Por que é preciso não enxergar para aprender a ver?

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.
As imagens que ilustram o post são, respectivamente, de Brett WilliamsRenger-Patzsch e Maria Kreyn.

Gosto de pensar que o peixe é quem menos sabe da água em que está submerso. Não que isso seja verdade, vai saber, ao menos acho divertida a imagem do peixe intelectual que discursa sobre a “água”, essa expressão de uma classe privilegiada diante da multidão de peixes que estão mais preocupados em continuar “voando” por aí. E talvez aquele peixe também não se importe muito com tal abstração filosófica, ou quem sabe ele espera encontrá-la num plano superior-divino, ou ainda tal expressão talvez seja apenas o modo como ele tenta enxergar um palmo diante do nariz.

Seja como for, acredito que não enxergar a água pode ser uma boa estratégia para não se afogar, o que para nós, seres humanos, significa que talvez não seja uma boa ideia viver como se a “verdade-em-si” já existisse de antemão lá onde queremos vê-la. Foi o que eu percebi quando aprendi a desenhar: que para representar alguma coisa, é preciso não enxergá-la tal como ela é (ou melhor, me parece ser). Não fosse assim, bastaria eu apontar o dedo e, constatando que as pessoas veem o mesmo que eu vejo, terei concluído minha tarefa. Mas desde o início sou eu quem está em questão, não a coisa (água) que todos veem e por isso mesmo ninguém vê.

Antes da representação de algo, o desenho passa pelo “saber ver”, isto é, pelo re-conhecimento de como algo é visto por quem o pretende representar. E por que representamos o que vemos? Não para “revelar” a água – é preciso não enxergá-la –, mas para não se afogar nela, ou seja, para expressarmos o modo particular como lidamos com aquilo que de uma forma ou de outra a todos acomete: a vida, a morte, nossos desejos, angústias etc. Claro que há outras formas além do desenho para se fazer o mesmo – a literatura, a filosofia, a música etc. Ocorre que minha intenção neste texto é compartilhar minha posição sobre um dilema que, faz tempo, aparece de maneira cada vez mais insidiosa aos designers: é preciso saber desenhar para ser um designer?

Antes de responder a essa questão, contudo, acho necessário passarmos rapidamente por outra: qual o sentido do ensino em geral nos dias de hoje? Ensina-se atualmente para quê? E, sobretudo, por que ensinar desenho? Basta ligar a TV ou acessar a wikipedia para adquirir explicações sobre aquecimento global, a história do Brasil, código genético, grandes filósofos, grandes obras literárias, enfim, uma infinidade de saberes descolados de sua linguagem própria e apresentados dentro de uma lógica de digestão fast-food. Tal dinâmica é tão eficiente que impregna os laços sociais, afrouxa os grandes discursos e flexibiliza aquilo que ainda chamamos de “conhecimento”.

Não por acaso muitos são os críticos que associam as escolas e universidades a uma dimensão de controle social que visa à empregabilidade, ao acúmulo de diplomas, à sociedade do consumo, da produtividade e da competição. De todo modo, não é apenas o ensino do desenho que aparentemente torna-se anacrônico mediante as novas modalidades de aquisição do conhecimento; o que me parece é que, de um modo geral, ninguém mais sabe onde e como empregar o vasto conjunto de saberes que esta ou aquela disciplina acadêmica exige.

Paradoxalmente ou não, creio que é justamente neste contexto que a habilidade do desenho (analogamente às da leitura e da escrita), ao invés de se tornar obsoleta ou descartável, nunca foi tão necessária. Se todas as informações e diretrizes nos são oferecidas pelo google, o difícil é apropriar-se delas, interpretá-las e saber escolher uma dentre infinitas opções. Quer dizer, “saber ver” é imprescindível, e esta é a capacidade que prescreve o desenho. Frente a um oceano de informações e possibilidades, enxergar a “água” torna-se bem diferente, a ponto de ser um verdadeiro empecilho, de “saber ver” o que nela nos interessa.

Desenha-se não para enxergar a água, mas para movimentar-se melhor dentro dela e, em última instância, para não se afogar.

Logo, a finalidade do ensino de desenho não é dar conta do conjunto de saberes/técnicas instituído nesta ou naquela ementa/grade curricular (um vídeo do youtube consegue dar conta disso), mas sim instaurar uma sensibilidade estética em relação à própria vida, portanto uma capacidade de interpretação, uma capacidade de escolha. Sim, de escolha, porque todas as opções já estão dispostas num software gráfico ou num kit de presets, então escolhemos aleatoriamente uma vez que toda opção é válida na mesma medida em que nossa capacidade de escolha não é.

Por isso não tenho dúvidas de que é preciso saber desenhar, sim, para ser um designer. Sobretudo caso o ensino como um todo já tenha decretado sua própria falência ao permanecer ancorado numa lógica curricular reprodutora de certos valores, como o do acúmulo-pelo-acúmulo de conhecimento, necessariamente não escolhidos por aqueles que os ensinam e os aprendem. Porque desenhar é recusar uma “verdade-em-si” que possa haver lá onde queremos vê-la, o que também significa, nas palavras de Kandinsky, “ver no papel o que nunca esteve nele”. E no caso do design, se entendido de maneira ampla como “articulação do olhar”, o desenho mostra-se como forma sui generis de expressão do olhar: aquilo que o peixe não vê e que lhe confere autonomia para expressar-se, isto é, para reinventar o que enxerga com o intuito de atribuir sentido e importância a si e ao mundo em que vive.

.

Stephen Wiltshire drawing NYC

Uma resposta

  1. No Contexto atual em que vivemos, estamos todos afogados sem saber!

Deixe uma resposta


− um = oito