O sorriso de Pandora: ficções de cadáveres adiados

* texto originalmente publicado na edição #49 da Revista abcDesignPinturas de Benjamin Björklund (Suécia) neste post.

Segundo Hesíodo, Zeus teria amaldiçoado os homens, em retaliação pelo furto do fogo, com uma coisa má que lhes alegra, algo que lhes foi dado para que amem a dor que sentem. Trata-se de Pandora, figura mitológica que reaparece no sétimo capítulo de “Memórias póstumas de Brás Cubas” para levar o protagonista a vislumbrar todos os séculos, do início ao fim da existência, como uma história monótona e sem sentido. Machado de Assis se apropria do “delírio”, título do capítulo em questão, como filtro através do qual seu personagem é capaz de enxergar a insignificância vertiginosa por onde a vida se intensifica:

“A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão” (cap. VII, § 28).

É desta perspectiva ficcional que o registro do horror não mais se enquadra em oposição ao da alegria, do amor, da glória etc. Indiferente à dor e ao prazer, o horror aparece indefinido no rosto da Pandora machadiana, cuja materialização ficcional corresponde à da própria existência humana – isto é, tomando a ficção não como mero pretexto para afirmação ou negação do real, mas antes como aquilo que o organiza e nos localiza nele. Sem esta dimensão imaginativa, o horror restringe-se ao sofrimento alheio (morte, tortura, guerra etc.) e ao decorrente medo de tudo e de todos, desconfiança e intolerância ao que é diferente.

Ocorre que o horror do delírio concerne a dois olhos de espanto num rosto sereno, expressão do acaso e da ausência de sentido. Acidentalidade que, distribuída em gotas ao longo da vida, aproxima-nos de certa velocidade que há na lentidão, aquela de um ônibus que nos atropela por andarmos distraídos. De repente existimos; de repente, nem um segundo a mais. E não é curioso como a morte sequer é constatada em nós mesmos, somente nos outros? É que não se trata de morrer, trata-se de propriamente viver sem ao menos chegar a ser o nada que um dia fomos e sem tampouco simplesmente não-ser (existir não é o mesmo que nada).

“Cadáveres adiados que procriam”, dizia Fernando Pessoa, vivendo “nada de novo debaixo do Sol”, como no Eclesiastes. Por um lado, nem pessimismo nem desespero, apenas um delírio que ao mesmo tempo constitui e se deixa velar por nossos sonhos, projetos, causas e paixões. Por outro, não querer ficar na “sala de espera” da vida não significa bater no interruptor do Waking Life e deduzir que tudo não passa de um sonho. Reconhecer o acidente que implica existir pode nos levar a (1) desistir do que somos, a (2) aceitá-lo parcialmente esperando por algo melhor ou, finamente, a (3) assumir que não há nada a perder numa existência que
já se sabe perdida, intensificando o desejo de vivê-la enquanto tal.

Mas o que resta a partir de um delírio que desmorona todos os chãos e consolos? Nada, por certo, só que um nada reconciliado, o solo fundante a que todos retornam e que, sem razão alguma para cada encontro, faz florescer um sorriso de compaixão para com o outro, qualquer que seja este outro. O que dá no mesmo que parar de olhar pela janela um mundo distante, dar sozinho um passo no escuro e não mais esperar que alguém o faça por você – e talvez sentir passos ao seu lado sem tê-los sequer solicitado.

Eis o poder ficcional que se instaura no horror da existência: ao invés de encobrir ou retocar o que de todo modo acontece, ele atua como uma Pandora que nos guia neste primeiro e último observatório no qual contemplamos por um instante nossa própria existência. E se olharmos atentamente o seu rosto delirante, presente mesmo ali onde ninguém quer vê-lo, talvez encontremos nele um “delírio alegre”, aquele das crianças que riem e choram sem saber por quê, cercadas de uma gentil indiferença que ora lhes inquieta ora lhe acalma.

Não significa resignar-se à finitude, lamentá-la ou tentar assumir suas rédeas; o universo nunca esteve à espera de ser aceito ou rejeitado. Entre aderir à vida e contar com sua fatalidade, desejar a segunda opção como se fosse a primeira. Não porque haja na morte qualquer tipo de transcendência e sim porque não há necessidade alguma de viver. É deste modo que o horror é capaz de transformar medo em esperança (Élpis, aquilo que não escapou do jarro proibido de Pandora): como um delirar que se confunde com o alívio de saber que ninguém é especial, nem mesmo por saber e aceitar isso.

Uma entrega à insignificância que, sem nunca superá-la, ainda assim tira dela singularidade, destila força da angústia, exalta virtude das renúncias, desperta desejo de convivência no interior de recalques e disputas mundanas, conjuga potência na falta de necessidade.

Logo de início fomos avisados, sem maiores explicações, de que uma hora tudo acaba. Escolhemos continuar assim mesmo, dia após dia, rezando e duvidando tal como escolhemos um bom perfume para encobrir, não por muito tempo, os incontáveis orifícios que nos encobrem. Corremos, tropeçamos, amamos e seguramos o choro. Para não perder de vista o olhar reconfortante de alguém, de uma divindade.

Uma resposta

  1. Joao Guilherme disse:

    O texto me passou uma sensação sublime, curto mas cheio de referências, será que o sorriso de Pandora seria de terror ou de felicidade? Fiquei a pensar.

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