Religião, Trabalho e a Ética dos Predestinados

predestinação dogma da fé católicaDesde o inicio do pensamento sistematizado, o Homem associou a noção de existência virtuosa ao cumprimento de deveres. Portar-se bem, realizando a vontade de Deus, ou Deuses, trazia consigo a expectativa de uma salvação transcendente e, portanto, consoladora, ao individuo. No plano terreno, servir de maneira mais comprometida e fiel possíveis, a uma liderança carismática, ainda que possivelmente tirânica, ampliaria o conjunto de condutas louváveis , autêntico passaporte para uma vida plena no mundo da eternidade. Servir ao rei, por exemplo, em plena Idade Média, significava servir à divindade, pois o mesmo era considerado o representante do Absoluto no mundo material, e mais, seu braço armado, concretizando a potência divina em termos práticos. Todavia, no transcorrer do seculo XIX, em plena Revolução Industrial, a noção de relevância também na dedicação ao trabalho, ganhou peso na percepção que a sociedade passaria a ter dos seus membros, na definição de uma vida moralmente digna de cada um, perante o grupo social considerado.

Max Weber, em sua obra “Ética protestante e o espirito do capitalismo”, aponta para um transição que abrange a passagem de uma legitimação divina do dever individual, para uma legitimação capitalista desse mesmo dever. Introduz-se ai a mudança de enfoque, tendo como alicerce o chamado “Dogma da Predestinação”, com o detalhe relevante da manutenção de uma lógica de obediência a Deus, pavimentada em uma lógica subjacente de obediência ao capital. Dessa forma, ocorre pouca relutância ou desconfiança no fato daquele fiel ou servo, disponível anteriormente para os serviços religiosos, passar a dedicar a maior parte do seu tempo na busca por oportunidades de negócio. O Homem comum não estranha o fato de estar um uma nova circunstância, onde dedica a maior parte do seu tempo à produção de bens e serviços e cada vez menos tempo ao templo. E por que ?

O “dogma da predestinação” molda e valida a nova conduta a partir das seguintes premissas a seguir, conectadas com a estrutura ideológica de uma Igreja Reformada em bases22399_zoom antagônicas àquelas que vigoraram no catolicismo, até o advento da reforma protestante. Segundo a teoria disseminada, as obras, os atos e condutas, realizados pelo Homem, não permitem ao mesmo garantir um lugar no Paraíso. A sua salvação, rumo a uma vida eterna de regozijo, não depende de si, por mais que faça e se empenhe, ou pior, comporte-se como um pária, em meio aos seus semelhantes. O Homem não pode salvar-se a si mesmo, cabendo esse resgate tão somente à providencia divina. A construção teórica tem lógica, há de se reconhecer, pois se o Homem está no mundo da vida, jamais poderia salvar-se de dentro desse mesmo mundo. Portanto, a salvação deverá vir de fora e em via transcendente de mão única.

Diante do exposto, com a ressalva de que cada um não se salvará, nem mesmo com suas melhores obras, conclui-se que a salvação só pode ser gratuita e portanto, isenta de submissões a procedimentos de indulgências afetivas ou comerciais. Estabelece-se uma posição antagônica ao sistema vigente no catolicismo, plenamente sintonizada aos novos tempos que a Revolução Industrial trazia no seu conjunto de características. Não por acaso, o capitalismo se desenvolveu mais rapidamente em países protestantes do que em países católicos, pois o protestantismo permitiu uma conversão harmônica da servidão a Deus para a servidão ao Capital, enquanto o catolicismo se manteve atrelado aos postulados de culpa e submissão à pobreza.

A fundamentação evidenciada no “dogma da predestinação” afirma que não é dado ao Homem conhecer os critérios de Deus para estabelecer os escolhidos. Você já nasce, aleatoriamente, para a salvação ou para a perdição, segundo os critérios estabelecidos, sem que nos seja dado conhecer o porquê da opção da divindade por uns, em detrimento de outros. Logo, se alguém será salvo , esta salvação se dará por uma predileção divina incondicionada, manifestada pelo estado de prosperidade alcançado pela pessoa. Aquela bonança é um sinal da eleição de Deus, pois na lógica Suprema não haveria porque Deus escolher alguém e condenar à penúria, ao fracasso. A prosperidade é um indício da salvação, da mesma forma que o inverso é indício de condenação. Deus condena sua conduta moral, colocando-o em estado de necessidade. Diante desse quadro binário, o indivíduo é compelido a trabalhar de maneira ininterrupta, a fim de agradar a Deus. Se enriquecer, é sinal de que o Mesmo está contente com a sua conduta. Do contrário, a interpretação da repreensão de Deus em relação ao fracassado se traduz em pobreza e indignidade moral. É como se Deus tivesse elaborado você como um ensaio, um protótipo, passível de testes e descarte em caso de falha.

empire-state-building-stavbaMais adiante, com o modelo de crenças estabelecido em torno da busca por sucesso profissional, evidencia-se a contradição. A prosperidade era sintoma da alegria de Deus com o indivíduo, porém o gasto, a fruição, o prazer, eram tidos como condutas pecaminosas. A lógica era a da acumulação como fim em si mesma. O trabalho era uma virtude, a prosperidade era o sintoma dessa virtude, e a salvação era a consagração dessa virtude , porém o consumo , sendo a parte visível do sistema religioso protestante, permanecia como ato indesejado. O discurso moral de acumulação de capital e negação do consumo se converteu em um freio para o desenvolvimento do próprio sistema capitalista. Estabelecido o impasse, como adequar o discurso religioso ao discurso mercadológico, sem ferir de morte a idéia central da ética protestante ? Qual seria a diferença entre esta primeira fase do capitalismo e o mundo contemporâneo ? O capitalismo atual se apropriou do dogma da predestinação de alguma forma ?

Existem mais dúvidas do que respostas. Alguns autores citam a Revolução de 1917, a Grande Depressão de 1929, o New Deal do Pós II Guerra Mundial, os Movimentos Estudantis de Maio de 1968 ou o desenvolvimento da Ciência do Marketing , ao longo do século XX, como catalisadores da mudança de uma postura institucional de acumulação, para uma atitude de gasto e consumo. Assunto para um livro inteiro, o que não é pertinente aqui. O fato é que, nas palavras de Biéler, em sua obra “A força oculta dos protestantes; oportunidade ou ameaça para a sociedade ?”, o mesmo sentencia : “Ora, constata-se que se a ética do trabalho, que domina as sociedades puritanas daquele tempo, é de fato fruto da fé reformada, essa moral jé esta em parte deformada : emancipou-se das raízes religiosas originais para tornar-se um novo ideal profano. E esse ideal tem tendência para erigir-se num absoluto, independente de toda a referência à fé que o gerou. Tornou-se ideologia independente”.

De fato, basta olhar para o tom do discurso pastoral generalizado e para o ambiente estético, no qual florescem os templos de culto, para constatar a existência de uma doutrina neopentecostal vigente, onde a virtude é associada à fé, prosperidade e consumo, de maneira ostensiva, visando consolar e, principalmente, manter viva a esperança de um exército de excluidos, diante de um modelo disfuncional de organização ético-religiosa.

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