Sobre o Charlie Hebdo

* Este texto é uma contribuição de Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio – professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação.

O atentado contra o Charlie Hebdo foi simbólico não por ter sido contra um país europeu (outros já aconteceram, na França mesmo); tampouco pelo número de vítimas (bem reduzido, na verdade desprezível em comparação, por exemplo, ao atentado contra o World Trade Center); também não foi uma vingança feita por patriotas oprimidos do Terceiro Mundo contra colonialistas bancos opressores, como certa crítica, à esquerda, parece querer ver (para ser assim,  os terroristas deveriam ter implodido o Eliseu, ou matado o presidente francês). Também não foi um crime causado por diferenças religiosas, ainda que a religião esteja na base das explicações do atentado. Rigorosamente, atentados por diferenças religiosas são, por exemplo, os que ocorrem na África, pelas mãos do Boko Haram, que gosta de matar cristãos, e nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico no Oriente próximo, que faz o mesmo e é especialmente devotado a exterminar todos os que não sejam muçulmanos sunitas. O atentado em Paris não foi uma cena de guerra entre duas religiões,  mas entre dois aspectos de duas concepções de mundo, uma delas não sendo, definitivamente, uma fé no sentido da convicção em uma base transcendente para seus juízos de valor.

De um lado, temos  fanáticos islâmicos ofendidos até a raiz dos cabelos.  Do outro, cartunistas para quem ficar assim ofendido é um erro, além de ser ridículo. Para os cartunistas do Charlie, não há nenhuma idéia absolutamente sagrada, nada que não possa ser objeto de sátira, sendo justamente a pretensão de certos discursos de estarem acima da crítica ou do enxovalho o critério preferido para se decidir o que deve ser satirizado.

Essa pretensão é tomada imediatamente por alvo porque um aspecto importante do pensamento do Ocidente se constituiu, lentamente e com força a partir do final do século 19, no sentido de duvidar de qualquer discurso de autoridade que pretendesse encerrar o debate. Isso vem de longe, desde ao menos os  gregos, com seus sofistas e céticos, mas encontrou na França de Descartes (com sua dúvida metódica),  do Iluminismo (basta lembrarmos de Diderot e de Sade), do chamado “desconstrucionismo” (com Derrida, por exemplo) e de toda a filosofia da imanência (cujo exemplo mais bem acabado é Deleuze), um habitat perfeito. A partir da era moderna, a Europa entrou em um processo de dessacralização que pode tomar como epítome o espírito de uma publicação como o Charlie Hebdo: ateu, anticlerical, anti-metafísico, materialista. É todo o contrário o que vemos no caso da cultura muçulmana.

Curiosamente, durante certo tempo na Idade Média, enquanto cristãos matavam-se mutuamente quando não estavam ocupados em matar judeus, o Islã trouxe contribuições importantes para o pensamento e para a cultura da tolerância, na época em que as três religiões monoteístas existiram juntas na Espanha. Mas não apenas lá: se Córdoba teve Averróis, que  defendia uma interpretação alegórica do Corão, a Pérsia teve Avicena, que tentou a síntese platônico-aristotélica. Mais que isso, foram os muçulmanos, ironicamente, que traduziram para o árabe textos de Aristóteles e de outros filósofos, incorporando as ideias dos gregos à sua própria maneira de fazer Filosofia, que ele chamavam de Falsafa. Ou seja, o processo de laicização pelo qual a Europa passou parece ter se invertido ou recuado no tocante ao mundo islâmico: a radicalização fundamentalista é uma realidade óbvia, de que dá provas não apenas a sequência de atentados contra alvos ocidentais ou não-muçulmanos, mas também o crescente apelo por governos guiados pela sharia no lugar de constituições de molde secular (quem apostou que a primavera árabe fosse um anseio por mais liberdades ao modo ocidental, se enganou). O que vemos, ao contrário, é o fortalecimento de partidos religiosos que se opõem a regimes laicos, alguns sabidamente corruptos ou tirânicos, fazendo com que se conceba um Estado fundado na lei religiosa como moralmente superior ao que se conhece e que é, quase sempre, herdeiro das instituições deixadas pelo colonizador.

Porém, a tendência em ver no terrorismo islâmico, antes de tudo, uma vingança ou reação de povos oprimidos é, curiosamente, uma das características de certo pensamento da esquerda do Ocidente e, nele, da extrema esquerda: herdeira dos discursos das Luzes na vertente rousseauniana e de um pensamento libertário nascido do marxismo, ela muitas vezes concebe a ação dos homens no mundo como “mecanismo”, como figuração de uma “lógica de robôs”. Ou seja,  o homem-bomba faz o que faz por conta das condições imediatas de sua existência,  no caso,  a experiência da opressão (mesmo a colonização tendo terminado há no mínimo trinta anos). Se os cartunistas foram mortos, diz esse discurso, é preciso compreender antes os motivos que levaram os assassinos (e essa esquerda por vezes vai chamá-los de heróis ou de revolucionários) a agirem como agiram. Em suma, a ação dos terroristas é explicada por um mecanismo que os exime – e esse é o ponto principal – de responsabilidade direta, ou seja, sua ação é resultado de fatores que os obrigaram a agir assim,  sobredeterminados por exigências da História. O problema desse argumento é duplo: primeiro, funciona apenas para um lado, pois não se pensa que os cartunistas também agiram a partir de determinações sociais e políticas que poderiam eximi-los da responsabilidade pelos desenhos, considerados ofensivos. Ao contrário, eles são criticados por não terem compreendido a situação, por terem sido insensíveis diante das idiossincrasias e das crenças
dos outros. Mas aos extremistas não se coloca a questão da responsabilidade e do juízo autônomo que é colocada aos cartunistas. Eles não são condenados por desrespeitarem a vida dos outros a ponto de exterminá-los. Daqui surge o segundo problema desse argumento: não exigir, ou não levar em conta na discussão, a responsabilidade moral dos extremistas é,  novamente, de modo tipicamente ocidental (o que não deixa de ser irônico)  lançá-los à menoridade e à heteronomia. Dizemos, ao pensar assim, que os assassinos não são capazes de evitar serem assassinos, que são inocentes no sentido de serem frutos de uma condição que os levou a isso e, portanto, devem ser compreendidos, pois agiram de acordo com forças históricas. Eis aqui  a origem dos “mas” e “entretantos” nas frases dos que condenaram os ataques sem deixar de colocar atenuantes na sequência de seus argumentos. Ora, desse modo, colonizamos novamente o outro ao afirmar que a exigência de responsabilidade moral cabe apenas a um dos lados da relação, o do “ocidental esclarecido”. Tal pretensão pode, e ao final é isso o que acontece, impedir que o radicalismo, e nesse caso o radicalismo islâmico, encontre um opositor capaz de fazê-lo pensar sobre si mesmo,  e não apenas contra as teses que ele despreza. Por isso considero o atentado de Paris simbólico de uma maneira bastante especial: ele não foi dirigido contra a extrema-direita xenófoba que leva ao limite a idéia, de fato disseminada na Europa ocidental, de que há imigrantes demais. Na verdade, isso se explica por serem, tanto os fundamentalistas islâmicos quanto os fundamentalistas da direita, no fundo, iguais em natureza. Eles combatem com as mesmas armas, e não é difícil imaginar que veremos ações violentas contra alvos muçulmanos, a partir de agora. O atentado foi, ao contrário, dirigido contra os que representam o “inteiramente outro” dos fanáticos: um grupo de desenhistas, pândegos, irreverentes, que jamais considerariam levar a sério os argumentos dos extremistas, sejam do tipo que forem. Porque, por definição, há para o fundamentalista algo de firme e absoluto na base de suas crenças, um  fundamento inquestionável, em dois sentidos da palavra. No primeiro, como verdade e certeza que se apresentam aos que nelas acreditam, e que não PODE ser questionada (no sentido de não haver meios de questioná-la). No segundo, o inquestionável passa a ser o que Não deve ser questionado, no sentido de ser anátema qualquer tentativa de pôr em dúvida a certeza fundamental (de fato, uma vez movida tal certeza, o edifício todo desaba). Ora, se o fundamentalista é um crente, é também um inseguro: sua fé, aparentemente tão forte, não aceita ser satirizada ou questionada, o que indica não apenas que ela é passível de ser posta em questão pelo ridículo, mas que de fato o foi, por conta mesmo de sua reação – e o
inquestionável, com seus “não pode” e “não deve”, deixa de existir. Assim, os cartunistas do Charlie, ao não respeitarem as fraquezas da fé e as suscetibilidades de uma convicção, encarnam o que de pior existe na cultura do Ocidente para o radical (religioso ou político). Como já foi dito, as tradições filosófica, literária e mesmo política da Europa foram marcadas, desde seus inícios (e a ferro e sangue) pela disputa e pela dúvida. A história da Filosofia, por exemplo, é a história da luta entre discursos diferentes ou opostos acerca do homem e do mundo. Uma dúvida que foi compartilhada pelo Islã em certos momentos de sua história, justamente o que permitiu a convivência de diferentes credos no seio da sociedade muçulmana. No entanto, a radicalização do secularismo e do ceticismo ocorrida no mundo ocidental, com o fim, ou ao menos o enfraquecimento generalizado das “meta-narrativas” (ou, em outras palavras, das “explicações-de-tudo” oferecidas pelo discurso religioso ou político), causou a reação encontrada na ação de radicais como os do Exército Islâmico, do Boko Haram ou da Al Qaeda. Da mesma maneira,  o discurso e a fé milenaristas de um sentido da História encontraram guarida nos movimentos de extrema-esquerda, eles também adeptos de uma concepção fundamentalista do homem e do mundo, capaz de ser explicada com o apelo não a uma verdade revelada, mas a uma teoria  que quase equivale a ela, devido suas pretensões de esgotar em si o real.

O Ocidente desencantado dá aos radicais, ansiosos por uma justificativa para suas vidas, apenas a imagem do cinismo e do desespero: nada além desse mundo precário e dessa existência dolorosa. Pura imanência, nenhuma transcendência. Mas tudo o que um fanático metafísico-religioso-político não quer ver é isso, a gratuidade do mundo e da vida, e a angústia da liberdade. O que acaba por nos apresentar, curiosamente, a um outro fundamentalismo, que explica, afinal, o porquê de ter sido tão simbólico o crime contra o Charlie Hebdo: desprovido de certezas e da esperança por certezas, instaura-se como fundamento o princípio de que ninguém pode querer fazer das suas as certezas de todos, e que tudo é matéria de contestação. Entre chorar devido à perda do sentido transcendente da História, ou rir da patética condição do homem no mundo, os jornalistas
do Charlie decidiram gargalhar e irritar aqueles que pretendessem possuir um discurso inalcançável pela crítica. Esse princípio é “nosso” fundamentalismo, mesmo sem percebê-lo:  não há nada que não possa ser questionado, nada que não possa ser satirizado, porque nenhuma ideia ou ação humanas estão a salvo do ridículo. Assim, não se impeça ninguém de falar o que pensa – mesmo os idiotas – mas se impeça qualquer um de impedir que isso aconteça. A sanção sobre o que se diz deve vir somente a posteriori, e jamais poderá custar a vida de quem fala. Sendo a vida a única coisa que temos de nosso, ela não pode ser destruída por conta de nossas ideias. As ideias, sim, podem ser questionadas, condenadas ou então ignoradas (o que equivale a morte para uma ideia): mas nós não somos nossas idéias, pelo simples motivo de podermos deixar de tê-las.

E essas, para mim, são boas razões para sermos Charlie.

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