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O que há para ser dito e o que há para se ver

Tu não vês senão a ordem e a organização desta pequena cova onde estás alojado [...].
Montaigne, Ensaios, II, 12.

O que há para ser dito não necessita ser dito. Se dizemos alguma coisa, é para ouvir alguma “voz” em tudo o que se diz. Dizer é um meio de fazer o mundo falar, ainda que este, indiferente, permaneça em silêncio. Nenhuma palavra que já não tenha sido dita. Mas só vivemos enquanto somos capazes de dizê-lo, como se o que vemos não pudesse comportar a ousadia de não ser dito.

Tudo o que vemos não é imediatamente visível, mas também não está oculto. Enquanto os enunciados são feitos de palavras, o que vemos é antes de tudo luz e sombra. Qual é a relação entre o que vemos e o que falamos? Podemos acreditar que falamos do que vemos, que vemos aquilo de que falamos e que os dois assim se encadeiam, quando na verdade o que é visível só pode ser visto, e o que é enunciável só pode ser dito. Leia mais…»

Elogio ao barroco: o trágico alegre

O mundo barroco, cujo nome surgiu de maneira depreciativa (pérola irregular, imperfeita), foi revalorizado em meados do século passado, bem menos por seu pensamento e mais por sua arte. As contradições interpretativas indicam as contradições que o caracterizam – não é de se espantar que Eugenio d’Ors, em sua conhecida obra Du baroque, propõe vinte e duas acepções para o termo “barroco”. De um lado, a historiografia clássica caracteriza o século XVII como sendo o “Grande Século” (expressão que Michelet atribui, porém, ao século XVIII), donde a pergunta é inevitável: “grande” por que, em relação a que e de acordo com quem?

De outro lado, o historiador alemão Heinrich Wölfflin, em sua obra Renaissance und Barock (século XIX), transforma o barroco em conceito anistórico que serve para designar o momento decadente em cada período da história da arte. Por sua vez, Benjamim (em Origem do drama barroco alemão) encontrou no período barroco a primeira manifestação de “esvaziamento” das imagens, uma vez que elas não mais irradiavam um sentido unívoco. Pretendo sintetizar aqui dois aspectos que, respectivamente às questões levantadas, considero interessantes no período seiscentista: a emergência de um “teatro filosófico” e, no que tange à visualidade, o fim do valor metafísico das imagens. Leia mais…»