Para que serve o seu voto ?

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Vivemos tempos de massificação social, nos quais tudo o que é passível de transformação em mercadoria destina-se a preencher, simbolicamente, um repositório de todas as formas de expressão da humanidade. O voto, entendido como a exteriorização da vontade soberana do indivíduo, possui ai o seu lugar cativo, dado o seu valor para a legitimação de um sistema politico, subjacente ao próprio sistema capitalista. Trata-se aqui do chamado “mercado de votos”, espaço conceitual de duração transitória, onde a legitimação da representatividade democrática é negociada entre as partes. Note-se que o fato do citado “mercado de votos” ser naturalmente transitório, não lhe retira a relevância própria do que representa o exercício do voto : a delegação de poder do cidadão a um semelhante, que atuará em seu nome, dotado de grande autonomia relativa, no intuito de pautar grande parte do rumo a ser seguido pelo conjunto de atores sociais. 

Pragmaticamente, nada mais natural de que possuirmos, dentro do coração do capitalismo, um subsistema no qual possamos comprar e vender idéias, projetos, pessoas e, até mesmo, votos. O voto-mercadoria se localiza na prateleira diante daquela na qual se exibe o candidato-mercadoria, dentro do já citado “mercado de votos”. As escolhas mútuas são feitas a partir de critérios que, na maioria das vezes, passam longe do objetivo inicial que originou o sistema eletivo. Na condição de mercadorias, eleitor e candidatos se vendem e são comprados na base de apreciações que incluem favores pessoais, status, boa aparência, cultura, posicionamento em nichos sociais, capital político e relacional. De concreto, todo tipo de indução é colocada em andamento, visando atender demandas de ambos os lados envolvidos na relação política. Quase nunca, o exercício do voto ocorre dentro de uma soberania necessária para a concretização da melhor escolha possível, sabendo-se ainda que existe um filtro, uma barreira de entrada politico-financeira de grande magnitude, impedindo que qualquer um que se pretenda candidato a cargo eletivo, possa concorrer .

O conceito de democracia, construído dentro da noção de participação popular, mostra sua face elitista e pecuniária a cada pleito, nos quais se evidenciam os gastos volumosos em propaganda, marketing, lobbies, infraestrutura e logística, impostas a quem pretende participar do jogo. Nem mesmo algumas regras pontuais como, por exemplo, a proibição de doações empresariais, parecem conter o ímpeto gastador que se impõe a cada campanha eleitoral. Sem falar de projetos de lei como o recente “Fundo de Financiamento da Democracia”, espécie de pirueta jurídica que possibilitará aos partidos arrecadar ainda mais do que já o faziam através das verbas do Fundo Partidário. Ou seja, proíbe-se a captação de apoio empresarial em campanhas para, em compensação, arrebanhar ainda mais dinheiro público para a causa eleitoral. E ainda nem chegamos no ponto em que a atuação dos meios de comunicação entra em cena. Plutocracia é o nome do conjunto da obra. Esfera política onde o eleitor é protagonista e coadjuvante , ao mesmo tempo, sem ao menos se dar conta do espetáculo de ilusionismo ao qual está sendo submetido.

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Por outro lado, não se trata aqui de defender uma alternativa socialista, por motivos já observados historicamente. Naquelas democracias populares, também houve uma utilização abusiva do poder, em suas diferentes formas de apresentação, na tentativa de se obter consenso e adesão em relação às proposições de seus líderes . Basta uma leitura introdutória como, por exemplo, “A Revolução dos Bichos”, de Orwell, para que as ilusões sejam desfeitas. Escrito no início do século XX, sua atemporalidade é capaz de alcançar a Grécia antiga, berço do que se convencionou chamar de democracia, onde o que sempre existiu de fato, foram estruturas de manutenção do poder minoritário. Na Atenas de outrora, elites pensantes se organizaram visando a perpetuação no poder, diante de uma massa iletrada, porém crédula na sua própria capacidade transformadora. Passaram-se mais de dois milênios, e o resultado observado desde então confirma a impossibilidade de se conter a dominação, exercida por uma minoria que age organizadamente, obedecendo a um conjunto de esforços concentrados, diante de uma maioria dispersa em intermináveis anseios e necessidades. Sinergia é tudo, quando a meta é a dominação subliminar, que resultará em manutenção de poder político, premissa necessária para a ratificação do poder econômico.

Diante desse quadro, o que resta aos que somente podem delegar poder à classe politica ? Nos tempos atuais, principalmente em se tratando de Brasil, crença e angústia caminham em passo cadenciado na mesma direção, atuando como contrapesos na manipulação das demandas e expectativas do indivíduo. Os projetos políticos são construídos no sentido estrito de “não matar o paciente”, pois o mesmo desempenha o papel de realimentador do sistema eleitoral quando chamado a se manifestar. E este “modus operandi”, gostemos ou não, serve bem aos propósitos de governos de orientação de esquerda ou de direita. Como visto acima, tudo tem se restringido à manutenção de poder político, tendo como pano de fundo a ampliação do poder econômico decorrente. Um poder político exercido na base de ações de governo realimentadoras de boas expectativas, a fim de manter o eleitor minimamente conectado à consoladora crença de que alguém ainda se ocupa de cumprir consigo, os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral.

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Todavia, crença tem limite. E este limite pode ser a barreira que, ao ser ultrapassada, deságua no fanatismo. O mesmo fanatismo que leva a mais necessidade de crença. E produz-se uma conduta cíclica, tóxica, que resulta em uma caça generalizada às bruxas do mundo político. E , em seguida, outra caça às instituições, que geridas ou orientadas por políticos, também se mostram disfuncionais. Segue-se a busca por um ídolo de barro, salvador do que resta na Polis, pouco importando se esta conduta , por parte da sociedade, representa um retrocesso da mesma em sua jornada de maturação democrática. Some-se a isso, a existência ao nosso redor, de uma grande quantidade de instituições indutoras de condutas fanatizantes. Estas se caracterizam por oferecerem verdades absolutas e preceitos dogmáticos , convidando o indivíduo a um engajamento que visa supervalorizar o relacionamento com outros integrantes do mesmo grupo, gerando uma unicidade de pensamento pouco sadia.

Quem se filia a uma instituição dessas, é levado a sentir-se membro de uma comunidade privilegiada e, sendo assim, superior aos que dela não fazem parte. Geralmente tais grupos atraem adolescentes (de qualquer idade, diga-se de passagem), pelo fato destes estarem em uma etapa existencial de construção identitária, ainda inseguros e procurando soluções para os questionamentos e ansiedades que os tomam por completo. Qualquer que seja ele, o fanatismo funciona como uma droga viciante. É triste constatar que, como passaporte de participação política, é oferecido aos interessados um novo estímulo tão nocivo quanto as drogas nais pesadas. O fanatismo caracteriza-se pelo fato de que, às pessoas, são oferecidas respostas aos seus questionamentos sem que haja necessidade do esforço de pensar e pesquisar, e da dor de não ter certeza a respeito do resultado da reflexão. Acreditar em afirmações categóricas, leva os envolvidos a uma dificuldade de evoluir e de amadurecer, por se privarem de exercitar o contraditório.

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Atualmente, a chamada “democracia representativa” padece de uma enorme descrença, não somente no Brasil. Já não importa se o voto é obrigatório, abstenções ocorrem em proporções semelhantes, seja em lugares onde o ato de votar é um dever ou um direito. Em paralelo, o descrédito com a classe politica não é confrontado pela razão, pois a mesma se perde em meio aos anseios e decepções da maioria desorganizada. São muitas sequelas, em quantidade e tipicidade. Cada cidadão possui suas feridas eleitorais, muitas de difícil cicatrização, e na crise de representatividade atual, lidar com essa diversidade popular parece ser algo inatingível para classe politica. Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de assumir responsabilidades pelas suas escolhas, e se mover pela razão. Ocorre que estes, quando perdidos em meio ao cenário devastado pela desastrosa prática política, voltam a se comportar como meros seguidores dos impulsos da massa, abrindo mão da respectiva capacidade deliberativa. Nesse palco, o embate entre crença e razão não produz vencedores, apenas um passivo político de difícil equalização, diante de uma sociedade fragilizada pela atuação medíocre, e muitas vezes criminosa, de seus agentes.

O que se entende por democracia representativa, há muito tempo deixou de ser instrumento de maximização do gasto publico em atendimento às demandas sociais. Talvez nunca tenha sido, pois o próprio exercício do voto sempre se restringiu a um conjunto de escolhas predeterminadas, em listas de nomes, prontas a delimitar a vontade do eleitor. Listas que passam pelo crivo de partidos e instâncias de poder, que se ocupam de conter eventuais excessos. Principalmente, os excessos democráticos. Dessa maneira, o terreno é fértil para o surgimento de todo tipo de liderança carismática, salvadores pela fé e pela legitimação atávica dos homens de bem. Nesse ponto da jornada, quando a maioria se abstém de decidir sobre o próprio destino, pois são incontáveis, discrepantes, caóticos, e dispersos destinos, o que resta é reconhecer o acerto de Etienne de La Boétie, ao escrever pioneiramente sobre a psicologia das massas, em sua obra “Discurso Sobre a Servidão Voluntaria” : “…Se, portanto, uma nação é , pela força da guerra, obrigada a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela se submeta; devemos antes lamenta-la; ou então, não nos espantarmos nem lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga dias mais felizes…”

 

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