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Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Esboço da compreensão involuntária da incompreensão

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

No começo é difícil, depois a gente se acostuma. Ou a gente se acostuma porque não deixa de ser difícil? Não se trata de dificuldade, é que o imprevisível só se cria neste amontoado de histórias já conhecidas. Nem se eu tentasse mil vezes conseguiria me fazer entender. Cada tentativa é outra em relação a si mesma. Uma vez eu corri feito louco e a queda tingiu de roxo minha perna. Disseram-me para fazer tudo devagar, com bastante calma. Assim constatei certa velocidade que há na lentidão, aquela de um ônibus que nos atropela por andarmos distraídos. Sorte que sou concentrado. Não importa o quanto eu tente, não me distraio. A não ser apenas com o jeito desengonçado com o qual me concentro. Será preciso cair novamente para manter-me de pé? Daquilo que os olhos querem prever eles ainda conseguem se lembrar? [anotações minhas]. Leia mais…»