina que eu posso ser socialista, se quiser; mas tenho sempre que “pagar o meu almoço”. Essa condição absolutista não-totalitária é sem dúvida a maior ficção do sistema de consumo porque nos mantém permanentemente na crença de “liberdade”: o capitalismo não parece assim ser uma ideologia, parece ser a própria natureza humana, o ponto de chegada da espécie. Esse sistema voraz e assassino de produção instituiu-se pela força ao longo dos séculos XVIII e XIX (como Weber demonstra em sua brilhante pesquisa), mas é apresentado (e reproduzido) para nós hoje como “único caminho possível”, a verdadeira destinação civilizacional.

O personagem Alex não se sujeita ao real; no lugar de apresentar a “realidade” pura e simples à mãe, resolve criar uma ficção onde paulatinamente os fatos vão sendo revelados – distorcidos, é claro, porque é uma necessidade da mediação moldar os acontecimentos sob a arquitetura ficcional da linguagem. Não há outro caminho: é preciso “alterar” os fatos para que eles pareçam críveis (ou “realistas”). Assim sua mãe assiste em videotapes forjados pelo filho (julgando se tratar do noticiário local da RDA) uma ficção esplêndida: ao invés da derrota do stalinismo no Leste Europeu, vê noticiada a vitória dos alemães socialistas, que resolveram abrir as portas do país aos cidadãos do oeste capitalista por estarem estes descontentes com o universo do consumo. É uma inversão legitima, uma vez que o próprio capitalismo fez exatamente o mesmo, mas no mundo real…

RON MUECK esculpindo

RON MUECK esculpindo

* Neste texto e nos seguintes, continuamos a apresentar alguns esboços para uma interpretação lacaniana da arte.

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