«Repensando o modernismo, revisando o funcionalismo» de Katherine McCoy

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Durante o processo de pesquisa para o artigo Alternativas epistemológicas para o design da informação: a forma enquanto conteúdo, publicado recentemente na revista Infodesign, pareceu-me que algumas discussões sobre a mera presença do designer que ainda hoje circulam no Brasil estão bem datadas. Encontramos algumas pesquisas daqui sobre o assunto – das quais destacaria as de Iara Camargo e Lúcia Weymar –, mas poucos textos traduzidos para português que levassem a discussão adiante, sobretudo diante do panorama internacional (sobre isso, o Teoria do Design Gráfico é uma das poucas publicações). Acredito que publicações como Design Studies, Looking Closer, Eye Magazine, Modes of Criticism e grupos de pesquisa como i2ads são ótimos referenciais.

Aproveitando o ensejo do artigo, traduzi dois textos de Katherine McCoy: Rethinking modernism, revising functionalism, da Looking Closer: Critical Writings on Graphic Design (vol. 1) de 1994, mas originalmente publicado como How I Lost My Faith in Rational Functionalism no AIGA Journal of Graphic Design em 1990; e Professional Design Education: An Opinion and a Proposal,  publicado no volume 7, número 1 da revista Design Issues, de 1990. A idade dos textos põe em perspectiva que, se hoje parece necessário repensar inúmeros aspectos da teoria, ensino e prática de Design, isso está longe de ser novidade. Apenas incrementa-se a dificuldade no cenário atual: contra a imposição das estruturas vigentes, imagino que seja necessário multiplicar e pluralizar alternativas, permitindo entrever realidades imagináveis em vez de destinos previstos.

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Para deixar seguir o primeiro dos textos, menciono também o projeto gráfico que fiz com Gabriela Araujo para eles, que ilustram o post. Em consideração à defesa de sua dissertação em 31 de agosto, O design na construção do livro: A Coleção Particular da Cosac Naify, essa pequena publicação foi concebida como um modo de agradecer ao Departamento de Design da UFPE pela formação profissional e acadêmica na graduação e no mestrado. Conforme foi defendido na dissertação, o projeto gráfico articula significados do texto na forma do próprio artefato.

Repensando o modernismo, revisando o funcionalismo

Katherine McCoy

Quando penso sobre as tendências que configuram minha prática de design gráfico, eu penso em ideias sobre linguagem e forma. Ideias sobre codificar e ler formas visuais, sobre desafiar o espectador a construir interpretações individuais, sobre camadas de forma e camadas de significado. Essas estão adiante em minha mente, mas atrás disso estão dispostos outras questões mais profundas e antigas que se estendem até os meus primeiros anos de design. Talvez essas possam ser chamadas de uma filosofia ou uma ética, um conjunto pessoal de valores e critérios, um fio que perpassa uma vida de trabalho e sustenta seu rigor, a continuidade em ciclos de mudança.

IMG_6625-2A graduação em design industrial foi um período muito idealístico. A forte ênfase em resolução de problemas e forma-segue-funcionalismo ressoou com minha abordagem pessoal frente às oportunidades e problemas da vida cotidiana. Como caloura, eu abracei energicamente o racionalismo da Coleção Permanente de Design do Museum of Modern Art, abandonando o território imprecisamente intuitivo das belas artes. Essa ética um tanto vaga do modernismo do centroeste americano tinha suas raízes na Bauhaus, e nosso grupo de estudantes adquiriu um entendimento desbotado de sua aplicação pela Escola de Ulm da Alemanha. Além disso, havia a reverência aos tinos de George Nelson, Marshall McLuhan e Buckminster Fuller. Olhando para trás, eu continuo a apreciar as bases construídas por esses anos de treinamento em design industrial. Naquele tempo, no meio dos anos 60, mesmo o melhor ensino americano de design gráfico não ia muito mais longe do que um intuitivo método “ah ha” de conceitualizar das soluções de design e uma emulação dos mestres de design do momento.

Essa fé no funcionalismo racional (e não um portfolio bem-acabado) me deu meu primeiro trabalho, na Unimark International, então a missionária americana do modernismo europeu, a herdeira gráfica da Bauhaus. Lá eu tive a oportunidade de aprender design gráfico com suíços “de verdade” e recebi comentários sobre meu trabalho principiante de design de Massimo Vignelli, o maior missionário de todos, o mestre da Helvetica e do grid. Nossa ética sempre foi de disciplina, claridade e limpeza. A maior honra para um trabalho de design gráfico era: “Isso está realmente clean”. Nós víamos como se estivéssemos varrendo a desordem e a confusão da publicidade americana afora, com uma racionalidade e objetividade profissionais que definiriam um novo design americano. Essa abordagem era bastante estranha para os clientes americanos, e em 1968 era particularmente difícil convencer as empresas que uma página ordenada pelo grid com apenas dois pesos de Helvetica eram apropriados para suas necessidades. Agora, claro, dificilmente alguém consegue convencê-las de desapegar do “suíço”, de tanto que o mundo corporativo abraçou-se com o modernismo racionalista no design gráfico.

Mas depois de alguns anos de empenho para projetar tão “puramente” quanto possível, operando com um vocabulário tipográfico minimalista, estruturas de página rigidamente compostas e contrastes em escala para interesse visual, eu passei a ver esse desejo por “limpeza” como não muito mais do que housekeeping[1]. Vários de nós, principalmente designers gráficos do método “suíço”, começaram a procurar por um design mais expressivo, correspondendo a um movimento similar na arquitetura, agora conhecido como Pós-modernismo. Eventualmente, o que veio a ser chamado “New Wave”, por falta de um termo melhor, surgiu nos anos 70 como um modo diferente de praticar design gráfico. Isso incluía a nova permissão para operar com elementos históricos e vernaculares, coisa proibida pelo modernismo “suíço”. Então, em meados dos anos 80 em Cranbrook, nós encontramos um novo interesse pela linguagem verbal em design gráfico, assim como em belas artes. O texto pode ser articulado com vozes e imagens podem ser lidas, bem como vistas, com ênfase na participação e interpretação do espectador na construção de significado. Mas agora, à medida que os ciclos de mudança continuam, o modernismo pode estar ressurgindo de algum modo, um minimalismo renovado que está acalmando o surto visual dos últimos quinze anos da atividade.

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Ao longo desses anos de mudança contínua e possibilidades inéditas, onde está disposta a ética? A ideia de ética implica algum tipo de alicerce inabalável impassível aos ventos de mudança? Para mim, parece haver um hábito de funcionalismo que configura meu processo no começo de todo projeto, a análise racional da mensagem e do público, a estruturação objetiva do texto. Cada diclo de mudança durante esses anos parecem ter adicionado outra camada visual ou conceitual disposta sobre aquela base do funcionalismo, mas, dentro de cada projeto, está sempre lá. Embora essa ênfase no racionalismo possa parecer incompatível com as experimentações recentes em Cranbrook, na verdade ela tem sido a provocação para questionar normas aceitas no design gráfico, estimulando a busca de novas teorias de comunicação e linguagens visuais. Eu nunca perdi minha fé no funcionalismo racional, apesar de parecer o contrário. A única coisa perdida foi uma dedicação absoluta à forma minimalista, que é uma questão completamente diferente do processo racionalista.

Parte dessa ética é uma forte convicção e entusiasmo de que design é importante, que importa na vida, não apenas na minha, mas nas de nosso público e usuários de projetos de comunicação. Design gráfico pode ser uma contribuição para o público. Ele pode enriquecer à medida que informa e comunica. E há fé não apenas na possibilidade, mas na necessidade de avanço e crescimento no nosso campo, um imperativo por mudança. Porque apenas pela mudança nós podemos nos obstinar em conhecimento e expertise, teoria e expressão, construindo firmemente nosso saber coletivo do processo de comunicação. Essas convicções foram formadas e me sustentam hoje.


[1] Literalmente, traduzido como “tarefas domésticas”. Provavelmente, a autora se refere à acepção de computação, que consiste em, segundo o Dictionary.com, “tarefas do sistema […] que precisam ser feitas a fim de permitir que o programa execute propriamente, mas que não contribui diretamente para o resultado do programa”.

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