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Para que serve o seu voto ?

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Vivemos tempos de massificação social, nos quais tudo o que é passível de transformação em mercadoria destina-se a preencher, simbolicamente, um repositório de todas as formas de expressão da humanidade. O voto, entendido como a exteriorização da vontade soberana do indivíduo, possui ai o seu lugar cativo, dado o seu valor para a legitimação de um sistema politico, subjacente ao próprio sistema capitalista. Trata-se aqui do chamado “mercado de votos”, espaço conceitual de duração transitória, onde a legitimação da representatividade democrática é negociada entre as partes. Note-se que o fato do citado “mercado de votos” ser naturalmente transitório, não lhe retira a relevância própria do que representa o exercício do voto : a delegação de poder do cidadão a um semelhante, que atuará em seu nome, dotado de grande autonomia relativa, no intuito de pautar grande parte do rumo a ser seguido pelo conjunto de atores sociais.  Leia mais…

Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana. Leia mais…»

O artista, o belo e a arte : modelagem, mutabilidade e mercado

venus-de-willendorfHouve um tempo em que poderiamos considerar a beleza como produto da observação empírica dos elementos da natureza. Toda obra de arte , traduzida como manifestação sensível do Homem, seria necessariamente limitada a buscar reproduzir o que chega empiricamente ao mesmo. O artista seria então mero executor daquilo que já estaria pronto e acabado, mediante uma ordem cósmica estabelecida previamente, em um estado universal de simetria e harmonia das formas. O belo seria a materialização da perfeita adequação da habilidade do artista, ao mundo que o cerca. De outra forma, Platão restringia o alcance do conceito de arte, pois a idéia de verdadeira arte seria inatingível no plano material, posto que a mesma somente poderia ser apreciada no mundo das idéias. Segundo ele, o sentido do belo transcende o que os sentidos percebem, devido ao caráter precário e imperfectivel destes. Somente a razão superior , acessada pela alma, poderia apreciar o que é a beleza atemporal e absoluta, imutável ao longo dos tempos. Para o pensador, quanto maior a interferência do artista no que a natureza apresenta, maior a deformação, maior a distância entre a idéia perfeita do que é observado e a sua vã tentativa de dar sentido ao que deve ser atingido, como verdade, na transcendência. Leia mais…

O Capitalismo Artista e a Estetização do Mundo em Lipovetsky : Uma Introdução


a-indstria-cultural-e-o-consumismo-6-638É sabido que o capitalismo não possui a melhor das reputações, mesmo dentre aqueles que se beneficiam do mesmo. Em plena era da informação, resta consolidada a noção geral de que existe algo errado na rotina dos processos de execução do sistema econômico e de consumo atual. Muito embora a quase totalidade dos atores sociais sequer questione o próprio engajamento no mesmo sistema, há um desconforto latente, transversal a tudo e a todos, enquanto o planeta se esgota em sua capacidade de fornecimento de insumos. Mesmo com a constatação empírica de que a única alternativa ao modelo globalmente implementado de produção e consumo vigente tenha falido, ainda assim é óbvio o sentimento de inadequação, em face do aprofundamento da concentração de renda e exaustão de recursos naturais . Partindo dessas observações, Lipovetsky, em parceria com Jean Serroy, nos traz uma fotografia de como, em uma perspectiva histórica, o capitalismo procura se reinventar, mais uma vez, buscando retocar sua imagem de sistema deletério para a humanidade como um todo. Em “A Estetização do Mundo – Viver na Era do Capitalismo Artista – Companhia das Letras, 2015”, os autores ampliam o entendimento de que a reinvenção capitalista é nova forma para velho conteúdo. O capitalismo se apresenta de cara nova, para permanecer o mesmo, trazendo progressivamente para dentro de si características que até o final do século XIX se mostravam antagônicas ao modelo. “Plus ça change, plus c’est la même chose”.
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A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos. Leia mais…»

Estilhaços

 

Aconteceu de novo.13nov2015---corpo-de-vitima-permanece-coberto-diante-da-sala-de-concertos-bataclan-apos-serie-de-ataques-terroristas-em-paris-homens-armados-com-armas-de-fogo-bombas-e-granadas-atacaram-restaurantes-144746983527
É tanto #pray,
que já não sei,
para onde aponto a minha fé.
Spray de pimenta,
na cara do sensato argumento,
repressão e contingência.
Cruzados em nome de qualquer Deus legitimado,
tornam-se homens-bomba virtuais,
jogando na rede a impossibilidade,
do convívio em Estado de Sociedade.
Coadjuvantes, na guerra de todos contra todos, dando palpites corrosivos, no que não foram convocados. Leia mais…

Elogio ao simulacro: a imagem que coincide com o real

* texto originalmente publicado na edição #51 da Revista abcDesignFotografias de Matthew Tischler ilustram este post.

Simulacro é a simulação que simula a si mesma. Enquanto “simulação” significa imitação de algum modelo, “simulacro” representa algo que não possui nenhum equivalente. Tal diferença concerne a duas concepções básicas de “representação”: que as imagens estão ligadas a referentes (a coisas reais do mundo) ou que as imagens são autorreferenciais (pois só representam outras imagens). A imagem de “felicidade” prometida por uma marca de refrigerante, por exemplo, é autorreferencial, portanto um simulacro.

Em seu livro Simulacros e Simulação, Jean Baudrillard assinala sua insatisfação com o simulacro dos “estilos de vida” contemporâneos, com a estetização cotidiana que, para ele, só expressa um desejo desesperado de camuflar certo vazio existencial. Ocorre que esta avaliação depreciativa do simulacro, ainda recorrente na crítica cultural, depende inteiramente da exigência romântica por uma realidade mais pura ou autêntica. Leia mais…»

Fragmentos Filosóficos #9 – Pascal sobre a identidade

Este é o nono de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Pensamentos (edição consultada: Trad. Sérgio Milliet. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 121). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo (por minha inteligência), ou por minha memória, gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo. Leia mais…»

Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Prefiro Baudrillard #13 – Vampirotheutis Infernalis


Who da fuck is Terry Gillian? Fiodóro mostrando mais uma vez que a decepção mediante à humanidade permanece ali só esperando o momento certo para revigorar. É o milagre da vida irmãos, esse tal de Bóson de Higgs, uma linha tênue entre já é e já era. Peguem seus cachimbos proteinizados com whey e digam hello darkness my old friend. Zoeira mas fica aí a reflexão galere, abraços e fiquem com deus [em ritmo de funk evangélico]. #freeBeccari Leia mais…»