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Fragmentos filosóficos #7 – Hume sobre a crença

Este é o sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Investigação sobre o Entendimento Humano (1748), Seção II, § 9 (edição consultada: Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 28-29). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Todas as idéias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras: o intelecto as apreende apenas precariamente, elas tendem a se confundir com outras idéias assemelhadas, e mesmo quando algum termo está desprovido de um significado preciso, somos levados a imaginar, quando o empregamos com frequência, que a ele corresponde uma idéia determinada. Ao contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, tanto as provenientes do exterior como as do interior, são fortes e vívidas; os limites entre elas estão mais precisamente definidos, e não é fácil, além disso, incorrer em qualquer erro ou engano relativamente a elas. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

Sobre o Charlie Hebdo

* Este texto é uma contribuição de Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio – professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação.

O atentado contra o Charlie Hebdo foi simbólico não por ter sido contra um país europeu (outros já aconteceram, na França mesmo); tampouco pelo número de vítimas (bem reduzido, na verdade desprezível em comparação, por exemplo, ao atentado contra o World Trade Center); também não foi uma vingança feita por patriotas oprimidos do Terceiro Mundo contra colonialistas bancos opressores, como certa crítica, à esquerda, parece querer ver (para ser assim,  os terroristas deveriam ter implodido o Eliseu, ou matado o presidente francês). Também não foi um crime causado por diferenças religiosas, ainda que a religião esteja na base das explicações do atentado. Rigorosamente, atentados por diferenças religiosas são, por exemplo, os que ocorrem na África, pelas mãos do Boko Haram, que gosta de matar cristãos, e nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico no Oriente próximo, que faz o mesmo e é especialmente devotado a exterminar todos os que não sejam muçulmanos sunitas. O atentado em Paris não foi uma cena de guerra entre duas religiões,  mas entre dois aspectos de duas concepções de mundo, uma delas não sendo, definitivamente, uma fé no sentido da convicção em uma base transcendente para seus juízos de valor.

De um lado, temos  fanáticos islâmicos ofendidos até a raiz dos cabelos.  Do outro, cartunistas para quem ficar assim ofendido é um erro, além de ser ridículo. Para os cartunistas do Charlie, não há nenhuma idéia absolutamente sagrada, nada que não possa ser objeto de sátira, sendo justamente a pretensão de certos discursos de estarem acima da crítica ou do enxovalho o critério preferido para se decidir o que deve ser satirizado. Leia mais…»

O mais difícil é o mais aberto

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, dos que a certa hora crepuscular ou em plena noite estrelada precisam nem que seja de um único verso… Esse encontro com o imprevisto vale pelo tanto que a gente andou, por tudo que a gente leu e aprendeu… É preciso perder-se entre os que não conhecemos para que subitamente recolham o que é nosso da rua, da areia, das folhas caídas mil anos no mesmo bosque.
 Pablo Neruda.

Das poucas aulas que tive o privilégio assistir do professor de mitologia Marcos Ferreira-Santos, hoje me lembrei do koan do chá que certa vez ele contou para a turma. Sentado em frente do templo, um mestre ancião ensinava seu discípulo a arte de servir o chá: “olhe e aprenda”. Primeiro chegou um rapaz jovem queixando-se que aquele templo precisava urgentemente de reformas, que ninguém entra ali por causa das condições precárias do local. O velho mestre sorriu e respondeu: “É verdade! Aceita uma xícara de chá?”. Leia mais…»

Como perder o que não se tem ou por que a liberdade é uma ilha

Na cerimônia de minha formatura do ensino médio, subi ao palco segurando uma pomba. Comecei um discurso dizendo que a pomba representava nossa “liberdade”. Prossegui admitindo que eu só comecei a gostar de Machado de Assis quando, sem ter lido o livro, tirei 10 numa prova sobre Dom Casmurro. E que, depois de ler o livro, percebi que eu teria tirado zero porque aquela Capitu era sim uma vadia, mas todo mundo preferia fingir que não, assim como todo mundo preferia fingir que a vida adulta tem algum “propósito” pelo qual vale a pena sacrificar nossa liberdade. Daí eu soltei a pomba, que voou até um tubo de ventilação e morreu.

Fui expulso do colégio no dia seguinte e tive que fazer um semestre de supletivo para conseguir entrar na faculdade. Sem nenhuma dúvida este episódio foi um erro (a Capitu não tinha culpa de nada, muito menos a pomba). Mas o detalhe é que, no momento em que eu soltei a pomba, começou a tocar alguma música do tipo “carruagem de fogo” e todos os pais e familiares me aplaudiram de pé – os diretores, inclusive, foram elogiados pela formação crítica do colégio então traduzida na “lucidez” de meu discurso (obviamente clandestino). Leia mais…»