Os Tempos da Alma e o Tempo do Mundo : A opção pela reconciliação com o real

capa-2Tempo. Noção do encadeamento dos acontecimentos na materialidade do mundo. Intuição que não se permite traduzir em discurso. Presente. O que deixa de ser a cada instante. Passado. O que não é mais. Futuro. O que ainda não é. Vistos em conjunto, passado, presente e futuro não são. Entre o tempo do mundo, cronológico, irrefreável, e a nossa temporalidade própria, decorrência de um atributo psiquico, ora um ou outro nos governa, conforme a possibilidade de haver ou não, discernimento sobre o que pertence ao  mundo ou à idealidade.

Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer (Agostinho. As Confissões. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2001, p. 117 [XX, 26]).

Procura-se aqui tratar de percepções, de um modo geral, e da afetação do humano pelas mesmas, em face de uma variável temporal. A pretensão é buscar o entendimento da dinâmica de apreensão do tempo pelo ser e seus desdobramentos, haja vista o mesmo não representar determinação objetiva da realidade, pela qual a mente é balizada. Um esforço de interpretação semiótica do tempo se impõe, posto que este não é algo subsistente por si próprio, ou inerente às coisas, de maneira a permanecer estruturado, mesmo em condições de abstenção da subjetividade . A proposta que se segue é colocar em foco as circunstâncias nas quais se dão os processos de captura das vivências, pela intuição do individuo, capazes de nortear a sua passagem por um determinado estado de coisas e seus respectivos efeitos.

Em adendo, a compreensão do tempo parece estar conectada inseparavelmente à distinção da sequência de acontecimentos no mundo. Se existe noção de tempo é porque atos e fatos ocorrem no mundo, de modo não simultâneo. O tempo é maneira convencional de prover alguma lógica à série de acontecimentos no mundo. Não se vislumbra como possível, a existência do tempo fora do contexto de sua sintonia com a materialidade do mundo.

Nesse sentido, o tempo é composto de esquemas mentais, a priori, que condicionam o entendimento de tudo o que nos cerca. Dessa forma e a título de exercício, convém supor de que modo viveríamos o transcorrer do tempo, sabedores de que nossa passagem pela vida se resumiria a poucas horas ou, no outro extremo, a séculos. Idêntica constatação se faria para a idéia de espaço, somente a título de reforço do argumento. Assim, parece claro que um inseto vivencia a dimensão espacial que o cerca, de maneira diversa à de um elefante ou à de uma águia, por exemplo.

A abordagem das condutas do Homem também é inevitável aqui. Se tudo o que existe de inexorável na temporalidade é a finitude da matéria, então a melhor maneira de vivermos o transcorrer do tempo do mundo, se insere necessariamente no que é exposto . Ética na impermanência, ética na imanência, por uma trajetória digna de autorreconhecimento, ao final do tempo, em que o tempo tenha passado por todos nós….

clockwork-angels-11A primeira noção da desestruturação da percepção uniforme da passagem do tempo, localiza-se de maneira subjacente à definição do devir em Heráclito. A idéia ininterrupta de “tornar-se”, do “vir a ser”, conduz a uma interpretação sequencial dos acontecimentos, da impermanência. Havendo um seguimento de ocorrências, introduz-se a pessoalidade no entendimento dos mesmos, onde cada um toma para si a seu modo, a noção de tempo decorrido. Sim, tudo flui, nada persiste, nada se mantém, exceto a transformação. Mas é somente no íntimo do individuo, que os preceitos de Heráclito se realizam em uma cronologia personalíssima. As determinações opostas de ser e não ser, do rio onde as águas jamais são as mesmas, do chegar e partir sem cessar, são do âmbito da significação temporal privativa de quem é protagonista em um dado script. A ninguém mais além do individuo afetado pelos atos do mundo, pertence a velocidade de assimilação do que é produzido como resultado em si mesmo.

Estóicos apontam para a ocorrência de dois grandes males, no ato de se abster da vivência, no aqui e agora. Um é o passado. Outro, o futuro. Contrariamente à noção comum de que o passado seria um tempo inexistente no presente, o ato de recordar, por si só, já constitui a presentificação instantânea do que foi trazido de volta à mente. Da mesma forma, a antecipação de qualquer acontecimento do porvir, terá o mesmo efeito. Independentemente da cronologia , rigorosamente tudo o que chega à consciência, vindo do passado ou do futuro, é sentido no instante em que chega e não no momento de onde parte. Assim sendo, como podemos dizer o que o passado e o futuro representam ? Se o passado não é mais e o futuro não é ainda, ambos não possuem realidade material, e somente atuam dentro da idealidade privativa daquele que os resgata.Portanto, não existe nada que aconteça antes ou depois, só o presente é campo factual para as percepções oriundas dos diversos tempos da alma possíveis. E que tempos da alma seriam esses? Por que representariam adversidades, segundo os estóicos? E quais desdobramentos poderiam evidenciar?

utopia1Quando alguém relembra dado episódio , três opções se apresentam como possíveis decorrências afetivas daquele resgate da memória, quais sejam, sentimentos bons, maus ou indiferentes. Podemos reavivar, sempre no presente é claro, sensações boas, ruins ou de indiferença. Quanto à essa última, não produz maiores consequências e, portanto, pode ser descartada aqui. No que tange às impressões boas ou más, trazidas do passado, a abordagem crítica se deve ao fato da manutenção das mesmas em nossa psique, representarem uma via de escape ao que, certamente, é o único momento real de existência. Existe refúgio no tempo feliz de outrora, presentificado, pois o mesmo serve como curativo existencial para o momento triste do aqui e agora. No mesmo sentido, existe refúgio no tempo de erros do passado, evitando-se atacar suas consequências imediatas. Algo como o lamento interminável daquele que não opta pelo enfrentamento do que hoje resulta, a sua conduta de ontem. Um remoer constante, inócuo, desprovido de sentido. Em suma, nostalgia e culpa, alegria e vitimização, trazidos do passado, se prestam a servir de veículos para seguir adiante, na sucessão de instantes que compõe o tempo do mundo.

 Quando alguém antecipa uma vivência, pré ocupa-se do que ainda virá, surgindo também três possibilidades de afeto, no mesmo entendimento anterior de vias de escape do instante presente, em relação ao passado. Como a neutralidade também não produz desdobramentos aqui, nos restam o temor, que advém de uma expectativa negativa do futuro, e a esperança, que decorre de um olhar otimista em direção ao que está além. Ambos detém o potencial de paralisar a ação atual do individuo, identicamente àqueles afetos oriundos da iniciativa de resgatar o tempo decorrido. A esperança possui os atributos da incerteza e da impotência associados a ela, pois nasce, simultaneamente, da dúvida e da incapacidade de se concretizar determinada demanda, no momento mais conveniente a quem deseja. Note-se que aquele que pode agir a seu critério não precisa de esperança, pois não lhe resta dúvida ou incapacidade para atuar. Age quando e conforme lhe satisfaz, acima de qualquer devaneio ou especulação, que lhe mantenha na condição de refém de um futuro incerto. De natureza mais objetiva, o temor se manifesta de modo autoexplicativo aqui. Qualquer criança sabe o que sente, em uma espera de eternos 15 minutos, pela coleta em um exame de sangue. Qualquer adulto sabe da avalanche mental que representa a tentativa de adormecer, em meio a um cenário de instabilidade econômico-financeira, em face de compromissos a quitar.

Nostalgia. Culpa. Esperança. Temor. Quatro estados da alma desfocados da concretude do mundo, evidenciando o desalinhamento entre corpo e mente, no único momento real que se possui e que, desse modo, merece integral atenção. Se prestam a criar mecanismos cíclicos de dispêndio de energia, conduzindo a mente por caminhos ora pavimentados e retilineos, ora esburacados e tortuosos, com um só objetivo : jamais chegar a lugar algum, exceto ao distanciamento do ser em relação a si mesmo. Portanto, há de se transformar essa dinâmica perversa, pelo entendimento do mecanismo criado, sendo essa a premissa para a reconciliação do sujeito com o real.

largeA visão estóica de enfrentamento do cenário acima, parte de uma postura de apatia em relação à tudo o que é externo ao ser. Apatia no sentido de libertar-se o humano de suas paixões, pois as mesmas não passam de erros da razão. Razão que é componente necessário da natureza do Homem e, portanto, elemento de sublimação do prazer e dor. Nesse sentido, as noções de razão e de real convergem na direção da busca pelo momento presente, visando conter o resgate de memórias ou a antecipação da existência. A apatia é caminho estóico para o que eles denominaram ataraxia, condição superior de imperturbabilidade da alma, serenidade permanente, eternização do instante de pacificação interior do ser.

Nietzsche propõe a vida a ser vivida no tempo da vida, como barreira psicológica às idealizações decorrentes dos estados da alma, que julga disfuncionais. O conceito de amor fati enquadra-se na pretensão de abster-se de qualquer elemento que não faça parte do aqui e agora, pois segundo o autor, só existe vida na vida e, fora do todo, entendido como o mundo inteligivel do instante presente, nada permanece.

“A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para a frente, nada para trás, nada por toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar – todo o idealismo é mentira perante o necessário – mas para o amar…” (Nietzsche, F. ECCE HOMO. Covilhã, Ed. Universidade da Beira Interior, 2008, p. 42).


Lamentar menos, esperar menos, amar mais. Libertar-se do passado e do futuro, estabelecendo uma sintonia afetuosa com o momento presente. Vida no mundo, no tempo do mundo. Não idealização.
Reconhecer no instante o campo no qual se vivencia o eterno retorno. 
Entendimentos de Nietzsche e do estoicismo, que se aproximam certamente dfilosofia oriental, ao estabelecer a imperatividade de reconhecer no que você experimenta agora, e em quem está com você neste momento, os afetos mais importantes da imanência, pois são os únicos reais. Nesse sentido, o ato de presentificar-se a todo instante parece ser condição sine qua non de manutenção de uma pretensa lucidez, perante o mundo incontido, impositivo, que emerge novo, e de novo, segundo a segundo, no transcorrer da leitura de cada sílaba; mundo que se mostra no piscar do olho, na inspiração, expiração, sístole, diástole….tic-tac…tic-tac…never more…never more….

nevermore

 

 

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