Posts taggeados com ‘alienação’

Para que serve o seu voto ?

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Vivemos tempos de massificação social, nos quais tudo o que é passível de transformação em mercadoria destina-se a preencher, simbolicamente, um repositório de todas as formas de expressão da humanidade. O voto, entendido como a exteriorização da vontade soberana do indivíduo, possui ai o seu lugar cativo, dado o seu valor para a legitimação de um sistema politico, subjacente ao próprio sistema capitalista. Trata-se aqui do chamado “mercado de votos”, espaço conceitual de duração transitória, onde a legitimação da representatividade democrática é negociada entre as partes. Note-se que o fato do citado “mercado de votos” ser naturalmente transitório, não lhe retira a relevância própria do que representa o exercício do voto : a delegação de poder do cidadão a um semelhante, que atuará em seu nome, dotado de grande autonomia relativa, no intuito de pautar grande parte do rumo a ser seguido pelo conjunto de atores sociais.  Leia mais…

Religião, Trabalho e a Ética dos Predestinados

predestinação dogma da fé católicaDesde o inicio do pensamento sistematizado, o Homem associou a noção de existência virtuosa ao cumprimento de deveres. Portar-se bem, realizando a vontade de Deus, ou Deuses, trazia consigo a expectativa de uma salvação transcendente e, portanto, consoladora, ao individuo. No plano terreno, servir de maneira mais comprometida e fiel possíveis, a uma liderança carismática, ainda que possivelmente tirânica, ampliaria o conjunto de condutas louváveis , autêntico passaporte para uma vida plena no mundo da eternidade. Servir ao rei, por exemplo, em plena Idade Média, significava servir à divindade, pois o mesmo era considerado o representante do Absoluto no mundo material, e mais, seu braço armado, concretizando a potência divina em termos práticos. Todavia, no transcorrer do seculo XIX, em plena Revolução Industrial, a noção de relevância também na dedicação ao trabalho, ganhou peso na percepção que a sociedade passaria a ter dos seus membros, na definição de uma vida moralmente digna de cada um, perante o grupo social considerado. Leia mais…

O artista, o belo e a arte : modelagem, mutabilidade e mercado

venus-de-willendorfHouve um tempo em que poderiamos considerar a beleza como produto da observação empírica dos elementos da natureza. Toda obra de arte , traduzida como manifestação sensível do Homem, seria necessariamente limitada a buscar reproduzir o que chega empiricamente ao mesmo. O artista seria então mero executor daquilo que já estaria pronto e acabado, mediante uma ordem cósmica estabelecida previamente, em um estado universal de simetria e harmonia das formas. O belo seria a materialização da perfeita adequação da habilidade do artista, ao mundo que o cerca. De outra forma, Platão restringia o alcance do conceito de arte, pois a idéia de verdadeira arte seria inatingível no plano material, posto que a mesma somente poderia ser apreciada no mundo das idéias. Segundo ele, o sentido do belo transcende o que os sentidos percebem, devido ao caráter precário e imperfectivel destes. Somente a razão superior , acessada pela alma, poderia apreciar o que é a beleza atemporal e absoluta, imutável ao longo dos tempos. Para o pensador, quanto maior a interferência do artista no que a natureza apresenta, maior a deformação, maior a distância entre a idéia perfeita do que é observado e a sua vã tentativa de dar sentido ao que deve ser atingido, como verdade, na transcendência. Leia mais…

Publicidade e Infância : A Precoce Ruptura Ético-Moral

1_manifesta____o___foto_walax_louren__o-1471218O modo de vida contemporâneo , pautado em forte viés neoliberal, contém relevantes aspectos do discurso pragmático, originado em Maquiavel. Para o senso comum vigente, se existe alguma razão para se refletir sobre a condição do individuo nos dias atuais, esta passa necessariamente pela melhor maneira de viver, que possa resultar no alcance de um estado de felicidade e plenitude. Nesse sentido, o caminho preferencial busca estabelecer uma relação direta, na qual o acúmulo de um dado número de satisfações produza a efetivação de uma condição ideal de bem estar. Coerente com esse raciocínio, a conduta coletiva passa a ser sintetizada dentro de um modelo lógico fabricado dentro do capitalismo, no qual a noção de desejo despertado levará, impositivamente, à busca pela satisfação do mesmo e, em cumprida esta etapa, à felicidade. Fazer brotar o desejo, majoritariamente através da publicidade, viabilizando a sua consecução através da oferta abundante de crédito, coloca em marcha a equação que a todos envolve na contemporaneidade. Inovação, design e obsolescência programada, em adendo,  turbinam o motor do consumo.

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Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

O Capitalismo Artista e a Estetização do Mundo em Lipovetsky : Uma Introdução


a-indstria-cultural-e-o-consumismo-6-638É sabido que o capitalismo não possui a melhor das reputações, mesmo dentre aqueles que se beneficiam do mesmo. Em plena era da informação, resta consolidada a noção geral de que existe algo errado na rotina dos processos de execução do sistema econômico e de consumo atual. Muito embora a quase totalidade dos atores sociais sequer questione o próprio engajamento no mesmo sistema, há um desconforto latente, transversal a tudo e a todos, enquanto o planeta se esgota em sua capacidade de fornecimento de insumos. Mesmo com a constatação empírica de que a única alternativa ao modelo globalmente implementado de produção e consumo vigente tenha falido, ainda assim é óbvio o sentimento de inadequação, em face do aprofundamento da concentração de renda e exaustão de recursos naturais . Partindo dessas observações, Lipovetsky, em parceria com Jean Serroy, nos traz uma fotografia de como, em uma perspectiva histórica, o capitalismo procura se reinventar, mais uma vez, buscando retocar sua imagem de sistema deletério para a humanidade como um todo. Em “A Estetização do Mundo – Viver na Era do Capitalismo Artista – Companhia das Letras, 2015”, os autores ampliam o entendimento de que a reinvenção capitalista é nova forma para velho conteúdo. O capitalismo se apresenta de cara nova, para permanecer o mesmo, trazendo progressivamente para dentro de si características que até o final do século XIX se mostravam antagônicas ao modelo. “Plus ça change, plus c’est la même chose”.
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A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos. Leia mais…»

Estilhaços

 

Aconteceu de novo.13nov2015---corpo-de-vitima-permanece-coberto-diante-da-sala-de-concertos-bataclan-apos-serie-de-ataques-terroristas-em-paris-homens-armados-com-armas-de-fogo-bombas-e-granadas-atacaram-restaurantes-144746983527
É tanto #pray,
que já não sei,
para onde aponto a minha fé.
Spray de pimenta,
na cara do sensato argumento,
repressão e contingência.
Cruzados em nome de qualquer Deus legitimado,
tornam-se homens-bomba virtuais,
jogando na rede a impossibilidade,
do convívio em Estado de Sociedade.
Coadjuvantes, na guerra de todos contra todos, dando palpites corrosivos, no que não foram convocados. Leia mais…

O Tripalium na Pós-Modernidade: A vida adiada para além da vida

Em um dia qualquer, Gregor Samsa acorda em estado de barata. Refeito do impacto inicial, busca adequar-se às recentes limitações cinéticas, para prosseguir com a sua rotina. Em paralelo, ocupa-se de pensar sobre sua agenda naquele dia, sabedor de seus compromissos e das possíveis consequências, caso sua presença seja impossibilitada pela condição recém estabelecida. A vida de caixeiro-viajante não permite licença médica. Não lhe ocorre questionar o metamorfismo, apenas a consequência do mesmo e seu enquadramento necessário em uma nova dinâmica. É imprescindível seguir, ainda que, literalmente, fora de si. Ao partirmos de Kafka e sua obra, a pretensão é estabelecer o que foi feito do individuo, ao contingenciar seus desejos a uma vontade que jamais foi sua, naquele enredo. Em seguida, traçar um paralelo com os tempos atuais é caminho natural. Vida vivida fora da vida, à mercê da satisfação das necessidades de terceiros. Leia mais…»

Crítica ao livro “A cidade & a cidade” de China Miéville

[A cidade & a cidade foi publicado pela Boitempo, 2014. Imagens de Jeremy Mann utilizadas neste post]

Em sua crítica à obra de Tolkien, o escritor Michael Moorcock reduz o universo tolkieniano a uma “confirmação perniciosa dos valores de uma classe média moralmente falida”, e se justifica dizendo que prefere ser um escritor ruim com grandes ideias do que o contrário. Trata-se de um discurso muito similar ao de Saramago em seu “O ano da morte de Ricardo Reis”, onde a postura filosófica do heterônimo de Fernando Pessoa é reduzida a uma covardia política. Com isso quero esclarecer logo de início que minha crítica ao livro de China Miéville passa longe deste tipo de argumento, notadamente moralista.

Mas é justamente este aspecto moralista que pretendo apontar em A cidade & a cidade: não sua moral em si, mas a interdição pela qual esta moral é apresentada. Logo, não se trata de uma discussão sobre o posicionamento do autor (sobre isso, conferir meu ensaio sobre autoria), tampouco sobre o meu posicionamento, que obviamente não deixa de influenciar minha leitura – a saber, penso que antes de dividir o mundo em luta de classes, numa lógica antagônica de exploradores e explorados, diante da qual o engajamento se torna obrigatório para escapar à alienação, convém refletir se nossa realização existencial depende mais de uma postura crítica ou de um jogo puramente estético (conforme defendo aqui, aqui e aqui). Leia mais…»