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Fragmentos filosóficos #18 – Agamben e o homem sem conteúdo

Este é o décimo oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O homem sem conteúdo (Trad. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 72), de Giorgio Agamben. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Como o espectador, frente à estranheza do princípio criativo, busca, de fato, fixar no Museu o próprio ponto de consistência, [...] do mesmo modo o artista, que fez, na criação, a experiência demiúrgica da absoluta liberdade, busca agora objetivar o próprio mundo e possuir a si mesmo. [...] Frente ao espaço estético-metafísico da galeria, um outro espaço se abre que lhe corresponde metafisicamente: aquele puramente mental da tela de Frenhofer, no qual a subjetividade artística sem conteúdo realiza, através de um tipo de operação alquímica, a sua impossível verdade. Leia mais…»

Sobre acaso e criação estética

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O belo não é nem artifício nem natureza, sendo primeiramente acaso. Daí resulta que o ato humano que culmina na criação de belas formas não é irracional, como diz Platão no Ion, mas casual, como o são todos os atos; e além do mais ele não é exatamente criador, se se entende por criação uma modificação trazida ao estatuto do que existe: nesse sentido – que é aquele habitualmente reconhecido à expressão “criação estética” – toda criação é impossível. – Clément Rosset, Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 183).

O decreto de que “toda criação é impossível” é somente polêmico e insidioso do ponto de vista por ele denunciado: aquele da criação como excepcional ação de transformar o mundo, pressupondo agentes criadores como únicos aptos a fazê-lo. Com efeito, esta faculdade “criadora” é entendida, nestes termos, como aptidão em transcender o acaso, isto é, como capacidade de ultrapassar a sorte oportuna para conceber deliberadamente coisas belas. É neste sentido que a severidade de Platão em relação aos artistas (no livro X da República) não se referia tanto ao ato mimético, mas à intenção de imitar um modelo que seria propriamente inimitável. Qual seja, algum que torne coerente o sentimento agradável que nasce em todas as ocasiões belas, como uma necessidade sem a qual não perceberíamos o belo. Leia mais…»