Posts taggeados com ‘alegria’

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Rir de si: brasilidade como potência de não se levar a sério

* texto originalmente publicado na edição 47 da revista abcDesign.

Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado, porque a noção de identidade nacional é advento recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o Estado-nação como principal modelo de organização social. De outro, porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (Espaço e tempo, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”. Leia mais…»

Alegria e design para além da felicidade

* texto originalmente publicado na edição 43 da revista abcDesign.

Qual é o segredo da felicidade? “Um pouco de perseverança, amizade e autoestima” seria uma resposta tão previsível quanto desgastada, repetida não somente nos programas vespertinos da TV, mas também em obras de autores de renome. Entretanto, se essa pergunta permanece sendo tão importante para as pessoas, resta-nos, enquanto designers, questionar o que afinal significa felicidade atualmente e de que maneira o design lida (ou poderia lidar) com tal concepção.

Em primeiro lugar, o fato de que todo mundo evita sofrer sempre que possível não significa que a busca por felicidade seja inerente à natureza humana. A não ser que felicidade seja, para algumas pessoas, sinônimo de sofrimento – como para fulano que aceita um cargo insuportável em troca de um salário mais alto, ou para beltrana que prefere continuar sendo mal tratada ao invés de acabar o namoro ou o casamento. Também não significa, por outro lado, que a busca por felicidade seja um erro ou uma bobeira – boa parte de nossa cultura e sociedade tem girado em torno dessa “bobeira”. Leia mais…»