Posts taggeados com ‘articulação’

Arte e Design: articulações de um mesmo gesto

* texto originalmente publicado na edição #52 da Revista abcDesignImagens de Jacob van Loon.

Como se sabe, a mera menção à arte costuma suscitar polêmica no campo do design. Embora a relação entre artistas e designers tenha sido sempre estreita ao longo da história, certa distinção foi requerida desde a Bauhaus, cujo manifesto inicial convocava os artistas a construírem finalmente uma “arte aplicada à indústria”, uma arte a serviço da sociedade. Entre os designers gráficos, por sua vez, o que ainda se admite é, nos termos do designer nova-iorquino Paul Rand, o design como sendo “arte comercial”.

Em ambos os casos, pressupõe-se claramente que a arte seja algo não-comercial, algo não-industrial e cujo compromisso é alheio aos problemas cotidianos. O design, em contrapartida, estaria a serviço do “mundo concreto”, das necessidades comerciais e das convenções sociais. Leia mais…»

Não Obstante #14 – Articulações Simbólicas

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Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Sobre acaso e criação estética

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O belo não é nem artifício nem natureza, sendo primeiramente acaso. Daí resulta que o ato humano que culmina na criação de belas formas não é irracional, como diz Platão no Ion, mas casual, como o são todos os atos; e além do mais ele não é exatamente criador, se se entende por criação uma modificação trazida ao estatuto do que existe: nesse sentido – que é aquele habitualmente reconhecido à expressão “criação estética” – toda criação é impossível. – Clément Rosset, Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 183).

O decreto de que “toda criação é impossível” é somente polêmico e insidioso do ponto de vista por ele denunciado: aquele da criação como excepcional ação de transformar o mundo, pressupondo agentes criadores como únicos aptos a fazê-lo. Com efeito, esta faculdade “criadora” é entendida, nestes termos, como aptidão em transcender o acaso, isto é, como capacidade de ultrapassar a sorte oportuna para conceber deliberadamente coisas belas. É neste sentido que a severidade de Platão em relação aos artistas (no livro X da República) não se referia tanto ao ato mimético, mas à intenção de imitar um modelo que seria propriamente inimitável. Qual seja, algum que torne coerente o sentimento agradável que nasce em todas as ocasiões belas, como uma necessidade sem a qual não perceberíamos o belo. Leia mais…»

Entre arte e design, um ritual do mesmo para o mesmo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É inútil escapar ao “jogo de Mamúrio”: o essencial é continuar, apesar das pauladas. O ensinamento do ferreiro Mamúrio é oposto ao dos outros “senhores do fogo” da área indo-europeia: não o Wut, o furor religioso, a cólera que aterroriza os inimigos, mas a calma, a indifereça, o mimetismo; em uma palavra, a caerimonia. – Mario Perniola, Pensando o ritual: sexualidade, morte, mundo (São Paulo: Studio Nobel, 2000, p. 261-262).

Parte da investigação estética iniciada analogamente aos meus estudos em aquarela tem enveredado para o período helenístico, onde se cultivava uma relação intrínseca entre erotismo e arte. Em especial, o véu que esconde/revela o corpo sintetiza a cena romana: a evocação e a manifestação de uma presença que não pode ser afirmada e significada diretamente. Tal dinâmica da máscara, pela qual uma coisa é ao mesmo tempo outra, diz respeito a uma espécie de intuição que sempre alimentei em relação à ideia de design. Algo que, sob um viés filosófico (que antes de tudo é o que me anima), poderia ser dito da seguinte forma: tudo se reduz a pó, mas o pó é também um tipo de véu que a tudo envolve. Leia mais…»