Posts taggeados com ‘cinismo’

A maior dificuldade do cínico é esconder dos outros a própria ideologia. A maior dificuldade do idealista, por outro lado, é continuar expondo o que pensa e jamais deixar transparecer a amargura do próprio cinismo

2711789618_7f6cee3778_oAconteceu: naquela fatídica tarde de outubro, a máquina do tempo apareceu, em meio a relâmpagos e trovoadas, no escritório da equipe de pesquisa e investigação do continuum espaço-tempo. Estupefatos, os cientistas largaram as canetas e pranchetas em cima da mesa e aproximaram-se lentamente do artefato, que ainda fumegava e disparava faíscas de uma antena em seu topo.

No fundo, o evento era esperado. Reza o paradoxo que, se houver alguma maneira de viajar no tempo, basta que esperemos até que um visitante do futuro apareça para nos ensinar a fórmula, visto que as condições tecnológicas serão muito mais avançadas. Perder tempo (!) com isso, hoje, é desnecessário: no futuro, teremos tempo (!!) e recursos para conduzir pesquisas mais eficazes e assim poderemos voltar no tempo (!!!) para ensinar os humanos do passado a viajar no tempo antes (!!!!) e assim ganhar mais tempo (!!!!!) ainda. Leia mais…

Rir de si: brasilidade como potência de não se levar a sério

* texto originalmente publicado na edição 47 da revista abcDesign.

Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado, porque a noção de identidade nacional é advento recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o Estado-nação como principal modelo de organização social. De outro, porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (Espaço e tempo, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”. Leia mais…»

Crítica ao intelecto demasiado crítico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Acho que eu tinha uns 17 anos quando comprei uma edição da Fenomenologia do Espírito, leitura indicada pela professora de artes. Comecei a ler no percurso entre o colégio e minha casa, mas diante de tantas notas de rodapé e tantos termos em latim/alemão, não entendia uma palavra. Mesmo relendo cuidadosamente as frases, pesando a mão entre uma página e outra, era como rever a pauta da rádio CBN que meu pai colocava pela manhã. Dava sono. Ainda assim eu me esforçava diariamente para avançar mais uma página, até que um dia aquela professora tentou me explicar, entusiasmada, a dialética hegeliana. O que me afligia não era tanto o fato de eu continuar não entendendo nada; o que eu não entendia mesmo era aquela adoração quase infantil em relação a uma teoria que, eu desconfiava, talvez nem a professora tenha entendido. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXVI – do Cinismo ao Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

É comum entre os estudantes de Design uma simpatia por determinados estilos distintos do que se considera tradicional, genérico, standart, senso-comum. Muitos buscam ser cool (esquisitos e descolados) para expressar uma suposta singularidade que, no entanto, retoma diversos movimentos do passado, tais como: o movimento punk, a beat generation, o psicodelismo, o underground, os hippies, os grunges, os góticos, os indies, etc.

De modo geral, o estudante de design recorre a manifestações de rebeldia e vanguardismo. Contudo, quando saímos da faculdade e nos inserimos no mercado de trabalho, geralmente nos rendemos ao tradicional colarinho branco. Enquanto alguns consideram esta mudança de comportamento como sinal de amadurecimento, eu considero como sinal de cinismo.

Cínico vem do grego Kynikós, que significa cão, uma metáfora à vida errante e ao hábito de atormentar os outros com zombarias. Os cínicos foram os radicais-extremistas do pensamento socrático, dentre os quais se destacavam: Antístenes, Diógenes, Crates, Métrocles e Hiparquia. Mas ao contrário do significado pejorativo que hoje damos aos “cínicos” (hipócritas, dissimulados), trata-se aqui da proposta de um homem que se volta a si mesmo, assumindo uma consciência livre. É dessa subjetividade extrema que Nietzsche elabora, com acidez e sarcasmo, o conceito de uma moral além do bem e do mal. A influência da escola cínica no existencialismo nietzschiano foi declarada em Ecce Homo (1995, p. 76), onde o filósofo proclama: “Cinismo que se converterá em histórico e universal”. Leia mais…»