Posts taggeados com ‘Bergson’

Design thinking sob perspectiva humanística

pattern-design-5A definição de design – bem sabem todos os que atuam na área ou pesquisam sobre ela – é objeto de constantes disputas. Antigamente, as disputas costumavam girar sempre em torno do objeto do design: o designer pensa mais na forma ou na função? Em objetos e imagens produzidos em série ou únicos? Atua só na concepção ou também na produção?  Etc etc. Faz algum tempo, porém, que tem ganhado destaque uma definição do design baseada mais nas especificidades do processo de pensamento a ele relacionado do que nas especificidades de seu objeto de atuação. Nessa perspectiva, a pedra fundamental do design é o design thinking, ou seja, a forma de pensar que caracteriza e define o design. É a partir da consolidação dessa definição que campos inteiros do design – como o design de serviços – podem ganhar corpo.

Embora eu acredite que uma multiplicidade de definições pode enriquecer o pensamento sobre o design, é verdade que algumas definições são claramente mais interessantes, adequadas e relevantes que outras. A definição baseada no design thinking parece-me uma das mais frutíferas (juntamente com outras que podem ser vistas como complementares a esta, tais como as definições relacionadas aos cinco eixos propostos em nossas Considerações preliminares para uma filosofia do design). Quando se parte da definição baseada no design thinking, os debates teóricos passam a centrar-se no modo de caracterizar essa forma de pensar que define o design.

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Bergson e o esforço criativo

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Texto originalmente publicado (em versão condensada) na revista Zupi (n. 37).

A filosofia do design, como bem sabem os que acompanham este site, utiliza os referenciais teóricos da filosofia e de suas derivações nas ciências humanas e sociais para refletir sobre questões direta ou indiretamente relacionadas ao design. As questões são virtualmente infinitas. Assim, para evitar a desorientação, propusemos aqui no Filosofia do design cinco eixos principais de questionamento que norteiam nossas reflexões. Um deles busca refletir sobre os conhecimentos próprios ao campo do design, sobre a natureza do processo de criação em design e sobre as formas de ensino que lidam com questões projetuais e criativas. Neste primeiro texto escrito para a seção Filosofia do design da  Zupi — uma parceria do Filosofia do design com a revista Zupi — tratei de um assunto ligado a esse eixo: a natureza do esforço intelectual criativo a partir da filosofia de Henri Bergson, importante pensador francês do início do século XX.

Bergson propõe uma distinção entre memórias ou pensamentos “dinâmicos” e memórias ou pensamentos “imagéticos”. Quando nos lembramos de uma viagem, por exemplo, podemos evocar imagens específicas – sejam elas visuais, como a aparência de um pôr-do-sol espetacular; ou relativas a outros sentidos, como o sabor de um prato exótico ou a voz da aeromoça repetindo pela milésima vez as instruções de segurança.  Mas podemos também evocar uma sensação difusa que representa para nós “a viagem” como um todo, e que de certo modo condensa todas essas imagens em um plano de consciência dinâmico ou não imagético. Leia mais…»

Esquecimento como potência da memória

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“Esquecer não é uma simples força inercial, como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido” – Nietzsche, Genealogia da Moral (II, §1).

Esse post é uma compilação dos estudos que tenho feito sobre memória e esquecimento, como parte de um artigo ainda inacabado. Podemos partir da seguinte questão: como o esquecimento é possível senão pelo reconhecimento da coisa esquecida, isto é, pelo indício de uma lembrança não encontrada? Ora, se não houver uma espécie de “notificação” da memória (que anuncie sua falha), não saberíamos que esquecemos. Acontece que tal enunciado, emprestado da retórica de Santo Agostinho, só faz sentido dentro de uma tradição filosófica platonista segundo a qual memória é conhecimento e que implicitamente sustenta, nos discursos contemporâneos, uma visão localizacionista do cérebro como lugar responsável, dentre outras coisas, pelo armazenamento de memória. Leia mais…»

Bergson, intuição e filosofia do design

Bergson-Nobel-photoO arcabouço teórico erigido pelo filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) oferece muitas ideias bastante relevantes para a construção de uma filosofia do design. Adotando a perspectiva de Bergson, seria possivel até mesmo enquadrar praticamente toda a metafísica ocidental na categoria de “filosofia do design”. Tentarei justificar tal afirmação polêmica ao longo deste texto.

Antes de começarmos, vale relembrar que a metafísica é, grosso modo, o ramo da filosofia que trata de questões relacionadas ao Real para além — ou “dentro”, a depender da perspectiva teórica — do mundo das aparências (aquele que aparece para nós em nossa vida corriqueira). Procurando, assim, a essência ou o “ser” das coisas, aquilo que faz com que elas sejam o que são, seria possível pensar, em um primeiro momento, que metafísica nada tem a ver com filosofia do design. Tal pensamento seria equivocado do início ao fim, pois, como explico em meu texto “Sobre Sócrates e Alces”, do livro Existe design?, já no pensamento de Platão, metafísica tinha tudo a ver com design, uma vez que quem produzia algum objeto deveria fazê-lo de maneira que ele se aproximasse o máximo possível de sua essência – ou seja, de modo que sua forma (aparência) fosse a cópia mais perfeita possível de sua Forma (essência). Leia mais…»