Posts taggeados com ‘arte’

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Padrões de Intenção e a ordem pictórica: um resumo

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“Nós não explicamos um quadro: explicamos observações sobre um quadro”. Esse é o ponto de partida epistemológico com que Michael Baxandall inicia o seu Padrões de Intenção – A explicação histórica dos quadros. O que se segue são análises feitas através de um diálogo vivo, formando a fundamentação da crítica inferencial—não seria tão distante chama-lo de manifesto, se quisermos. Entre seus objetivos está conciliar a polarização entre crítica e história de arte—o que fica mais evidente, por exemplo, no seu artigo Language of Art History (1979). O nosso, no entanto, pode ser algo que Baxandall sequer previu: entender como o conceito de ordem pictórica é tratado, ainda que indiretamente, em suas análises. Leia mais…

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

Iconologia de Erwin Panofsky

Erwin Panofksy tinha como pano de fundo a tentativa de unir as ciências humanas quando propôs a iconologia, um ramo da história da arte fruto de um esquema de análise de obras renascentistas. Em última instância, ele visava entender obras de arte como janelas para contextos históricos, junto a todas as demais disciplinas humanísticas.

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Crítica ao intelecto demasiado crítico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Acho que eu tinha uns 17 anos quando comprei uma edição da Fenomenologia do Espírito, leitura indicada pela professora de artes. Comecei a ler no percurso entre o colégio e minha casa, mas diante de tantas notas de rodapé e tantos termos em latim/alemão, não entendia uma palavra. Mesmo relendo cuidadosamente as frases, pesando a mão entre uma página e outra, era como rever a pauta da rádio CBN que meu pai colocava pela manhã. Dava sono. Ainda assim eu me esforçava diariamente para avançar mais uma página, até que um dia aquela professora tentou me explicar, entusiasmada, a dialética hegeliana. O que me afligia não era tanto o fato de eu continuar não entendendo nada; o que eu não entendia mesmo era aquela adoração quase infantil em relação a uma teoria que, eu desconfiava, talvez nem a professora tenha entendido. Leia mais…»

Porque esses movimentos são habituais e inconscientes, eu não conseguia lembrar e achava que fosse impossível fazê-lo

ou Design e Estranhamento: Parte I

Imagine essa cena: você está andando na rua, ouvindo sua música preferida pelo seu dispositivo portátil, quando chega ao seu ouvido o refrão sendo tocado cronologicamente invertido. Isso, com certeza, não é algo que você esperava e, mais que automaticamente, você vai achar que o seu dispositivo está quebrado e tira-o do bolso para verificar. Não, normal. A música continua tocando invertida, mas as teclas não funcionam e você analisa cuidadosamente seu dispositivo para achar um diminuto botão de reset.

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Arte e Fascismo: o instrumento da reprodução.

OndaRecentemente assisti ao filme A Onda (Die Welle), esperava um pouco mais, pois ouvi por um certo tempo boas críticas e uma concepção bem interessante da produção do filme: é possível ainda o nazismo na Alemanha? Contudo, apesar de ter achado a construção do filme um pouco apressada para um melhor desenvolvimento da pergunta, me veio uma ideia de escrever uma postagem sobre o famoso ensaio do filósofo Walter Benjamin A Obra de Arte na era da reprodutibilidade técnica. Principalmente para destacar algumas coisas sobre a concepção de arte e sua reprodução no século XX e, por conseguinte, no século XXI. Não escreverei uma relação com o filme, mas com uma similaridade entre ambos: o uso da arte para criticar o fascismo. Antes, vale ressaltar Gilles Deleuze para quem o fascismo trata-se de uma política dominante em que o seu “sucesso” é resultado da manobra de projetar ao indivíduo uma forma de vida. Para isso, a estratégia de Deleuze é escrever o livros de maneira tão desconcertante que tenta afastar de qualquer apropriação de extrema direita, já que no fundo, o fascista sente-se incomodado com o novo. Em outro momento posso aproveitar esse ensejo a partir do Deleuze, mas agora Benjamin entre em cena. Leia mais…

Pink Floyd, espaço-tempo e colaboração

Tenho escutado muito Pink Floyd esses dias.

“I’m not sure. I’m exceedingly ignorant—”

The young man laughed and bowed. “I am honored!” he said. “I’ve lived here three years, but haven’t yet acquired enough ignorance to be worth mentioning.” He was highly amused, but his manner was gentle, and I managed to recollect enough scraps of Handdara lore to realize that I had been boasting, very much as if I’d come up to him and said, “I’m exceedingly handsome…”

“I meant, I don’t know anything about the Foretellers—”

“Enviable!” said the young Indweller. (…)

- Ursula LeGuin, The Left Hand of Darkness

Por esses dias, li o post de Eduardo Camillo e pensei que nós não construímos conhecimento como deveríamos por aqui. Leia mais…»

Mariko Mori e a Consciência Una

* Este texto é uma contribuição de Renata Chaveiro — designer de profissão e artista de alma. Passou, antes disso, pela formação em Publicidade, onde teve a certeza de que não é o backstage das agências que lhe comove, mas as origens e motivações mais profundas da atividade da Comunicação. Foi só na graduação de Design que encontrou o porquê de querer saber tantos porquês: ama a História das coisas e o mistério intrínseco à sua onipotência.

“A arte é necessária e indispensável enquanto existir o mundo da mente, que durará tanto quanto a raça humana continuar a existir. Arte é um tesouro para toda a humanidade.” – Mariko Mori [1]

Final de ano e mais ciclos terminam, trazendo reflexões e pontos de vistas distanciados que não poderiam nos ocorrer em nenhum outro momento, quanto estávamos imersos demais no frenesi cotidiano para torná-los o foco de nossos pensamentos. Devido a este momento de descanso, nossa mente relaxa e temos tempo para dedicar ao pensamento interiorizado, fazendo emergir reflexões sobre nós e sobre para onde estamos sendo levados por nossas escolhas. Finais - e recomeços – de ciclo, afinal, são alguns dos conceitos-chave dos trabalhos mais recentes de Mariko Mori. Leia mais…

Traduções visuais do inconsciente coletivo #01: Tetsuya Ishida

* Este texto é uma contribuição de Renata Chaveiro –designer de profissão e artista de alma. Passou, antes disso, pela formação em Publicidade, onde teve a certeza de que não é o backstage das agências que lhe comove, mas as origens e motivações mais profundas da atividade da Comunicação. Foi só na graduação de Design que encontrou o porquê de querer saber tantos porquês: ama a História das coisas e o mistério intrínseco à sua onipotência.

Em nossa primeira investigação sobre as forças desconhecidas que regem padrões da produção visual contemporânea, visitaremos a obra do pintor Tetsuya Ishida.  Nascido em 1973, em Shizuoka, Japão, seu talento foi notado depois de formar-se na Musashino Art University. O combustível artístico de Ishida foi poderoso: em dez anos de carreira, pintou por volta de 180 quadros. Leia mais…»