Posts taggeados com ‘acontecimento’

Da repetição no olhar que se desprende

* aquarelas de Henrik Uldalen ilustram o post.

I. Revendo as mesmas anotações

Desvios ocasionados pela segunda lei da termodinâmica não são verificáveis, pois os instrumentos de medida estão sujeitos aos mesmos desvios das coisas que eles buscam medir. – Paul Feyerabend, Contra o método (São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 350).

Mais do que mostrar o aspecto inferencial de certas leis da física, o enunciado acima é um modo de falar sobre a arbitrariedade patente de toda ordem, sentido, razão que atribuímos ao que é mera casualidade – como a repetição genérica de nossos momentos de alegria ou de tristeza. O que por vezes não nos damos conta é que esses sentidos arbitrários são fatores que intensificam a repetição indiferenciada da vida cotidiana, capazes mesmo de “fabricar” diferenças significativas nos momentos que se repetem. Leia mais…»

Gestaltungsaufgabe ou de como não esgotar aquilo que é só isso

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O verbo alemão aufgeben, do qual provém o substantivo Aufgabe, significa “entregar”, no duplo sentido do termo: “dar” (geben) algo a alguém para que cuide disso – por exemplo, entregar uma carta ao correio –, mas também “presentear” alguém, abrindo mão da posse do objeto – por exemplo, entregar uma cidade ao inimigo. A segunda acepção é mais forte no uso intransitivo do verbo: ich gebe auf – renunciar, desistir, entregar-se. Essa ambivalência está presente no substantivo Aufgabe, entendido como “proposta”, “tarefa”, “problema a ser resolvido”, mas no qual ressoam também, e de maneira muito peculiar, as ideias de renúncia, rendição e desistência. Leia mais…»

Orações ao alcance de um duvidar a céu aberto

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol? Geração vai, e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar onde nasce de novo. [...] Já não há lembranças das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas. – Eclesiastes, 1:3-11, Antigo Testamento da Bíblia judaico-cristã.

De minha infância ecoa aquele refrão pop sobre a “arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê”. Acho que não-saber-em-quê é o que sustenta qualquer fé, este lugar em que tanta gente passa os dias esperando para sair dele. E acho que não há para onde ir simplesmente porque já estamos desde sempre “indo”. Se somos isto, é porque nunca o fomos; se fomos aquilo, é porque já não o somos. Seremos reis desde que renunciemos a sê-lo, dizia algum poeta. Pouco me importa o que está muito adiante e que requer grande esforço. Pouco me importa o próximo passo, o próximo projeto, no fim chegamos sempre ao fim. Resta-nos continuar questionando como seria possível abdicar sem desistir, transformar indiferença em altivez. »

Um projetar que não se vê lá onde ele acontece

* texto originalmente publicado na revista Leaf #3, lançada na 10ª Bienal ADG 2013. As imagens que ilustram o texto são pinturas do artista Andy Denzler.

Não parece haver muito sentido no fato de que, com a virada do modelo geocêntrico (Terra como centro do universo) ao modelo heliocêntrico (Sol como centro do universo), passamos a exaltar a razão humana em função de um projeto de “progresso”. Ora, de repente nos tornamos um grão de pó insignificante em meio a todo um universo desconhecido!

Acontece que saber disso fez toda a diferença. Tanto é que os grandes projetos arquiteturais datam da Renascença cultural: expansão metropolitana, planejamento urbano e cidades que durariam “para sempre” como reações ao reconhecimento de nossa insignificância. Leia mais…»

“Fim do fim da história”, por Juremir Machado da Silva

Após os textos “Debord e o Hiper-espetáculo” e “Uma breve sociologia do imposto”, gostaria de compartilhar com vocês mais um ótimo artigo do professor Juremir Machado da Silva¹. Publicado na revista Verso e Reverso (Brasília: Unisinos, n. 37, 2003, p. 9-14), o texto abaixo parte do pressuposto de que o 11 de setembro não aconteceu para demonstrar um recurso midiático do “exagero factual”. A partir disso, acho interessante pensarmos em todo enaltecimento em torno da recente morte de Steve Jobs – mais um “fantasma” de um final comovente, mais um conto de fadas tão nostálgico quanto previsível.

“O 11 de Setembro não aconteceu”

Resumo: O 11 de Setembro de 2001 continua sendo uma incógnita para todos os seus analistas. Este texto examina, dentro do espaço teórico de reflexão estabelecido pelas obras de Jean Baudrillard sobre o assunto, as conseqüências “imaginárias” desse “acontecimento” e pergunta-se: excesso de previsão ou deficiência de imagem? Leia mais…»