Filosofia do Design? – provocações iniciais

* texto originalmente publicado em Design Simples.

É com grande estima que venho falar um pouco sobre um dos temas de minha dissertação de mestrado: Filosofia do Design. E como sugere o contexto vigente, falar sobre isso de maneira simples.

Para começar, sabemos que o termo “design” pode manifestar tantos significados quanto o termo “filosofia”, sendo ambos muitas vezes adotados sem uma percepção muito clara de suas fontes e consequências. Mais do que isso, poderíamos questionar: será que há filósofos o suficiente para tanta Filosofia? (ou designers para tanto Design?) Se não há uma resposta precisa a essa questão, certamente é porque não estamos em Atenas, uma cidade que tinha apenas 240 mil pessoas, a maioria escravos. No entanto, quando se fala de Filosofia hoje, parece que se trata de algo bem menos ambíguo e indeterminado do que Design.

Por exemplo, “como posso aplicar isso no mercado?” é um questionamento constante nas aulas de Semiótica, História da Arte, Antropologia, etc. Por outro lado e talvez com menos frequência, “como avaliar um projeto de Design?” é um questionamento muitas vezes sem uma resposta precisa nas disciplinas projetuais. Não se pode supor uma resposta a tais questões, afinal não há uma definição clara do que é Design – prova disso é o fato de qualquer publicação sobre Design necessitar, sempre em seu início, a definição daquilo que o autor entende pelo termo (NIEMEYER, 2007. p. 23).

As definições apresentadas podem ser completamente opostas, sendo que, …na maior parte das vezes, os autores não chegam a discutir opiniões – simplesmente partem de um ponto que dão por absoluto (SILVA, 2007. p. 5). É de se notar que toda …área do conhecimento que visa o subjetivo corre sempre um grande perigo de perder o foco pelos corredores científicos (MIZANZUK, 2009. p. 85), pois desencadeia um número de questionamentos muito maior do que uma produção efetivamente relevante. Mas qual seria exatamente a área do conhecimento à qual pertence o Design? Se não há uma definição clara disso, como podemos produzir conhecimento acerca dele (o que justificaria o seu papel na academia)?

…se o Design um dia sonhou em ser absolutamente objetivo e conciso, o projeto deu errado – ou ao menos passou a ser fortemente questionado (op. cit.). Reflexo disso é a constante falta de interesse da maioria dos alunos pela produção acadêmica e, no contexto profissional, a dificuldade de se defender um projeto seguindo uma fundamentação teórica consistente, um método concreto e uma real relevância sociocultural.

Seguindo a pesquisa que tenho desenvolvido, a nossa produção científica / acadêmica / mercadológica tem sido fortemente influenciada pelo pragmatismo. Fundado nos Estados Unidos por William James e Charles Sanders Peirce, o pragmatismo é uma espécie de postura científica que valoriza a consequência, a aplicação, a utilidade e o sentido prático das coisas, sendo a função um dos principais critérios para a verdade (Cf. HESSEN, 2003, p. 39.). A influência pragmatista – a nossa famosa forma que segue a função – pode ser vista nitidamente nas abordagens que envolvem os cursos de design atualmente: design centrado no usuário, psicologia cognitiva aplicada ao design, marketing e empreendedorismo, design think, usabilidade, etc.

Diante disso, desconsiderando por ora os diversos motivos que levaram o Design a uma postura tão pragmatista, podemos levantar alguns questionamentos: se a atuação do Design envolve múltiplas disciplinas, será que não deveríamos, no mínimo, conhecer outras posturas epistemológicas? Aliás, será que o designer sabe o que é epistemologia? O pragmatismo, o empirismo e racionalismo são apenas algumas das posturas epistemológicas – assim, sempre costumo explicar que epistemologia é a ciência dos ismos. Mas quais seriam as nossas verdadeiras origens epistemológicas? Não nos interessa, porém, tentar investigar isso por ora – fato é que o designer raramente se dá conta de seus “cabrestos” pragmatistas e isso já justifica, de imediato, a necessidade de uma Filosofia do Design.

Por fim, nossos questionamentos devem repousar sobre uma última consideração pertinente: a Filosofia não acabou ontem e não acabará hoje, do mesmo modo que o Design não começou hoje e, creio eu, não possui fim nem origem determináveis. Infelizmente, isso revela um nítido abismo entre os dois campos, o que não quer dizer que não podemos tentar uma ponte. Dentre as minhas tentativas, além da minha dissertação, tenho ministrado na UFPR um grupo de estudos sobre Filosofia do Design, o qual mantém algumas discussões em nossa comunidade no Orkut e já gerou um pequeno resultado provisório – um mini-documentário. Enfim, leiam, assistam, questionem, critiquem e divulguem. Pois algo me diz que essa ponte pode nos oferecer, quem sabe um dia, autonomia o suficiente para que essa discussão filosófica finalmente se torne desnecessária (pelo menos para nós).

 

Referências utilizadas:

HESSEN, J. Teoria do Conhecimento. Tradução de J. V. Cuter. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MIZANZUK, I. A. O Conceito do Design na época de sua indeterminação epistemológica. In: Anais do V Congresso Internacional de Pesquisa em Design. Bauru: FAAC – UNESP, 10-12 out. 2009, pp. 84-90.

NIEMEYER, L. Design no Brasil: Origens e instalação. Rio de Janeiro: Editora 2AB, 2007.

SILVA, M. R. P. Por uma teoria do desenho projetual. In: Anais do P&D. Design 2002, I Congresso Internacional de Pesquisa em Design e V Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. Brasília: AEnD-BR, vol. 1, 2002, p. 8, CD-Rom.

Uma resposta

  1. A partir de hoje irei iniciar um árdua – porem gratificante – jornada na tentativa de ler todos artigos a partir deste… rsrsr. Quem sabe podemos fazer um antes e depois do Filosofia do Design.

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