A fragmentação da permanência

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. (…) O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. (…) Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eclesiastes, 1

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Altas são as chances que você já maldisse a geração seguinte; ainda mais altas são as de que você já tenha sido maldito pelas anteriores. Nada de novo debaixo do sol. Pelo menos desde o Iluminismo, acredita-se que estamos a caminho de um mundo melhor, erguido da lama pela razão e ciência para os altos do mundo previsível e verdadeiro. Essa é a premissa do progresso científico, cuja linearidade já foi desmontada há algumas décadas, mas que sobrevive até hoje. Não reclame, há coisas ainda mais totêmicas indo bem.

tumblr_n8dhqoHDaI1qzp5iio1_1280A indignação comum “estamos em 2015 e ainda…” demonstra algo: é muito difícil relativizar as percepções do tempo vivido com a eterna marcha do tempo histórico. Me impressiona que problemas próprios do contemporâneo, da era do Facebook, tenham sido diagnosticados tão antes quanto John Dewey em 1910. E, sabemos de similitudes, pelo menos desde 300 a.C quando Pirro defendia que a alternativa a ser seguida era a suspensão de qualquer premissa de conhecimento.

Muito mais fácil, é culpar, por exemplo, a tecnologia. Assumir como novidade que as pessoas prefiram suas posições de conforto, se reclusem em suas bolhas macaquísticas e caguem regra mundo afora. Para fixar, uma regra de três simples: Dilma está para Brasil assim como o Facebook está para pensamento crítico. No entanto, o problema não parasita um dos fatores das regras de três, mas sim a relação que se estabelece entre todos interesses de várias grandezas, constituindo constelações de corpos cujas gravidades obrigam que orbitem uns aos outros.

Tecnologias não têm agência mas têm programas. E esses programas surgem de nós, das pessoas humanas. Nós, designers, deveríamos saber disso melhor que quase todos; o complexo messiânico tende a turvar a vista. Podemos, no entanto, escolher estarmos submetidos a esses programas em maior ou menor grau. Podemos? Melhor dizer que nos submetemos de diferentes maneiras. E daí não ser surpreendente Zuckerberg manter distância de sua criação.

É oportuno ir para o outro lado do espelho e lidar com o que vamos achar lá. É oportuno correr o risco de se afogar.

tumblr_mj0s84hUe01qj1w61o1_1280Uma das grandes contradições do ser social é o inevitável conflito entre o coletivo e o individual; entre a identidade e a alteridade. Escolha sua arma: marxismo, psicanálise, várias correntes da filosofia, ainda mais da psicologia. Individualmente, a cognição já vem com ferramental para lidar com essas questões: desde diferentes projeções e expectativas à mais profunda empatia. Grande defeito, por outro lado, é que jamais saímos da nossa própria mente. Assim, nunca temos acesso a outrem que não seja através de construções e convenções; o que forçosamente nos faz ter acesso apenas às construções e convenções, nunca a outrem.

Dito isto, me parece compreensível o desespero de sentir que “o universo sensível é (…) um cadáver que amei quando era vida”, como diz Bernardo Soares. O real imanente se impõe sobre nós. Assim, Bernardo se refugia no sonho, nega a vida: “Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação”. Quando se entrelaça o íntimo com o sonho e o real com o Outro, esse eterno conflito se potencializa. E o real, sobretudo hoje – ou desde sempre? –, é quintessencialmente social.

O hipster, que anseia se desprender do real – o socialmente reconhecido –, é quem mais se submete ao culto: por tomar como pressuposto o não-pertencimento, afunda no modo mais legítimo de denegação. Me parece haver uma saída para desconsiderar circunstâncias impostas em favor da circunstância individual: uma espécie de sonho real. É estar invisível aos bilhões de grandes irmãos e irmãs por ser inusável; não inusável por excelência, como a arte, nem inusável por distância, como a filosofia – ambos se tornam usáveis. Mas ser inusável por ser plenamente descartável, vulgar.

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O real se impõe. Mesmo Bernardo que nunca pretendeu ser senão um sonhador reconhece que negá-lo é um “insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem meu teatro íntimo”. Portanto, me parece, o único que pode não estar atado aos compromissos do Outro é aquele capaz de “reconhecer a realidade como uma forma de ilusão e a ilusão como uma forma de realidade, [e saber que isso] é igualmente necessário e inútil”.

Melhor, então, aceitar o real, jogar o jogo? Se for o caso, não há outra lógica senão a da conveniência e qualquer esperança de permanência é ilusão. Apesar de e devido à mesma razão, não há nada de novo debaixo do sol.

Uma resposta

  1. Leonardo Amando disse:

    De fato, nada de novo a partir do “ser sartriano”. Essência de coisa, forma e função em sentido estrito. O que não tem finalidade se presta a quase nada. Mas então, vem o “nada” e descortina infindáveis possibilidades.
    A condenação à condição permanente de liberdade é , felizmente, imperativa.

    “Did i have the dream, or did the dream have me ?”

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